terça-feira, 10 de março de 2009

Para memória futura



" Da mesma sorte dissera que V.A. acharia certas boas povoações quase desertas , como por exemplo na Beira Alta os grandes lugares da Covilhã, Fundão e cidades da Guarda e de Lamego , em Trás-os-Montes a cidade de Bragança , e destruídas as suas manufacturas. E se V.A. perguntar a causa desta dissolução, não sei se alguma pessoa se atreverá a dizer-lhe com a liberdade que eu terei a honra de fazê-lo; e vem a ser que a Inquisição , prendendo uns por crime de judaísmo, e fazendo fugir outros para fora do reino com os seus cabedais, por temerem que lhos confiscassem se fossem presos, foi preciso que as tais manufacturas caíssem, porque os chamados cristãos-novos as sustentavam e os seus obreiros , que nelas trabalhavam em grande número, foi necessário que se espalhassem e fossem viver a outras partes".

D. Luís da Cunha ( 1662-1749) cit. in Introdução Geográfico-Sociológica à História de Portugal , António Sérgio

Sobre a destruição da indústria da seda em Trás-os-Montes

sexta-feira, 6 de março de 2009

A morte não existe



A morte é a entrada noutros modos de relação e por isso não existe.

Spinoza


Que dizer deste espaço absoluto , esta inquietante espera de algo que se adivinha ? Uma caixa entreaberta onde jaz um pequeno corpo , inerte e frio , um olhar que não sabemos se de angústia , se de dúvida, se de descrença ?

Que pensa esta mulher, que adivinhamos ser a mãe da criança ?

Serão de revolta os seus pensamentos ? de impotência ? de medo ? de piedade ? de conformismo ? de desânimo ? de confusão? que emoções lhe conformarão este momento ? que palavras se lhe secam na garganta ? que gritos calará ?

Não há definição nem estado que se possa aqui identificar.

Tudo o que se pode dizer permanece no vazio . Num devir de outras emoções . Um momento que já não é significante ou uma luz que se reacende com outro reflexo. Um eu diferente.

Tenho uma ideia sobre a morte. A morte não existe.

quinta-feira, 5 de março de 2009

O adagietto da 5ª de Mahler, a pulsão da morte e o sr. Francisco


de repente pela tarde o sr. francisco chamemos-lhe assim entrou pela porta do gabinete oscilando gravemente a cabeça não dr. não estou nada bem isto não vai bem quero morrer e a mulher olhava de soslaio e eu indicava por cortesia a cadeira sente-se sr. francisco sente-se então conte-me o que é que se passa já não quero viver estou cansado de viver não consigo suportar veja a minha boca totalmente seca está irremediavelmente seca queixas que eu já ouvira dezenas de vezes sr. francisco repare o sr. fez radioterapia a sua boca tem de estar seca não há saliva o olhar um pouco baixo eu procurava os olhos do sr. francisco para lhe mostrar que estava a seguir o seu discurso a mulher de lado ele está muito triste sr. dr. já não quer sair nem fazer nada só ouve música horas a fio ópera e mahler ah dr. mahler mahler aquele adagietto doze minutos doze minutos eu contei aquela orquestra bernstein as cordas o tremular das cordas e cantarolava eu cheguei a entoar assim mahler sim sr. francisco o génio de mahler que abarca tudo o bem e o mal a inquietação sr.francisco quando tudo acabar ainda teremos mahler os metais que tocam o infinito a vertigem a natureza ah sim mahler sr.francisco e adivinhava lágrimas nos seus olhos e a mulher abanando a cabeça o sr. dr. tocou-lhe no seu ponto sensível sr. francisco quando já nada mais existir teremos o universo de mahler oh sim adeus adeus sr. dr. eu já me despedi adeus adeus

