quinta-feira, 30 de julho de 2009

Um deus iníquo



A primeira vez que o vi pareceu-me um homem ainda mais pequeno do que na realidade era, de passos curtos, olhos mortiços, um abandono de quase indiferença. Vinha por um tumor no pescoço que havia algumas semanas o atormentava, duro, inflado, estranho. Trazia consigo a mulher, de falas vibrantes, aquele sotaque de fronteira meio espanholado. E uma história obscura. Uma manhã, por desvario, desfechara no crâneo um tiro . Um tiro de que guardava , perto do cerebelo, a irremovível marca. Um projéctil que a cirurgia não conseguira remover. Mas que não lhe roubara nem a vida, nem o tino. O que R. já aceitava como um sinal da providência. Uma benesse.
Operei-o. Durante um par de anos o tumor não deu sinais. Por vezes trazia-me umas chouriças de porco preto, como que de festejo. Depois , um dia, em surdina, começou a tolher-se-lhe a marcha. Os passos tornaram-se vacilantes, caía, tremulava. Pensou-se que fosse da bala. Não era. Era uma coisa neurológica, degenerativa. Irreversível.
De semana em semana R. piorava. Passou à cadeira de rodas. O rosto ensimesmado, a fala presa. De repente deixou de engolir. Nada lhe passava pela goela. Teve que ser intubado. As análises não estavam bem. A hematologia desencantou algo estranho. Um mieloma. Fez quimioterapia.
R. emagreceu ao limite. Ficou esquálido, inerte, de olhos vidrados. Um dia sangrou da boca, uma hemorragia estúpida. Abra lá a boca sr. R. Um tumor, um maléfico tumor da gengiva que o excruciava já de cheiro e dores. Foi de novo operado. Uma cirurgia miserável, mutilante, de incerto fim. Mais uma traqueotomia. Mais tubos. Mais angústias.
Mas R. conseguia por vezes sorrir. Os olhos, cada vez mais pequeninos, brilhavam no fundo de duas covas orbitárias. E levantava os polegares. Na sua cadeira de rodas.
A semana passada R. voltou. De língua inchada, disforme. Tinha uma recidiva. Inoperável.
Vou amanhã despedir-me dele. Vai para uma unidade de cuidados paliativos.
Com a bala dentro do crâneo.

sábado, 25 de julho de 2009

Maria Madalena



Saramago revisita, no seu Caderno, o tema de Jesus e Maria Madalena http://caderno.josesaramago.org/2009/07/24/um-capitulo-para-o-evangelho/.
Longe de uma complexa trama teológica e de uma porventura inútil discussão sobre a divindade e a incarnação, Saramago converte em serenas palavras a imagem de um ser sensível ao amor. Um amor carnal, directo, desnudado. Como pode ser o amor. Visível e provocante. Humanizado. Transgressor.
Revelação e ascese.
E recordo aqui Maria Gabriela Llansol em Amigo e Amiga:
"Mas como é possível não tocar quem se ama?", pergunta o meu corpo, pois acordei , neste dia de chuva, banhada numa tristeza que se converteu em lágrimas e numa
profunda nostalgia do tal luar quando nós vimos dele, ou corremos para ele.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

O Caderno de Saramago


Tal como Saramago cita no frontispício de "O Ano da Morte de Ricardo Reis" (de resto o meu romance preferido de toda a sua obra) - "Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo".
Mas Saramago não é só espectador. É interveniente. Sem ser juiz. Sem cosmogonias. Sem preconceitos.
Saramago reinventou a humanização da escrita, de comovente legibilidade. A história flui, como que projectada, e o autor constrói a sua utopia sem violar a realidade que ali se apresenta, tensa, tangível, tantas vezes descarnada, mas sempre próxima.
Leio Saramago com o mesmo espírito com que ouço os últimos quartetos de Beethoven - certo da sua intemporalidade, numa humilde descoberta, sempre renovada, do mundo e das coisas.
Escritor quase compulsivo, brindou-nos de alguns meses a esta parte com um Caderno -blogue, no qual exprime as suas ideias no fluir dos dias. Notável. Agora em livro. A ler.

