domingo, 19 de abril de 2009

Condição humana



I. aterrou em Lisboa. Vinha de S. Tomé com um pequeno saco vermelho. Vinte e poucos anos. Um enorme e assustado olhar interrogativo. Ao fim de muitos meses de espera um esforço humanitário havia conseguido trazê-lo para Portugal . A doença, um enorme tumor localizado no pescoço, progredira visivelmente. I. já tinha dificuldade em respirar e o volume da lesão expandia a pele no limite da ruptura.



Foi encaminhado para um serviço de um hospital central onde foi sumariamente avaliado. No dia seguinte era literalmente depositado à porta do meu serviço do Instituto . Com o seu pequeno saco vermelho e muitas inquietações. Quem o trouxe saiu rapidamente deixando-lhe uma carta na mão. I. tinha fome. Não tinha comido nem bebido. Movimentaram-se médicos, enfermeiros, serviço social, toda a gente para alojar, alimentar e acarinhar I.


Sucederam-se múltiplos exames. Foi feita uma traqueotomia de emergência. Planeou-se o tratamento.


Um sarcoma. Fez quimioterapia e radioterapia durante mais de dois meses. Com resultado óbvio. O tumor diminuira entretanto, já conseguia engolir melhor. I. já fizera amigos. Era reconhecido nos caminhos do Instituto e a todos respondia com um olhar e um sorriso brilhantes.


A cirurgia começa a configurar-se como solução definitiva.


É-me pedida a opinião.


A ressonância não engana - o tumor tem um vasto componente profundo que não viabiliza a cirurgia. Uma cirurgia cuja impossibilidade é preciso assumir.E transmitir a I.


Os seus sonhos ficaram para sempre nestes corredores . Longe de S. Tomé.




quarta-feira, 15 de abril de 2009

Soeiro Pereira Gomes ( 1909-1949)



Fecharam os telhais. Com os prenúncios de Outono, as primeiras chuvas encheram de frémitos o lodaçal negro dos esteiros , e o vento agreste abriu buracos nos trapos dos garotos, num arrepio de águas e de corpos. Também sobre os fornos e engenhos perpassou lufada desoladora, que não deixava o fumo erguer-se para o alto. Que indústria como aquela queria vento é certo; mas sol também. Vento para enxugar e sol para calcinar - sentenciavam os mestres. Mas o sol andava baixo: não calcinava o tijolo, nem as carnes juvenis da malta.

in Esteiros



do esquivo vento outonal te

passará depois o inverno e daí arrancarás as flores

que a terra húmida e premente

te abrirá nas mãos

gretadas de negras unhas e inquieta revolta

virá o sol mais tarde pela manhã

talvez pela tarde quando os teus pés se perderem em ruas de cinza

e uma luz coada breve sem nome

te afagar a cara

naquele recanto onde costumas estar

olhando o rio

à espera

Daniel de Sousa


sexta-feira, 10 de abril de 2009

Miguel Torga


Coimbra, 2 de Janeiro de 1991
Quimioterapia. Quatro horas a ver pingar para dentro das veias o veneno que há-de matar a morte que teima em viver e medrar dentro de mim. O homem tem o triste vazio de, quanto mais a sente fugir, mais se agarrar à vida. De, quando vê chegada a hora da rendição, perder quase sempre o brio e em vez de enfrentar de cara levantada a fatalidade, bater implorativamente a todas as portas, da ciência, da crendice ou da ilusão. Eu vou ainda na primeira.
Coimbra, 2 de Janeiro de 1991
Uma simples palavra. O que eu a tenho esperado durante toda a vida da boca dos muitos a quem acudi e ainda acudo. Mas parto sem a ouvir. Ou não a mereço, ou os que ma deviam nunca a souberam dizer.
Coimbra, 2 de Janeiro de 1991
Sensação íntima de que estou por um fio. É agora...é logo. E, sem dar ouvidos à voz do pressentimento , arrasto-me todas as manhãs ao consultório, regresso à tardinha a gemer com os safanões do autocarro e subo penosamente a rampa da estrada da casa esperançado numa carta que me espere, numa boa notícia redentora, que sei que não vem, mas teimo em sonhar(...)
Miguel Torga, Diário

