terça-feira, 28 de abril de 2009

Maria Gabriela Llansol ou a reinvenção da escrita


Conheci Maria Gabriela Llansol há uns anos atrás em situação que me permitiu ir entendendendo alguns aspectos da sua complexa personalidade e especialmente o fulgor do seu génio criativo. Numa determinada fase da sua vida pessoal foi-me dado assistir de perto ao raro dom da soberana afirmação da palavra sobreposta à sua pungente fragilidade física, num desafio absoluto do espírito. Imagem que carrego na memória como um exemplo singular e que se afigura único em toda a minha experiência de vida.

Da sua escrita disse lucidamente João Barrento tratar-se de uma escrita-vida exactamente porque " nela se confundem a vida e a escrita, sem qualquer traço de confessionalismo : trata-se de um escreviver novo da parte de quem escreve e de um escreler único da parte do legente - pois ler Llansol é ler do lado da escrita e do lado da vida num processo nunca acabado (...)" .

Em Llansol a escrita redime e liberta , questiona e responde, revela o invisível que sempre esteve presente ( o olhar sobre o real desencadeia a visão do real a qual, no invisível, lhe corresponde - O Senhor de Herbais), o universo da imaginação que aglutina todos os seus livros. Enfim, uma escrita de mundos diversos, uma escrita da palavra pura e significante que acede à imagem , sem metáfora - " Escolhi o caminho de uma construção frásica que pudesse dar-me acesso ao mundo autónomo da imagem". Uma escrita que porventura reinventa a linguagem poética sem o saber.

Maria Gabriela Llansol não é, não foi , deste tempo ou deste lado do tempo. Eduardo Lourenço disse certa vez dela " Llansol será provavelmente o último grande mito literário do século XX, depois de Pessoa". Na verdade, a sua obra perdura e desafia de um modo intemporal.


27 de Setembro de 2002

Apago o desenho que já fiz - e as cadeiras estão vazias à volta da mesa. Apaguei as árvores que desenhara sobre o texto, mas elas permanecem erguidas pelas raízes nas cadeiras. O vento derrubou um copo de vidro e de papel. A brisa , agora feita vento, sopra.
(...)
Brilha, perto, aqui, sobre aqui - e sobre tudo -
a luz da vida.

Cadernos 2.63

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Sophia






Não encontro melhor forma de celebrar a madrugada do 25 de Abril do que evocar aqui Sophia de Mello Breyner Andresen .


Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio

E livres habitamos a substância do tempo



Poema de palavra exacta e intensa utopia, que o saúda numa alvorada de esperanças .


No percurso poético de Sophia há uma verdade intrínseca que a modela de dentro para fora , uma construção da linguagem de modo essencial e um retorno ao profundo significado da vertigem das palavras , numa união quase sagrada do ser com o mundo.


A poesia de Sophia de Mello Breyner é notável na sua estética , diria quase solar, de interpelação do real . " Palavras que eu despi da sua literatura, para lhes dar a sua forma primitiva e pura, de fórmulas de magia" diz ela em " O jardim e a noite" de "Poesia" seu livro de estreia , e que repetirá depois pela sua obra.

Mais além da poesia, mas também da prosa, contos, teatro , ensaio e traduções, Sophia teve
uma empenhada e exemplar intervenção política na defesa das liberdades , quer antes do 25 de Abril no tempo da ditadura, quer depois .

Aqui recordo Sophia , a minha paixão pela sua poesia e a minha admiração pelo seu exemplo de cidadania.




quinta-feira, 23 de abril de 2009

Guess who ?





a cérea senhora
séria será mas cérea também
de funéreo e céreo fundo
se apresenta no fundo como céreo está
o fundo de seu céreo e fundo
rosto
mais que o desgosto de o ver tão sério
é fundo o gosto de por tão céreo ser
o ver depois vago e deposto




Daniel de Sousa
23 de Abril de 2009









Aljube - Memória da resistência







Ariane


Ariane é um navio.
Tem mastros, velas e bandeiras à proa,
E chegou num dia branco , frio,
A este rio Tejo de Lisboa.