domingo, 19 de julho de 2009

Graça Morais




Já aqui falei de Mestre Gil Teixeira Lopes, natural de Mirandela. Hoje vou evocar outra figura maior das artes plásticas, também de origem transmontana - Graça Morais.
Graça Morais nasceu no Vieiro, concelho de Vila Flor, em 1948. Aí mantém o seu atelier e nele
tem produzido uma boa parte da sua obra.
Paisagem física e humana da Terra Quente, que remete para o "Reino Maravilhoso" de Miguel Torga: "Léguas e léguas de chão raivoso, contorcido, queimado por um sol de fogo ou por um fio de neve (...) terra de homens inteiros, saibrosos, que olham de frente e têm no rosto as mesmas rugas da terra".
Quando a determinada altura voltou às suas origens no Vieiro para reflectir , trabalhar e amadurecer ideias, recusando até alguns projectos, dizendo " Ainda não resolvi tudo em Trás-os-Montes", reafirmava as suas raízes profundas. Ancestrais, como a família do Freixiel. A sua oficina - cabaninha, como lhe chama - adega agora transformada em estúdio, quase primitiva, é o recinto mágico da transfiguração. Mitologia de formas antiquíssimas que Graça Morais redescobre e fixa em cores, gestos, rostos. Por vezes trágicos, por vezes inquiridores, por vezes subtis e inocentes. Um universo único, diálogo com a memória, onde todos os seres adquirem uma surpreendente e por vezes visceral pujança.
Figuras e rostos de hierático dramatismo, que parecem ligar-se à terra- mãe, num processo tão lucidamente descrito por António Alçada Baptista "como um itinerário de purificação do Eu e, de certo modo, da própria história onde nascemos".
A pintura de Graça Morais é reflexiva, apaixonantemente melancólica. O seu percurso estilístico assume por vezes ( sobretudo na fase de 80, do retiro no Vieiro ) uma expressão de inusitada violência em que a mulher- vítima tem um papel desafiadoramente central , com um realismo cru.
Na série "O Sagrado e o Profano" assume um perturbante cruzamento do fantástico com o erotismo, depois aprofundado na série " Erotismo e Morte", para mim o ponto mais alto da obra da pintora.
Percurso riquíssimo, que passa depois por retratos femininos marcados, firmes, matriarcais ("As Escolhidas") e mais recentemente por essa magnífica "Memória da Terra", obra de maturidade absoluta, comovente, rostos de uma velhice sofrida, mas sem revolta , como que aguardando a morte.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Invocação das almas



por estes dias lisboa é uma cidade inquieta
de paredes com sombras e uma crua luz que
vem sobre os ombros
como um escapulário
procissões de antigos rostos com órbitas vazias
defuntos e outros restos jacentes
numa tarde de tambores
arrastando as últimas gaivotas
que do rio sobem à colina
e resgatam uma fome milenar
miradouros vazios
desafiam o olhar num ritual de obscuras vozes
esconjuram demónios ocultos nas pedras
de diversos castelos sepultados

nesta cidade
onde rios serpenteiam abaixo dos pés
num frémito como a visão do grande maremoto
o espanto da súbita vaga

nesta cidade cresce por vezes o cheiro
da carne queimada
ouvem-se cânticos de redenção
de repente faz-se um silêncio sobre as
ruas, as praças emudecem e apenas chia a roda
na cave, com gemidos abafados de penitentes