Sexta-feira



J. está há mais de dois meses internado no serviço. Tem um cancro em fase terminal. Mas a sua robustez , agora diminuída, vai adiando o desenlace. Os cuidados mitigam o sofrimento mas não impedem a progressão inexorável da doença.
Olha-me quando passo na enfermaria com um olhar emaciado, esquivo. Que me interpela . Talvez me culpabilize. A Medicina não pode tudo, tem limites. Há uma Medicina esplendorosa da cura total - aquela que devolve o ser humano ao seu mundo, à sua família, à sua vida, que restitui o dom de estar e de amar e de fruir . Há uma Medicina da compaixão e da solidariedade, nos limites da dignidade humana . Há uma Medicina do encontro com quem morre.
Há uma Medicina da plenitude e há uma Medicina da revolta , da impotência , da humildade.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Pessach e o Anjo da Morte



Porque é esta noite tão importante ?



detemos o curso do tempo nesta taça de vinho

e os nossos olhos brilham de novo com fulgor

a memória vive

num movimento de futuro

porque aqui imaginamos a liberdade - adameh

suspendemos o golpe mortal do anjo

sobre o nosso rosto

que assim se abre para a luz

vem escravo

sai e caminha comigo

nesta noite

em que começamos a viver

Pedro Saborino






quarta-feira, 1 de abril de 2009

1 de Abril de 1939






há uma página em branco
onde podes escrever quinhentas mil vezes
morto

podes imaginar uma fonte onde não matas a sede
e que deixas para trás
numa curva da estrada com um muro
de pedras manchadas de sangue

levanta os teus olhos sobre este plaino
com flores amarelas que despontam
ouve o canto de pequenas aves assustadas
e, ao longe, uma voz talvez um grito
depois uma rajada

vem tocar este chão de pedras caídas
sobre memórias e membros esmagados
numa luz que não é crepuscular mas
te gela as mãos
agora já nesta manhã que adivinha o nada
um futuro de silêncio



Daniel de Sousa


domingo, 29 de março de 2009

A poesia é uma arma carregada de futuro




A poesia deste basco é tão intensa como as suas buscas. Resistente antifranquista , construiu a utopia de uma poesia de intervenção, social, directa, imanente, que preencheu muitos sonhos da minha juventude. Como esta.



(...) Assim é a minha poesia: poesia-ferramenta
e ao mesmo tempo pulsação do unânime e do cego.
Assim é , arma carregada de futuro expansivo
com que te aponto ao peito

Não é uma poesia gota-a-gota pensada.
Nem um belo produto. Nem um fruto perfeito.
É algo como o ar que todos respiramos
e é o canto que difunde o que levamos dentro.

São palavras que todos repetimos sentindo
como nossa, e voam. São mais do que o que dizem.
São o mais necessário : o que possui um nome.
São gritos no céu e, na terra, são actos.


Gabriel Celaya (1911-1991)

sábado, 28 de março de 2009

Poemas de Varsóvia


I
era húmida e agreste esta morte
como um vento marítimo
era uma cruz de braços desiguais


II
as minhas mãos estão famintas do calor familiar do pão
mas nada disto é verdadeiramente meu
este desejo esta arma esta coragem
de ter a noite colada à cara -
essa morte vigilante
Pedro Saborino ( 1970)

sexta-feira, 27 de março de 2009

Cancro, listas de espera e cidadania





A doença oncológica tem um peso social imenso - pelas implicações pessoais e familiares da doença em si, pelo ónus de rejeição que na crua realidade dos dias muitas vezes ocorre, pela gravidade dos tratamentos , pela ansiedade que o confronto com o diagnóstico desencadeia, pelas próprias fragilidades dos sistemas de saúde envolvidos.


A minha experiência como cirurgião oncológico tem-me permitido contactar muito de perto com estas realidades e, sobretudo lidar com duas fases cruciais da doença : o momento da notícia de que se tem um cancro e, por vezes também, com a notícia de que estão esgotados os tratamentos de intenção curativa ou de que não é já possível operar , por estarem excedidas as possibilidades da cirurgia.


Desta última ( que envolve um grande e desgastante desafio de reflexão, entre os limites e possibilidades da cirurgia , as expectativas do doente e aquilo que é legítimo fazer numa perspectiva humanista de dignidade do doente ) falarei numa outra ocasião.


A notícia , a chamada má notícia, precisa de tempo, quietude, ponderação, conhecimento e sensibilidade para o universo do doente. Cada caso é um caso, mas, invariavelmente o efeito imediato é de estupefacção e vazio. Eu olho nos olhos os meus doentes e nesses instantes pressinto-lhes um longo e infinito vazio , algo entre o desabar de um mundo de projectos e a aridez do nada abosoluto. Que me ( nos) exige igualmente uma disponibilidade total que o frenesim dos serviços nem sempre permite conseguir em plenitude.