Carregado de Sonho , fundeou
Dentro da claridade destas grades...
Cisne de todos, que se foi, voltou
Só para os olhos de quem tem saudades...

Foram duas fragatas ver quem era
Um tal milagre assim: era um navio
Que se balança ali à minha espera
Entre as gaivotas que se dão no rio.

Mas eu é que não pude ainda por meus passos
Sair desta prisão em corpo inteiro,
E levantar âncora, e cair nos braços
De Ariane, o veleiro.


1 de Janeiro de 1940
Prisão do Aljube
Miguel Torga



Claridade

Clareou.
Vieram pombas e sol,
e, de mistura com Sonho,
pousou tudo num telhado...
( Eu, destas grades a ver,
desconfiado.)
Depois,
uma rapariga loira,
(era loira)
num mirante,
estendeu roupa num cordel:
roupa branca, remendada,
que se via
que era de gente lavada,
e só por isso aquecia...


1 de Fevereiro de 1940
Prisão do Aljube
Miguel Torga







terça-feira, 21 de abril de 2009

Para memória futura V



A história da perseguição política ao Prof. Abel Salazar pela ditadura salazarista é demonstrativa da sanha feroz com que o regime perseguia os que se lhe opunham, ou apenas o criticavam , e bem assim da fanática cegueira intelectual que o espartilhava.
O Estado Novo tinha montado de forma pertinaz um aparelho repressivo aparentemente legal de que se destacava o tristemente famoso decreto-lei nº 25317 de 13 de Maio de 1935 , o qual referia logo de início :
"Artº 1º - Os funcionários públicos ou empregados, civis ou militares, que tenham revelado ou revelem espírito de oposição aos princípios fundamentais da Constituição Política , ou não dêem garantia de cooperar na realização dos fins superiores do Estado, serão aposentados ou reformados, se a isso tiverem direito, ou demitidos em caso contrário.
Artº 2º - Os indivíduos que se encontrarem nas condições do artigo anterior não poderão ser nomeados ou contratados para quaisquer cargos públicos nem admitidos a concurso para provimento neles.
A que se acrescentava o seguinte parágrafo:
§ único : Quando o provimento se fizer mediante concurso de provas públicas, estas não poderão começar sem que ao respectivo Ministro seja dado conhecimento da lista dos candidatos com a antecedência de dez dias".
Seguindo-se outras disposições que punha nas mãos do governo a decisão de arbitrariamente demitir ou afastar quem muito bem entendesse, fazendo tábua rasa do seu mérito , provas prestadas ou valia científica.
Para além de por todas as formas vigiar, impedir, perseguir, expulsar, provocar, prender e torturar quem muito bem entendia.
Assim foi pois expulso da Universidade e da Faculdade de Medicina do Porto o Prof. Abel Salazar.
Foram também expulsos da Universidade o Prof. Aurélio Quintanilha, o Prof. Manuel Rodrigues Lapa, o Prof. Sílvio Lima, o Prof. Norton de Matos do IST e ainda os professores do ensino primário Jaime Carvalhão Duarte , Costa Amaral e Manuel da Silva.
Assim foi expulso em 1946 o Prof. Bento de Jesus Caraça, professor catedrático do ISCEF da Universidade Técnica de Lisboa.
Assim foi demitido o Prof. Mário de Azevedo Gomes.
Em 18 de Junho de 1947, sendo Ministro da Educação Fernando Andrade Pires de Lima, foram expulsos da Universidade os Profs. Ruy Luís Gomes, Mário Silva, Celestino da Costa, Cândido de Oliveira, Pulido Valente, Fernando Fonseca, Adelino da Costa, Cascão de Ansiães, Torre de Assunção, Flávio Resende , Ferreira de Macedo, Peres de Carvalho, Marques da Silva, Zaluar Nunes, Rémy Freire, Crabée Rocha, Dias Amado, Manuel Valadares, Armando Gibert, Lopes Raimundo, Laureano Barros, José Morgado, Morbey Rodrigues, e outros docentes universitários num total de 21.
Todos eles distintos cientistas , investigadores e docentes, muitos deles catedráticos, alguns de Medicina, afastados de forma humilhante ( o Prof. Ruy Luís Gomes por exemplo foi afastado do serviço por telegrama e ulteriormente após um simulacro de processo disciplinar, foi demitido pelo chamado Conselho Permanente de Acção Educativa presidido por Mário de Figueiredo ) por mero delito de opinião e crítica à ditadura.
Assim foi amputada de forma miserável a inteligência nacional .
O que não admira num regime em que a escritora Virgínia de Castro Almeida escrevia no Século " a parte mais linda, mais forte, mais saudável da alma portuguesa reside nesses 75% de analfabetos (...) felizes os que esqueceram as letras e voltaram à enxada" , ou João Ameal " (...) um dos factores principais da criminalidade é a instrução(...)".
Ou ainda António Ferro que dizia " (...) é mais urgente a constituição de vastas elites do que ensinar o povo a ler".