domingo, 1 de março de 2009

A face e a máscara


O que julgo haver de mais interessante nesta gravura é ela mostrar a base esquelética da face e, sobre ela, o complexo revestimento muscular e cutâneo (este que se adivinha apenas) das estruturas que definem ao nosso olhar a face humana, faltando evidentemente a rede vascular e linfática e, sobretudo , a anatomia nervosa em particular o nervo facial , que dinamiza todos os músculos da face.
Mas esta visão anatómica não reflecte senão o suporte anatomofisiológico do rosto humano e das suas expressões .
Como dizem Courtine e Haroche num excelente trabalho sobre "A história do rosto" , o rosto está no centro das percepções de si, da sensibilidade a outrem, dos rituais da sociedade civil , das formas do político (...) - o rosto fala".
A fisionomia está culturalmente associada ao eu e exprime o íntimo do indivíduo de forma única, quer nos momentos em que as emoções estão controladas, quer nos momentos de pulsão. O relacionamento interpessoal dentro das sociedades estruturou ao longo dos séculos códigos de comunicação através da expressão facial que actualmente se podem considerar como regras de conduta codificadas.
Os indivíduos em sociedade interagem também através de uma certa "ordem expressiva "mantida, como refere Goffman, cuja ruptura traduz uma associalidade que pode ser sancionada.
Esse controlo indirecto da conduta encontra um escape por um lado no intimismo individualista hoje tão em voga sob a forma de meditação e, por outro lado, na ficção artística , desde a imagem até às artes cénicas.
Vejo assim a Arte como uma forma vital de liberdade, sem o que ficaríamos prisioneiros ou da incivilidade da falta de comunicação, ou da dessocialização dos comportamentos não regulados pela norma social.
A massificação da sociedade actual conduziu também e inevitavelmente ao anonimato do rosto e deste evoluiu-se para a criação de grupos que se comunicam em circuito fechado com recurso aos novos meios como forma de definir identificações .
Tais grupos funcionam como reintegradores sociais que já não contemplam a percepção do rosto como forma de leitura comunicativa mas antes como espaços de ideias ou conceitos , muitas vezes estereotipados.
A própria sociedade de massas fomenta, paradoxalmente, os rostos que o imediatismo proporciona serem os mais importantes num certo momento, para passar a outro no momento seguinte e assim sucessivamente.
Estamos assim em plena desconstrução da individualidade psicológica e, onde deveria existir sinceridade no sentido que Rousseau afirmou para o Homem novo, existe descaracterização e máscara .

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Retrato a sépia


Todas as minhas memórias de infância começam em Moncorvo.
Há uma ligação irreprimível com a serra do Roboredo , que eu via das janelas de minha casa e povoava de fantásticas aventuras , no meio dos seus caminhos pedregosos e do arvoredo de cheiro penetrante. Dela eu conseguia olhar a vila como um casario distante à volta da igreja e esse efeito era como que um horizonte de liberdade. Contavam-me histórias do meu avô Adelino a atravessar a serra muitas vezes de noite para ir de Urros a Moncorvo, a cavalo, desafiando lobos e outros perigos. Histórias também da riqueza imensa que a serra guardava , com o seu ventre cheio de minério de ferro.
Da vila para a serra eu passava pela estação de caminho de ferro, com o seu depósito de água e a linha férrea cintilante ao sol, deitada sobre as travessas de madeira, com um cheiro de alcatrão que nunca esqueci. A estação e perto dela a fonte de Sto. António , com o tanque de água fresquíssima mesmo no Verão e o musgo das paredes, eram a fronteira entre o meu mundo conhecido e a aventura .
Na vila , a igreja dominava a paisagem. O adro e, dentro dela, a majestática nave , com uma luz coada e os seus recônditos onde as vozes se perdiam em ecos abafados . Igreja de dominante presença, com o granito acastanhado das suas paredes , os seus sinos que marcavam o tempo da terra , um tempo que no Verão abrasador se alongava pelas ruas e no Inverno se acolhia nas lareiras .
Pelas festas a igreja recebia o pregador , de voz troante e que vinha de fora para falar aos fiéis. A sua voz reberverava nas arcadas ogivais como a de um bíblico mensageiro .
E a praça - a praça ,defronte ao castelo, era uma imensa sala de visitas, com coreto e bancos em torno. Mas dela eu fugia para outras aventuras, na Corredoura e no campo da bola , que eram o meu poiso de eleição.
Festas, feiras, foguetório, bandas de música, procissões, tudo passava ali pela praça, debaixo dos meus olhos maravilhados.
Depois havia ainda o cine-teatro as Aveleiras, a rua do Cabo, a casa da guarda, as quintas . E a casa dos meus Pais - o trabalho da oficina de alfaiataria, o sobe e desce da minha Mãe, a minha Avó Amélia , o escano do quintal onde nas noites de Verão se podia dormir, o fumeiro, os cântaros de água fresca.
E as pessoas e casas da vila, o sóto, o café do Sr. Basílio , a farmácia da D. Carmen.
Imagens que no passado reencontro quando preciso de me reencontrar no presente.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

A "caixa negra" da cirurgia




O acto cirúrgico envolve em regra três fases : a fase pré -operatória na qual é identificado, definido e esclarecido o problema cirúrgico do doente, que então deverá ficar ciente da extensão e possíveis complicações da cirurgia; a fase pós-operatória, verdadeiramente pública, em que são patentes os resultados imediatos e muitas das principais sequelas.

Entre estas duas fases ( e correspondendo ao acto cirúrgico em si ) encontra-se um espaço que o cirurgião reserva como de absoluta intimidade com o seu doente e que constitui o que se pode chamar de verdadeira black box , reduto do artífice, do cientista, do mago, porventura do inovador. Nele fluem momentos de diversos níveis de contenção, alguns terrívelmente críticos por estar em questão a vida ou a morte. Momentos que requerem por vezes uma decisão, sempre solitária, um gesto de corajoso avanço, mas também por vezes de angustiante abandono.