De qualquer modo o doente, a família , todo o seu possível contexto social, quantas vezes escasso ou até inexistente, se revertem para um rápida solução do problema. Na realidade o cancro não tem , não pode ter espera. Ninguém consegue confrontar-se semanas ou meses com a ideia de que uma ignara doença o corrói . Nem a evolução da doença o permite .E aqui começam os problemas.
A cirurgia oncológica ( e de uma forma lata a terapêutica inicial ou primária) é reconhecidamente um factor de prognóstico. Daí que seja indispensável a existência de centros oncológicos especializados , que cumpram protocolos de tratamento e que possuam experiência efectiva destas patologias.
Infelizmente verificamos que nem sempre é assim e os doentes são com isso largamente prejudicados. Mas na maior parte dos casos ficam nas chamadas listas de espera, a aguardar a sua vez de serem internados e iniciar o tratamento.
Recorrem então muitas vezes a soluções alternativas, procurando outros hospitais e outros especialistas. Por vezes sem experiência de oncologia, cirúrgica ou outra. Por vezes nos hospitais privados, cujo última e talvez única finalidade é o lucro e não o interesse do doente , o qual despejam depois literalmente nos hospitais públicos quando se esgota o plafond do seguro . Muitas vezes mal ou incompletamente tratados.
Faz mal quem pensar que os hospitais privados estão ali para servir o doente. Quando muito servem-se do doente.
É portanto um problema de cidadania e de justiça social elementar que terminem as listas de espera oncológicas. E que se afiram qualitativamente os hospitais privados de forma rigorosa , isenta e autónoma.
E sobretudo que se invista convictamente no Serviço Nacional de Saúde, também na área oncológica. Sabemos demais quem o quer desmantelar e para quê.

Homenagem a Manuel Alegre



Manuel Alegre é o poeta da paixão indizível, da aventura épica, do destemor, do grande silêncio .Talvez o último poeta romântico do seu tempo.
O seu percurso de vida preencheu o imaginário da minha geração.
Para mim certamente um dos poetas preferidos. Talvez o mais próximo.


Metáforas

As metáforas devoram as metáforas
mas nunca ninguém dirá
aqui
ou
ali.
Porque o teu reino é no adverso e no inverso
e só aí
o vento o verbo um verso.

Manuel Alegre, Livro do Português errante



Que nome te dar? Tu és única. Tu és todas. Ou talvez nenhuma. Eu sou tu. Tu és eu. A outra metade de mim. A parte de ti que em mim ficou. A parte de mim que foi contigo. Ninguém me foi tão próximo. Ninguém me escapou tanto.
Como foi que constantemente nos encontrámos e nos perdemos?
Esta é a história . Uma história sem história. Uma história só isto.

Manuel Alegre, A Terceira Rosa



segunda-feira, 23 de março de 2009

Cirurgia, Cirurgiões e Escolas de Cirurgia


Um recente trabalho de história da Cirurgia publicado na Revista Portuguesa de Cirurgia ( órgão oficial da Sociedade Portuguesa de Cirurgia ) deste mês da autoria do distinto Cirurgião Dr. Luiz Damas Mora sobre a vida e obra do Dr. Manoel Constâncio ,chama a atenção para o seu papel fundador na estruturação do ensino da Cirurgia em Portugal.
O Dr. Manoel Alves, Constâncio de nome acrescentado já em adulto, nasceu em 1726 e faleceu em 1817 . Dotado de uma brilhante inteligência e inesgotável curiosidade científica, matriculou-se como praticante de cirurgia no Hospital Real de Todos-os-Santos em Lisboa em 1750. Foi discípulo de José Elias da Fonseca e de Pierre Dufau , este anatomista. Em 1758 prestou provas para cirurgião perante um júri cujo presidente foi o Cirurgião-Mor do Reino, o Dr. António Soares Brandão, tendo sido aprovado. Foi cirurgião militar na Guerra dos Sete Anos e, após a saída de Dufau para França , concorreu e ficou regente da cadeira de Anatomia, continuando todavia sempre a sua prática cirúrgica.
Já no Convento de Sto . Antão Novo, para onde se haviam mudado os serviços do Hospital de Todos-os-Santos após o terramoto de 1755, com muitas vicissitudes, dedicou-se então plenamente ao ensino , quer da Anatomia , quer da Cirurgia.
Aí fez o que se pode designar a primeira Escola de Cirurgia , de elevado prestígio, chegando a patrocinar a ida para centros de nomeada como em Londres de vários cirurgiões: António de Almeida ( considerado o maior Cirurgião português da primeira metade do século XIX e fellow do Royal College of Surgeons ), Francisco José de Paula, Costa Barreto, Lopes de Abreu, Solano Constâncio ( filho mais velho de Manoel Constâncio), iniciando de forma visionária uma geração brilhantíssima.
Quando se jubilou em 1805 e se recolheu à sua quinta de Vale da Louza, deixou um rasto admirável de discípulos e uma obra visível.
Os Hospitais Civis de Lisboa , também de algum modo fruto dessa obra, foram assim e durante muitos anos uma verdadeira Escola de Cirurgiões, talvez a única e pelo menos a única com tal brilhante passado.
Foi igualmente a minha Escola e tenho para com ela uma dívida de gratidão e um profundo reconhecimento.
Nela aprendi não só a arte e a técnica cirúrgicas mas e sobretudo o respeito integral pelos doentes , pelos colegas e pela instituição.
Numa altura em que se procede ao desmantelamento total desse grupo hospitalar , deixo aqui a minha modesta homenagem, como se fora um epitáfio.