domingo, 19 de abril de 2009

Censura



Juntam-se neste documento - um editorial de Fernando Namora para o Jornal do Médico, de que fui assinante durante muitos anos e que constituiu uma referência das publicações médicas portuguesas - três situações . Por um lado o autor do editorial, Fernando Namora, por outro lado a figura nele evocada , Jaime Cortesão , e finalmente o facto de o texto ter sido totalmente cortado pela comissão de censura o que eufemisticamente era designado pelo carimbo dos guardiões da verdade salazarista como " visado" .
A perseguição censória era apenas uma pequena mas importante faceta da hedionda máquina de repressão que o regime ditatorial tinha montado para silenciar vozes indesejadas.
Ambos médicos, ambos escritores. Namora foi durante alguns anos médico no Instituto Português de Oncologia ( até 1966) , tendo saído ainda eu iniciava os meus estudos na Faculdade de Medicina de Lisboa. Dessa passagem profisssional colheu muita da experiência humana que depois transparece nos Retalhos da Vida de um Médico. Neste texto Namora evoca a participação de Jaime Cortesão como voluntário do Corpo Expedicionário Português como capitão-médico na I Guerra Mundial e ainda o seu admirável perfil humano e de cidadão.
O Prof. Jaime Cortesão teve uma proeminente actividade anti-fascista que pagou com o exílio primeiro em França e depois no Brasil, que o acolheu e onde exerceu uma fecunda actividade docente e de investigação como historiador. Em 1957 regressou a Portugal e foi preso por se ter envolvido na campanha de Humberto Delgado.
Namora presta-lhe neste texto uma homenagem justíssima - que aos olhos da ditadura era inconveniente.
Mais uma razão para aqui recordar os dois.

Condição humana



I. aterrou em Lisboa. Vinha de S. Tomé com um pequeno saco vermelho. Vinte e poucos anos. Um enorme e assustado olhar interrogativo. Ao fim de muitos meses de espera um esforço humanitário havia conseguido trazê-lo para Portugal . A doença, um enorme tumor localizado no pescoço, progredira visivelmente. I. já tinha dificuldade em respirar e o volume da lesão expandia a pele no limite da ruptura.



Foi encaminhado para um serviço de um hospital central onde foi sumariamente avaliado. No dia seguinte era literalmente depositado à porta do meu serviço do Instituto . Com o seu pequeno saco vermelho e muitas inquietações. Quem o trouxe saiu rapidamente deixando-lhe uma carta na mão. I. tinha fome. Não tinha comido nem bebido. Movimentaram-se médicos, enfermeiros, serviço social, toda a gente para alojar, alimentar e acarinhar I.


Sucederam-se múltiplos exames. Foi feita uma traqueotomia de emergência. Planeou-se o tratamento.


Um sarcoma. Fez quimioterapia e radioterapia durante mais de dois meses. Com resultado óbvio. O tumor diminuira entretanto, já conseguia engolir melhor. I. já fizera amigos. Era reconhecido nos caminhos do Instituto e a todos respondia com um olhar e um sorriso brilhantes.