Há certamente um treino que permite dosear as emoções, decidir com base na prudência e no princípio da menor lesão, mas essa decisão será sempre individual e nunca partilhada, nem com a equipa que nesses momentos se reserva à orientação do chefe.

Daí o principio da autoridade do cirurgião, que nunca é questionada porque em última análise é ele que assume o gesto e a consequência.

Pode ( e deve) reportar, relatar a cirurgia, mas é com ele que o doente e a família dialoga, é a ele que avaliam, é a ele que citam no bom e no mau momento.

É pois esta caixa negra que guarda o segredo da fronteira entre o banal e o transcendente, o humano e o sagrado .



segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Coragem e outras ideias


Perguntam-me às vezes que qualidades deve ter um cirurgião.
Questão difícil.
Primeiro porque um cirurgião intervém de forma invasiva num corpo alheio, ressecando, eliminando, modificando, mutilando, enfim alterando a situação anatómica, se assim quisermos designar um estado que , por se considerar patológico , deva ser alterado.
Esta intrusão é, em rigor, violar um espaço físico no sentido imediato do termo. E o corpo é do ponto de vista ético , inviolável, quer esteja vivo ou morto. A sociedade e por ela a justiça regulam de forma muito estreita a qualidade e o alcance dessas intervenções.
A lesão infligida é legitimada pela necessidade de tratar um mal , ou repor a normalidade numa anomalia , ou minorar um mal maior, ou simplesmente salvar o todo que designamos por vida.
De modo que toda a formação de um cirurgião é baseada na necessidade de intervir, no modo como intervir, nas consequências dessa intervenção e, sobretudo na consideração do todo que é o doente.
Do todo físico, social, familiar e moral.
Daí que o cirurgião tenha ( ou deva ter) uma responsabilidade social acrescida e um padrão de comportamento inquestionável.
Mas e para além disso julgo que há outros requisitos necessários .
Uma vez respondi a uma doente minha que um cirurgião precisa de ser corajoso.
Corajoso físicamente e psicologicamente . Há situações intraoperatórias de grande stress que exigem controlo absoluto de emoções e muitas vezes decisões drásticas com implicação directa na vida ou na qualidade de vida do doente - e essas têm de ser tomadas naquele segundo, não amanhã ou depois.
Coragem, determinação, autocontrolo, decisão, perícia e respeito, empatia e solidariedade pelo ser humano que está nas suas mãos. Sem descriminação de nenhuma espécie.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Quanto vale uma vida?






Quanto vale uma vida de alguém que rasteja aos teus pés implorando comida, no auge da miséria e da desumanização ?


Quanto vale uma vida ceifada por uma bala, ou uma bomba ou uma mina ?


Quanto vale uma vida que a discriminação e a intolerância decidiram eliminar?


Quanto vale uma vida que a tortura reduziu à ignomínia do objecto desprezível?


Quanto vale uma vida à qual se impediu o acesso à instrução?


Quanto vale uma vida que a sociedade afastou por deformidade, incapacidade ou por doença?


Quanto vale uma vida dizimada pela cobiça, pela ambição, pela inveja ?


Em nome de quem, de quê, de que obscuros princípios, se mutila, se viola, se prostitui?

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

O que é ser cirurgião de cabeça e pescoço





A cirurgia de cabeça e pescoço não é uma especialidade reconhecida como tal em Portugal - antes constitui uma área cirúrgica comum a outras especialidades cirúrgicas, como a Cirurgia Maxilofacial, Cirurgia Geral , ORL e ainda Cirurgia Plástica e Reconstrutiva. Não tem assim curriculum formativo estabelecido uma vez que congrega Especialistas de diversas áreas cirúrgicas . No entanto exige desses Cirurgiões um período mais ou menos extenso de treino cirúrgico complementar.

É pois uma área cirúrgica difícil, complexa, altamente diferenciada e que exige de quem a ela se dedica elevadas capacidades técnicas , além de um perfil humano muito especial que envolve um grande sentido humanista e até coragem física .

Não digo isto por ser Cirurgião de Cabeça e Pescoço, embora a experiência continuada de mais de 20 anos de actividade exclusiva nesta área me permitam afirmá-lo com conhecimento directo da questão.
Ao fim de todos estes anos de actividade cirúrgica, a que se associam muitos anos de docência e alguma investigação e, sobretudo, uma fantástica aprendizagem de vida com os meus doentes, não posso deixar de me considerar realizado.
Sobretudo por ter adquirido o sentido de humildade de quem está sempre pronto a aprender por não saber tudo e a interrogar para ampliar o horizonte do seu conhecimento.
Ser Cirurgião é um longo percurso de sacrifício pessoal e familiar, de muita responsabilidade profissional e social. Não é um privilégio mas uma fonte de obrigações para com os doentes.