domingo, 22 de março de 2009

Para memória futura III


Se o poeta não for um homem situado no tempo e no espaço, em qualquer parte do mundo e em qualquer instante da História, falando, dando a mão a um outro, único, individual , só , concreto e real - que será , que poderá ser o poeta e a poesia mais do que a vaidade, lixo, nada ?
Se a liberdade é o especificamente humano, então a melhor maneira de o poeta servir o homem e lutar por ele é praticar e ensinar a liberdade. Quando o escritor luta verdadeiramente com a sua arma - a palavra- quando não está coarctado, mostra de facto que a literatura é acção e que a sua acção transforma o mundo, modifica a vida.
Afonso Cautela e Serafim Ferreira , in Poesia Portuguesa do Pós-Guerra , Editora Ulisseia Lisboa 1965
Livro proibido pela Censura do Estado Novo
cf. Livros Proibidos no Estado Novo, pág. 39 , Ed. Assembleia da República Lisboa 2005

sábado, 21 de março de 2009

Herberto Hélder






Herberto Hélder é talvez o maior poeta português vivo e o maior depois de Pessoa na segunda metade do século XX. Criador de uma originalíssima linguagem, que continuamente tem reescrito numa oficina que se adivinha dolorosa e sempre insatisfeita, é o paradigma do processo criador atormentado mas libertante.


Dotado de um fluxo poético torrencial , a sua poesia reinventa as palavras e a própria vida de uma forma inigualável. O seu universo imagético é fulgurante, interventivo, por vezes amargo e abrupto mas mantendo uma melodia sedutora.


Dele poderei dizer que conjuntamente com Nuno Bragança foram os dois revolucionários da literatura portuguesa nos últimos 50 anos.
Este poema é uma das mais admiráveis descrições da criação poética - e um dos meus preferidos.




Sobre um poema




Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne, sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento-
a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.




Herberto Hélder


O poeta não é um fingidor







O poeta não é um fingidor
( réplica a F. Pessoa)



De sentidos e olhares desfeitos no dia que se rompe
memórias de uma noite em vago e indefinido passo
leva-me o poema aonde eu aporto e embaraço
a nau de velas mortas no cais agora em sono estranho

métrica de morte sofrida e lenta , cântico final de um
qualquer destino , longe ou perto, dentro ou fora,
numa dança que o rito determina e em que mora
um sentimento sem sentido , um rosto , uma canção

uma agonia um caminho de pó e vento
por que ando e me destrói os pulsos e me
suspende o corpo nesta cidade sem nome sem nada



Cascais, 20 de Março de 2009

quinta-feira, 19 de março de 2009

Soneto meridional





SONETO MERIDIONAL



na outonal curva em que a vida enfim se alonga
e os sonhos se detêm, talvez findos, talvez vazios,
por demais sofridos golpes ou rudes e frios
momentos, que a fortuna adversa o peso lhes prolonga


no frágil e juvenil caminho das terríveis verdades
que o tempo, insaciável, feroz máquina da morte ,
destrói e consome , sobre nós designando a sorte
dos gestos, das angústias , dos temores, das vontades


descobrimos, em súbito e derradeiro espanto,
o cheiro do mar, que no doce e leve encanto
da noite se desprende, além do tímido odor do laranjal


assim húmido e aos poucos da terra se levanta
depois mais forte que o maior amor , mais que tanta
paixão na fugidia madrugada por fim cresce e se desfaz





Agosto e Dezembro de 2007
Tavira, Cascais

quarta-feira, 18 de março de 2009

Ser ou não ser






M. senta-se na cadeira,as mãos sobre os joelhos. Unhas compridas, pontas dos indicadores amarelas. Casaco de punhos esfiados, caspa sobre a gola e várias nódoas. Uma camisa escura ,abotoada no colarinho. O hálito fétido por detrás de uma barba irregular esconde o enome tumor da boca, cuja procidência se adivinha no queixo abaulado. Os olhos prescrutam-me por detrás das lentes sujas, com cansaço e muitas dúvidas.