A cirurgia começa a configurar-se como solução definitiva.


É-me pedida a opinião.


A ressonância não engana - o tumor tem um vasto componente profundo que não viabiliza a cirurgia. Uma cirurgia cuja impossibilidade é preciso assumir.E transmitir a I.


Os seus sonhos ficaram para sempre nestes corredores . Longe de S. Tomé.




quarta-feira, 15 de abril de 2009

Soeiro Pereira Gomes ( 1909-1949)



Fecharam os telhais. Com os prenúncios de Outono, as primeiras chuvas encheram de frémitos o lodaçal negro dos esteiros , e o vento agreste abriu buracos nos trapos dos garotos, num arrepio de águas e de corpos. Também sobre os fornos e engenhos perpassou lufada desoladora, que não deixava o fumo erguer-se para o alto. Que indústria como aquela queria vento é certo; mas sol também. Vento para enxugar e sol para calcinar - sentenciavam os mestres. Mas o sol andava baixo: não calcinava o tijolo, nem as carnes juvenis da malta.

in Esteiros



do esquivo vento outonal te

passará depois o inverno e daí arrancarás as flores

que a terra húmida e premente

te abrirá nas mãos

gretadas de negras unhas e inquieta revolta

virá o sol mais tarde pela manhã

talvez pela tarde quando os teus pés se perderem em ruas de cinza

e uma luz coada breve sem nome

te afagar a cara

naquele recanto onde costumas estar

olhando o rio

à espera

Daniel de Sousa


sexta-feira, 10 de abril de 2009

Miguel Torga


Coimbra, 2 de Janeiro de 1991
Quimioterapia. Quatro horas a ver pingar para dentro das veias o veneno que há-de matar a morte que teima em viver e medrar dentro de mim. O homem tem o triste vazio de, quanto mais a sente fugir, mais se agarrar à vida. De, quando vê chegada a hora da rendição, perder quase sempre o brio e em vez de enfrentar de cara levantada a fatalidade, bater implorativamente a todas as portas, da ciência, da crendice ou da ilusão. Eu vou ainda na primeira.
Coimbra, 2 de Janeiro de 1991
Uma simples palavra. O que eu a tenho esperado durante toda a vida da boca dos muitos a quem acudi e ainda acudo. Mas parto sem a ouvir. Ou não a mereço, ou os que ma deviam nunca a souberam dizer.
Coimbra, 2 de Janeiro de 1991
Sensação íntima de que estou por um fio. É agora...é logo. E, sem dar ouvidos à voz do pressentimento , arrasto-me todas as manhãs ao consultório, regresso à tardinha a gemer com os safanões do autocarro e subo penosamente a rampa da estrada da casa esperançado numa carta que me espere, numa boa notícia redentora, que sei que não vem, mas teimo em sonhar(...)
Miguel Torga, Diário

Sexta-feira



J. está há mais de dois meses internado no serviço. Tem um cancro em fase terminal. Mas a sua robustez , agora diminuída, vai adiando o desenlace. Os cuidados mitigam o sofrimento mas não impedem a progressão inexorável da doença.
Olha-me quando passo na enfermaria com um olhar emaciado, esquivo. Que me interpela . Talvez me culpabilize. A Medicina não pode tudo, tem limites. Há uma Medicina esplendorosa da cura total - aquela que devolve o ser humano ao seu mundo, à sua família, à sua vida, que restitui o dom de estar e de amar e de fruir . Há uma Medicina da compaixão e da solidariedade, nos limites da dignidade humana . Há uma Medicina do encontro com quem morre.
Há uma Medicina da plenitude e há uma Medicina da revolta , da impotência , da humildade.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Pessach e o Anjo da Morte



Porque é esta noite tão importante ?