Pedro Saborino
Julho de 2009

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Um olhar



C. entra devagar pela porta entreaberta, pequenos passos, cabeça curvada. Um rosto anónimo. 87 anos ? Talvez , talvez. O nariz destaca-se no rosto, firme, recto. O olhar esquivo. Ou vazio? Atrás uma acompanhante do lar com um pequeno dossier de capa verde na mão. Dona C, então diga-me o que se passa. Um silêncio que me leva a dirigir os olhos para a acompanhante. Nada de exames? Quem a manda cá? Alguma carta? A senhora foi fazer uma TAC ao hospital de Santarém,mas não trazemos nada. Só este papel. Sente-se ali dona C. Um tumor pétreo do pescoço. A cabeça sempre pendente, olhos no chão. Mas não tem nada aí ? Nem um papel? Nada doutor. A mão palpa. Que mais virá hoje? Não vou poder fazer nada. Uma pedra . Um imenso nada. Tem dores dona C.? Não, não tenho . É impossível. Um tumor destes não pode deixar de dar dores. Dores terríveis. Dores excruciantes . Não, não tenho. Há quanto tempo tem isto aqui? Levanta a cabeça e finalmente cruzo-me com o seu olhar. Onde não encontro nada senão o vazio.
O vazio da dor que já não se sente. Da vida que é já só um esperar. Do abandono. Sem revolta. Mas com muitas perguntas.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Ainda Manuel Alegre




No lançamento do livro Alma, referencial do seu imaginário de infância em Águeda, Manuel Alegre proferiu o que ele denominou de Explicação de Alma. A qual acaba por ser também a explicação da sua ligação ás origens. Essa terra única e irrepetível ou terra-todas-as-terras. Simultaneamente origem e forma, princípio e termo. Caminho e libertação.

Revejo-me neste texto, na explicação humaníssima do nostoi que nos habita e nos faz reconstruir com por vezes dolorosos fios a nossa identidade.


" (...) Seja como for, eu tinha de escrever este livro. Há livros que se fazem porque se quer. Há outros que se escrevem porque não pode deixar de ser. Foi o que aconteceu com Alma. Era a raiz e a matriz.

Muitas vezes, nas horas do exílio e da solidão, eu agarrava-me à memória, sobrevivia das minhas próprias raízes. Como Ulisses pensando em Ítaca perdida, também eu pensava num rio, numa rua, numa casa.

Não sei se alguém consegue voltar de um longo exílio. Não sei se alguma vez se volta verdadeiramente a casa. Nem sei tão pouco se alguém, a não ser, como na Odisseia, o fiel porqueiro de Ulisses, verdadeiramente nos reconhece quando voltamos. Talvez Alma fosse a única maneira de voltar à minha terra, à minha casa, ou a mim mesmo. Talvez a única forma de finalmente ser reconhecido pelos que já cá não estão, pelos que nunca me conheceram e pelos que só assim poderão saber quem sou. Ou quem não sou. Sabe-se lá."

Excerto da intervenção de Manuel Alegre no lançamento da 1ª edição de "Alma", Águeda, 19 de Janeiro de 1996.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Máscaras da Utopia



Foi apresentado no dia 10, na Fundação Gulbenkian, a obra Máscaras da Utopia do Prof. José Oliveira Barata. A obra retrata mais de 30 anos de actividade dos grupos de teatro académico ( período de 1938 a 1974), designadamente o TEUC, o TUP, o CITAC e os grupos de teatro de Direito e de Letras de Lisboa.
Centrado num período dominado pela política de silenciamento cultural do salazarismo, o livro apresenta o historial desses grupos de teatro, os seus percursos e os seus intervenientes.
Neste contexto histórico-político é salientado o papel da Fundação Gulbenkian no apoio aos grupos de teatro, quer na formação dos seus elementos, quer nas deslocações efectuadas, algumas delas fora do País. São ainda lembrados os Ciclos Gulbenkian de Teatro, que eu e outros do meu tempo de juventude tiveram o privilégio de fruir quase com sofreguidão, pois eram verdadeiros espaços de liberdade e de partilha.
Os grupos de teatro universitário, longe de serem elitistas e fechados sobre si próprios, eram uma escola de entreajuda e sobretudo autênticos focos de resistência à perseguição censória do regime.
Na ocasião o Prof. José Oliveira Barata ( que foi ele próprio membro do CITAC) apresentou um notável texto, que tomo a liberdade de citar:
http://caminhosdamemoria.wordpress.com/2009/07/11/%c2%abmascaras-da-utopia%c2%bb/