No processo clínico vejo que vive sozinho.O doente , nos seus setenta e muitos anos, confirma.


-Não. Não vivo com ninguém. Tenho uma filha. A minha mulher deixou-me.


-Sr.M. estivemos a ver o seu caso e achamos que não o vamos operar.


-Então o que me vão fazer?


-Não o vamos operar porque o sr. tem muitos problemas para além do seu tumor. Problemas que podem levar a um mau resultado da cirurgia.


M. levantou um pouco mais os olhos .


- Eu não me importo de morrer.


-Sr.M. a questão não é bem essa. O sr. compreende que a cirurgia é um meio de tratamento com a finalidade de melhorar alguma coisa ao doente e não de lhe causar dano irreparável.


Silêncio. Cofia a barba.


Percebo que lhe passam pela cabeça muitas perguntas.


Sem respostas.


Na mão uma receita de analgésicos, já fora de validade.


terça-feira, 17 de março de 2009

T.S. Eliot






O que chamamos o princípio é muitas vezes o fim

E terminar é começar.

É do fim que nós partimos .



Little Gidding , Quatro Quartetos

segunda-feira, 16 de março de 2009

Para memória futura II



Arvolicos de almendra que yo planti
por los tus ojos vedrulis
dame la mano nina
que yo por ti
que yo por ti me va mourir
Canto de amor sefardita
Guardar os sábados não trabalhando e vestindo de festa
fazer comida às sextas feiras para o sábado acendendo e mandando acender então candeeiros limpos com mechas novas mais cedo que os outros dias e deixando-os acesos toda a noite até se apagarem
não comer toucinho, nem lebre, nem coelho, nem aves afogadas , nem enguia, polvo congro arraia , pescado que não tivesse escama
jejuar o jejum da rainha Ester assim como às segundas e quintas feiras
celebrar a Páscoa comendo pão ázimo em bacias e escudelas novas , rezando salmos sem Gloria Patri, fazendo a oração contra a parede, sabbadeando, abaixando a cabeça e levantando-a e usando dos ataphalis
Pecados constantes do Edital dos Inquisidores, ano de 1536, no reinado de D. João III
Bula Cum ad Nihil Magis , Papa Paulo III

quinta-feira, 12 de março de 2009

me quedan las palabras



na morte de Rafael Albertí


28 de Outubro de 1999



de que se fazem os cantos as duras formas dos picos submersos na angústia do anoitecer de que se fazem o rosto acerado e aquelas mãos
retorcidas que cortam o vento ? de que se fazem
os pássaros esmagados
dentro dos sonhos
que já não brilham como estrelas
de que se faz o silêncio que provém do vazio
e flutua
aquela boca gelada que já nada pede
o fio trémulo com que o menino segura a lua

os passos
na chuva o calor sufocante e o odor do laranjal
de que se fazem ? o recanto da luz e o pequeno banco de pau
de que se fazem todos os ódios calcinados a greta da miséria
e a tua fome ó vão guerreiro

ó pranto

de que se fazem o destroço o duro arco vergado o caule
morto
ofício roxo de um céu esquecido


de que se fazem?

de que se fazem?

quarta-feira, 11 de março de 2009

Estrada de Inverno


Adianta-te ao adeus, como se ele assim
ficasse para trás, como o Inverno agora.

XIII Soneto a Orfeu R. M. Rilke







Vê como é difícil achar as palavras que nomeiam esta paixão

na tarde em agonia

terrível oficina de silêncios e escuros recantos


escuta o vento nos ramos nus dos plátanos

por cima de memórias que agora enchem os nossos dias

já não sabemos chorar - temos fome - e a estrada corre à nossa frente



gelou a fonte. A terra ressequida estala sob os nossos pés.



Diz-me : onde fica o paraíso ? Sabemos agora mais do que sabíamos ontem sobre o

universo ?

Diz-me ainda : que deus nos conduzirá ?




Vê como o amor se desvenda no poema