detemos o curso do tempo nesta taça de vinho

e os nossos olhos brilham de novo com fulgor

a memória vive

num movimento de futuro

porque aqui imaginamos a liberdade - adameh

suspendemos o golpe mortal do anjo

sobre o nosso rosto

que assim se abre para a luz

vem escravo

sai e caminha comigo

nesta noite

em que começamos a viver

Pedro Saborino






quarta-feira, 1 de abril de 2009

1 de Abril de 1939






há uma página em branco
onde podes escrever quinhentas mil vezes
morto

podes imaginar uma fonte onde não matas a sede
e que deixas para trás
numa curva da estrada com um muro
de pedras manchadas de sangue

levanta os teus olhos sobre este plaino
com flores amarelas que despontam
ouve o canto de pequenas aves assustadas
e, ao longe, uma voz talvez um grito
depois uma rajada

vem tocar este chão de pedras caídas
sobre memórias e membros esmagados
numa luz que não é crepuscular mas
te gela as mãos
agora já nesta manhã que adivinha o nada
um futuro de silêncio



Daniel de Sousa


domingo, 29 de março de 2009

A poesia é uma arma carregada de futuro




A poesia deste basco é tão intensa como as suas buscas. Resistente antifranquista , construiu a utopia de uma poesia de intervenção, social, directa, imanente, que preencheu muitos sonhos da minha juventude. Como esta.



(...) Assim é a minha poesia: poesia-ferramenta
e ao mesmo tempo pulsação do unânime e do cego.
Assim é , arma carregada de futuro expansivo
com que te aponto ao peito

Não é uma poesia gota-a-gota pensada.
Nem um belo produto. Nem um fruto perfeito.
É algo como o ar que todos respiramos
e é o canto que difunde o que levamos dentro.

São palavras que todos repetimos sentindo
como nossa, e voam. São mais do que o que dizem.
São o mais necessário : o que possui um nome.
São gritos no céu e, na terra, são actos.


Gabriel Celaya (1911-1991)

sábado, 28 de março de 2009

Poemas de Varsóvia


I
era húmida e agreste esta morte
como um vento marítimo
era uma cruz de braços desiguais


II
as minhas mãos estão famintas do calor familiar do pão
mas nada disto é verdadeiramente meu
este desejo esta arma esta coragem
de ter a noite colada à cara -
essa morte vigilante
Pedro Saborino ( 1970)

sexta-feira, 27 de março de 2009

Cancro, listas de espera e cidadania





A doença oncológica tem um peso social imenso - pelas implicações pessoais e familiares da doença em si, pelo ónus de rejeição que na crua realidade dos dias muitas vezes ocorre, pela gravidade dos tratamentos , pela ansiedade que o confronto com o diagnóstico desencadeia, pelas próprias fragilidades dos sistemas de saúde envolvidos.


A minha experiência como cirurgião oncológico tem-me permitido contactar muito de perto com estas realidades e, sobretudo lidar com duas fases cruciais da doença : o momento da notícia de que se tem um cancro e, por vezes também, com a notícia de que estão esgotados os tratamentos de intenção curativa ou de que não é já possível operar , por estarem excedidas as possibilidades da cirurgia.


Desta última ( que envolve um grande e desgastante desafio de reflexão, entre os limites e possibilidades da cirurgia , as expectativas do doente e aquilo que é legítimo fazer numa perspectiva humanista de dignidade do doente ) falarei numa outra ocasião.


A notícia , a chamada má notícia, precisa de tempo, quietude, ponderação, conhecimento e sensibilidade para o universo do doente. Cada caso é um caso, mas, invariavelmente o efeito imediato é de estupefacção e vazio. Eu olho nos olhos os meus doentes e nesses instantes pressinto-lhes um longo e infinito vazio , algo entre o desabar de um mundo de projectos e a aridez do nada abosoluto. Que me ( nos) exige igualmente uma disponibilidade total que o frenesim dos serviços nem sempre permite conseguir em plenitude.