Nele se exprime de forma magnífica o papel demiúrgico da própria utopia que diversas gerações foram construindo, de uma forma que ele próprio designa de anónimo heroísmo da generosidade militante.

domingo, 12 de julho de 2009

Sophia e o Miradouro da Graça




Há poucos dias foi inaugurado no miradouro da Graça um busto de Sophia de Mello Breyner.


Uma justíssima homenagem. Num local que tem muito a ver com Sophia e com o seu modo de amar a cidade. Com o rio Tejo ao fundo e o casario a desdobrar-se desde o castelo o miradouro é um ponto de inspiradora visão .




Aqui fica um poema meu de homenagem a Sophia e que fala de Lisboa.







Revelação


os objectos declinam a luz
em iluminuras suspensas ao final do dia
quando a cidade se adensa por entre códices e rumores
fervilham sons nos recantos
e aves cruzam o espaço dos jardins agora prisioneiros das estátuas
há gente apressada pelas ruas
olhares, silêncios, palavras gretadas, gestos esquivos nos autocarros suburbanos
que fedem um suor magoado, espesso

o rio é agora só uma esquina
um passo
um eco que a noite inventa em naves ocultas
do passado
nas vielas onde ascendem cheiros do perdido império
jasmim, incenso, canela


por fim tudo ali se mostra
aos olhos cegos
numa beleza táctil que nem a morte sujeita, grandiosamente
à destruição do corpo e à temível presença dos anjos
incompletos

terça-feira, 7 de julho de 2009

Poema azul



Poema azul

renascia a flor de azul e dizia o canto
que subitamente sobre o manto
da manhã mais não via que o sereno azul
da flor e dos teus olhos
amada e flor de azul como tu eras

do mar a luz da madrugada
o gosto salgado e o profundo olhar
mais não sabia que muitos mares azuis
e azuis campos de flores
eram como do teu rosto a flor

e flor diria o teu corpo
tudo enfim te tocaria
no mais azul e despojado amor
numa detida espera sem retorno
numa flor azul por ti colhida

segunda-feira, 29 de junho de 2009

O direito ao rosto



Quando A. entrava na sala de espera da consulta as vozes baixavam de tom e havia sussurros.
A. tinha sido uma bela mulher. Um cancro da face, terebrante, insidioso, motivara já várias cirurgias . Cada uma mais mutilante do que a anterior. Até que, no limiar das drásticas decisões lhe fiz a "grande" cirurgia. A cirurgia transfiguradora . A da imagem nulificada, da proscrição, a sagrada ablação do mal, salvífica e necessária.
Mas, com a mão que desfere o golpe, lhe reconstruímos também o rosto. Um rosto então determinado pelos olhos vivos e inquiridores e pela boca, uma boca de lábio superior inerte. Entre eles um espaço, uma ideia de humano, uma forma a haver.
A. olhava todos de frente. Sem máscara alguma. Nunca. Os olhos brilhavam sobre a apreciação compungida dos outros. Uma sociedade selvática, crua de vazios e negações.
Foi entretanto ainda reoperada . Um sobressalto. Que mais fortaleceu a vontade de assumir um rosto. Não necessariamente o rosto original. Mas um rosto novo . Um novo nariz. Uma identidade física que nunca se negara no seu íntimo. Orgulhosamente .
Lenta e pacientemente começámos .
Desenhando um rosto.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Crónica da infância revisitada



Mão amiga ( que não quero revelar mas muito estimo) ofertou-me esta magnífica criação de Baptista-Bastos. Com um carinho que tudo diz da sua - ofertante- bondade e da sua perspicaz compreensão dos meus gostos.

Para além das suas estorinhas de compungente emoção.

Sucede que tenho por B.-B. um enorme afecto. Tão desinteressado quanto genuíno.

E, como ocorre quando o afecto é genuíno e desinteressado, a análise esmorece e o verbo flui , sem outro passo que o da generosidade.

Assim é com este conto, que porventura já não é conto, nem memória, nem verso, nem nada.

Apenas um traço, um rosto, ou muitos rostos e muitas vozes, uma aguarela como as que o pincel de Mónica Cid ali deixam , dentro dos nossos olhos.

Começa com um era uma vez de uma avó que nunca teve ocasião para se sentar e olhar o rio. Uma avó que o autor retrata de compleição baixa, rosto firme e vivência magoada e apreensiva.

Que interpelava o pai , beberrão, ossudo, bruto, mas de triste olhar, sobre o cuidar do filho. E de tudo sabia, num reportório de vivos e de mortos em que o bairro da Bica, onde habitavam, era cenário e foi memória de um mundo que B.-B. revive e refaz.

Um bairro de figuras reais, com um poeta de fechado rosto , esquivo, autor de letras para fado, e outras figuras, ciganos e surdos-mudos, boa gente que a avó lhe descobria para o mundo .

A avó da bolsa de quadrados de flanela de onde saiam umas moedas, um auxílio, um conforto, a bolsa mágica do afago."Tens sonhado um bocadinho por mim?" questionava a avó , que de livros pouco sabia, mas lia na natureza os sinais da eterna busca , como a maresia que do rio subia ás ruas . O rio , o rio eterno como o fluir universal das coisas. Como as putas verdadeiras e a descoberta do corpo, num sobressalto .
Uma avó sábia, pequena e sofredora, imensa e comovente no imaginário de B.-B. , que morreu num dia feriado, docemente, como um pássaro ferido, a olhar o neto.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Fracasso


É por demais óbvio que a campanha do Partido Socialista para as eleições do Parlamento Europeu foi, mais do que decepcionante, um fracasso total. Fracasso que nem a militância do PS conseguiu disfarçar. Vital Moreira, independentemente do seu valor intrínseco como cidadão e como intelectual, foi sem dúvida alguma uma péssima escolha. Uma escolha que compromete de alguma forma, pela pálida imagem pública, discurso cinzento e falta de convicção, a própria imagem do PS neste momento tão crucial na definição de uma estratégia eleitoral para as autárquicas e legislativas de 2009.


Maria de Lurdes Pintasilgo, João Cravinho, António Vitorino e Sousa Franco foram de longe candidatos cabeças de lista mais intervenientes e mais brilhantes do que demonstrou ser Vital Moreira.


Do Congresso de Espinho saiu uma dinâmica estruturante com vista ao combate às desigualdades, exclusão e discriminações, de maior justiça social que alguma vez a direita oportunista e a esquerda demagógica e radical poderiam seriamente propor , dinâmica que a campanha socialista das europeias apenas palidamente reflectiu, se é que essa mensagem alguma vez atingiu o eleitorado.


Mais do que nunca os próximos e decisivos embates eleitorais farão prova da força e vitalidade da esquerda democrática e dos seus valores , face ao sinuoso discurso revivalista de uma oposição que se divide entre o magistério compungido da direita e a utopia gasta de uma esquerda que caça votos no descontentamento do eleitor, dando numa mão um nada e na outra uma ramo de coisa nenhuma.
Mais do que nunca há que dizer a verdade aos portugueses, fechar o balanço da hipocrisia e da ambiguidade, enfrentar o descontentamento e a desilusão, construir esperanças e horizontes - sem o que o sufrágio pode revelar-se calamitoso. Para nós e para as próximas gerações.
O abismo chama o abismo.