De qualquer modo o doente, a família , todo o seu possível contexto social, quantas vezes escasso ou até inexistente, se revertem para um rápida solução do problema. Na realidade o cancro não tem , não pode ter espera. Ninguém consegue confrontar-se semanas ou meses com a ideia de que uma ignara doença o corrói . Nem a evolução da doença o permite .E aqui começam os problemas.
A cirurgia oncológica ( e de uma forma lata a terapêutica inicial ou primária) é reconhecidamente um factor de prognóstico. Daí que seja indispensável a existência de centros oncológicos especializados , que cumpram protocolos de tratamento e que possuam experiência efectiva destas patologias.
Infelizmente verificamos que nem sempre é assim e os doentes são com isso largamente prejudicados. Mas na maior parte dos casos ficam nas chamadas listas de espera, a aguardar a sua vez de serem internados e iniciar o tratamento.
Recorrem então muitas vezes a soluções alternativas, procurando outros hospitais e outros especialistas. Por vezes sem experiência de oncologia, cirúrgica ou outra. Por vezes nos hospitais privados, cujo última e talvez única finalidade é o lucro e não o interesse do doente , o qual despejam depois literalmente nos hospitais públicos quando se esgota o plafond do seguro . Muitas vezes mal ou incompletamente tratados.
Faz mal quem pensar que os hospitais privados estão ali para servir o doente. Quando muito servem-se do doente.
É portanto um problema de cidadania e de justiça social elementar que terminem as listas de espera oncológicas. E que se afiram qualitativamente os hospitais privados de forma rigorosa , isenta e autónoma.
E sobretudo que se invista convictamente no Serviço Nacional de Saúde, também na área oncológica. Sabemos demais quem o quer desmantelar e para quê.

Homenagem a Manuel Alegre



Manuel Alegre é o poeta da paixão indizível, da aventura épica, do destemor, do grande silêncio .Talvez o último poeta romântico do seu tempo.
O seu percurso de vida preencheu o imaginário da minha geração.
Para mim certamente um dos poetas preferidos. Talvez o mais próximo.


Metáforas

As metáforas devoram as metáforas
mas nunca ninguém dirá
aqui
ou
ali.
Porque o teu reino é no adverso e no inverso
e só aí
o vento o verbo um verso.

Manuel Alegre, Livro do Português errante



Que nome te dar? Tu és única. Tu és todas. Ou talvez nenhuma. Eu sou tu. Tu és eu. A outra metade de mim. A parte de ti que em mim ficou. A parte de mim que foi contigo. Ninguém me foi tão próximo. Ninguém me escapou tanto.
Como foi que constantemente nos encontrámos e nos perdemos?
Esta é a história . Uma história sem história. Uma história só isto.