sábado, 23 de maio de 2009

Marcos Ana



Amigos, camaradas, hermanos, aquí estamos de nuevo, junto a vuestro duro silencio, para hablar por vuestras bocas enterradas. Ahora hace 70 años que perdimos la guerra, o que nos la hicieron perder los apóstoles de la capitulación. Y llegó “la paz”, la negra paz del franquismo, una red implacable de sangre y odio que nos apresó rabiosamente a todos los defensores de la libertad y la República.
“Sin diques quedó el llantoLos olivos ardiendo. Desgarradascon lívido espanto las palomas,y el toro seco del terror, allanadola paz de los hogares”.
España se convirtió en un campo de exterminio, en un oscuro paredón donde la máquina de matar trabajaba sin descanso. Miles de españoles eran conducidos como rebaños a las cárceles y a los campos de concentración, y otros directamente a improvisados mataderos, donde eran asesinados, tras haber sido torturados. Y después, la trágica parodia de los siniestros Tribunales franquistas, verdugos elegidos, que dictaron y ejecutaron vuestro fusilamiento. Desde su forzado exilio Rafael Alberti describía aquel tiempo:
“Miradla allí,la Muerte está en su casa.Se oye un ciego reloj de horas desiertas.Y hay muchas calles por donde nadie pasa,porque ya nadie puede abrir sus puertas.¡Cuidad que ni una sombra se despierteen esa triste Casa de la Muerte!”
Y ese genocidio duró 40 años. Y cayeron los mejores hombres y mujeres, o adolescentes como las 13 rosas. Se ensañaron con vosotros, por ser los más comprometidos en la lucha por la felicidad del pueblo. Pero no pudieron exterminar vuestro ejemplo, ni apagar el fulgor de vuestra sangre asesinada. Quisieron mataros y os multiplicaron; ahora sois eternos, formáis parte de la historia. Y viviréis eternamente en nuestro recuerdo y en el pensamiento y en el corazón de las generaciones venideras. Como escribió Pablo Neruda en su “Viaje al corazón de Quevedo:”
“Cuando la tiranía oscurece la tierra y castiga las espaldas del pueblo, antes que nada busca la voz más alta y cae su cabeza al fondo del pozo de la Historia. La tiranía corta la cabeza que canta, pero la voz, en el fondo del pozo, vuelve a los manantiales secretos de la tierra y desde la oscuridad sube por la boca del pueblo…”
Y así volvéis permanente a nosotros, porque todos los tiranos juntos con su siniestro poderío, con sus máquinas de matar, no valen lo que un minuto de vuestra vida, no pesan lo que una palabra nuestra y nunca podrán arrancaros de la memoria y del corazón de nuestro pueblo. ¿Cómo sería posible olvidar, como podría hacerlo yo, que conviví con vosotros en mis años de condenado a muerte, que compartimos el pan y el hambre y que a muchos os di, estremecido de dolor y orgullo, el último abrazo cuando ibais a enfrentaros a la madrugada final de vuestra vida?¿Y como olvidar el sufrimiento de vuestras esposas o novias, de vuestras madres que dejaron los mejores años de su vida pegadas como enredaderas humanas a los muros de las prisiones?
Hermanos, yo pude salvarme de aquel naufragio, después de 23 años consecutivos de prisión, pero vuestra muerte quedó para siempre abrazada a mi vida. Y al recobrar la libertad os llevé conmigo y golpeamos juntos las puertas del mundo exigiendo solidaridad para España y para sus hijos encadenados.
Y hoy, aunque parezca increíble, a los 30 años de democracia, tenemos que seguir luchando, con la triste autoridad de vuestra muerte y mi vida, para recuperar la memoria histórica, y para que se reconozca pública e institucionalmente nuestra lucha y vuestro sacrificio frente a la estrategia cómplice del olvido y los falsificadores de la historia.
Después de una Dictadura como la que sufrimos, que segó vuestras vidas y la de tantos y tantas hombres y mujeres, no podemos arrancar esa página de la historia para que se la lleve el viento del olvido. Hay que escribirla con el alfabeto del horror, para que esa tragedia que nos tocó sufrir a nosotros, no sea posible nunca más ni para nadie en España.Conocer la historia de ese tiempo atroz es el más valioso legado que podemos dejar a la juventud de hoy, y la mejor vacuna para proteger la libertad y el futuro de las nuevas generaciones.
Y en esta lucha, podéis sentiros orgullosos de vuestros hijos, de vuestros nietos y nietas, de vuestros familiares, que a golpes de corazón y perseverancia os han arrancado del olvido y están ayudando a construir el gran memorial de la resistencia antifascista.
Hoy, el colectivo “Memoria y Libertad”, al que ellos y ellas pertenecen, nos ha convocado para rendiros este homenaje. Y aquí estamos, junto a un jardín vertical de claveles rojos, erguido como un símbolo sobre las tapias del cementerio. No venimos a llorar vuestra muerte, aunque tengamos que apretar el corazón para evitarlo, sino a afirmar nuestra voluntad de llevar adelante los nobles ideales de vuestra vida.
Hermanos inmortales: sobre estas tapias, ayer salpicadas de sangre y hoy cubiertas de flores rojas, debierais grabar un breve testamento, con los versos que Alberti puso en boca de Juan Panadero:
“Me hirieron, me golpearon,y hasta me dieron la muerte,pero jamás me doblaron!”
Marcos Ana