Manuel Alegre, A Terceira Rosa



segunda-feira, 23 de março de 2009

Cirurgia, Cirurgiões e Escolas de Cirurgia


Um recente trabalho de história da Cirurgia publicado na Revista Portuguesa de Cirurgia ( órgão oficial da Sociedade Portuguesa de Cirurgia ) deste mês da autoria do distinto Cirurgião Dr. Luiz Damas Mora sobre a vida e obra do Dr. Manoel Constâncio ,chama a atenção para o seu papel fundador na estruturação do ensino da Cirurgia em Portugal.
O Dr. Manoel Alves, Constâncio de nome acrescentado já em adulto, nasceu em 1726 e faleceu em 1817 . Dotado de uma brilhante inteligência e inesgotável curiosidade científica, matriculou-se como praticante de cirurgia no Hospital Real de Todos-os-Santos em Lisboa em 1750. Foi discípulo de José Elias da Fonseca e de Pierre Dufau , este anatomista. Em 1758 prestou provas para cirurgião perante um júri cujo presidente foi o Cirurgião-Mor do Reino, o Dr. António Soares Brandão, tendo sido aprovado. Foi cirurgião militar na Guerra dos Sete Anos e, após a saída de Dufau para França , concorreu e ficou regente da cadeira de Anatomia, continuando todavia sempre a sua prática cirúrgica.
Já no Convento de Sto . Antão Novo, para onde se haviam mudado os serviços do Hospital de Todos-os-Santos após o terramoto de 1755, com muitas vicissitudes, dedicou-se então plenamente ao ensino , quer da Anatomia , quer da Cirurgia.
Aí fez o que se pode designar a primeira Escola de Cirurgia , de elevado prestígio, chegando a patrocinar a ida para centros de nomeada como em Londres de vários cirurgiões: António de Almeida ( considerado o maior Cirurgião português da primeira metade do século XIX e fellow do Royal College of Surgeons ), Francisco José de Paula, Costa Barreto, Lopes de Abreu, Solano Constâncio ( filho mais velho de Manoel Constâncio), iniciando de forma visionária uma geração brilhantíssima.
Quando se jubilou em 1805 e se recolheu à sua quinta de Vale da Louza, deixou um rasto admirável de discípulos e uma obra visível.
Os Hospitais Civis de Lisboa , também de algum modo fruto dessa obra, foram assim e durante muitos anos uma verdadeira Escola de Cirurgiões, talvez a única e pelo menos a única com tal brilhante passado.
Foi igualmente a minha Escola e tenho para com ela uma dívida de gratidão e um profundo reconhecimento.
Nela aprendi não só a arte e a técnica cirúrgicas mas e sobretudo o respeito integral pelos doentes , pelos colegas e pela instituição.
Numa altura em que se procede ao desmantelamento total desse grupo hospitalar , deixo aqui a minha modesta homenagem, como se fora um epitáfio.

domingo, 22 de março de 2009

Para memória futura III


Se o poeta não for um homem situado no tempo e no espaço, em qualquer parte do mundo e em qualquer instante da História, falando, dando a mão a um outro, único, individual , só , concreto e real - que será , que poderá ser o poeta e a poesia mais do que a vaidade, lixo, nada ?
Se a liberdade é o especificamente humano, então a melhor maneira de o poeta servir o homem e lutar por ele é praticar e ensinar a liberdade. Quando o escritor luta verdadeiramente com a sua arma - a palavra- quando não está coarctado, mostra de facto que a literatura é acção e que a sua acção transforma o mundo, modifica a vida.
Afonso Cautela e Serafim Ferreira , in Poesia Portuguesa do Pós-Guerra , Editora Ulisseia Lisboa 1965
Livro proibido pela Censura do Estado Novo
cf. Livros Proibidos no Estado Novo, pág. 39 , Ed. Assembleia da República Lisboa 2005

sábado, 21 de março de 2009

Herberto Hélder






Herberto Hélder é talvez o maior poeta português vivo e o maior depois de Pessoa na segunda metade do século XX. Criador de uma originalíssima linguagem, que continuamente tem reescrito numa oficina que se adivinha dolorosa e sempre insatisfeita, é o paradigma do processo criador atormentado mas libertante.


Dotado de um fluxo poético torrencial , a sua poesia reinventa as palavras e a própria vida de uma forma inigualável. O seu universo imagético é fulgurante, interventivo, por vezes amargo e abrupto mas mantendo uma melodia sedutora.


Dele poderei dizer que conjuntamente com Nuno Bragança foram os dois revolucionários da literatura portuguesa nos últimos 50 anos.
Este poema é uma das mais admiráveis descrições da criação poética - e um dos meus preferidos.




Sobre um poema




Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne, sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento-
a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.




Herberto Hélder


O poeta não é um fingidor







O poeta não é um fingidor
( réplica a F. Pessoa)



De sentidos e olhares desfeitos no dia que se rompe
memórias de uma noite em vago e indefinido passo
leva-me o poema aonde eu aporto e embaraço
a nau de velas mortas no cais agora em sono estranho

métrica de morte sofrida e lenta , cântico final de um
qualquer destino , longe ou perto, dentro ou fora,
numa dança que o rito determina e em que mora
um sentimento sem sentido , um rosto , uma canção

uma agonia um caminho de pó e vento
por que ando e me destrói os pulsos e me
suspende o corpo nesta cidade sem nome sem nada



Cascais, 20 de Março de 2009