domingo, 10 de maio de 2009

Gil Teixeira Lopes



Gil Teixeira Lopes vai inaugurar em 19 de Maio , na Casa Fernando Pessoa, uma nova exposição - Heterónimos - Ícones Enigmáticos.
Tenho o privilégio de conhecer Mestre Teixeira Lopes há vários anos e tenho por ele e pela sua obra uma profunda admiração .
Com ele compartilho a origem transmontana - que de resto não renega, antes enaltece. À cidade de Mirandela e a Trás-os-Montes doou grande parte da sua obra . A sua transmontaneidade transparece na admirável coragem física e no seu humanismo generoso. Da sua riquíssima experiência humana ressaltam a consciência, a ética e a estética, como bem disse Baptista-Bastos. O "coração do mundo ", uma criação que enraiza em modelos de rigor e se desenvolve em projecções de inquieta e infinita procura.
Teixeira Lopes tem uma vastíssima obra como pintor, escultor, desenhador, gravador, seguramente uma das mais profundas e representativas das artes plásticas em Portugal . Universal porque profundamente humana , universal porque inovadora e interpelante, universal porque exigente , a sua produção artística de há muito que adquiriu reconhecimento internacional.
Obra empenhada e interveniente, de uma pulsão genial, genesíaca, por vezes contemplativa , por vezes de frenética construção, não nos deixa nunca indiferentes. Antes transpõe o conteúdo íntimo para o espaço exterior , nas formas e nas cores, desafiando uma leitura participativa numa descoberta pungente da nossa própria qualidade humana.


sábado, 9 de maio de 2009

Investigação do cancro






A notícia veiculada pelo Expresso do investimento de dois milhões de euros doados pela Fundação Champalimaud para um projecto de investigação na área do cancro em parceria com três centros norte-americanos de reconhecida importância, vem chamar a atenção para a necessidade premente de incentivar em Portugal essa área científica.


A Dra. Leonor Beleza , Presidente da Fundação , refere o défice existente em Portugal e nos outros países da União Europeia em estudos sobre o cancro, particularmente na área clínica.

É um facto . Mas não pode deixar de referir-se o extraordinário trabalho que tem sido efectuado em Portugal , nas condições que se conhecem , quer em centros hospitalares, quer em centros universitários, muitos deles distinguidos internacionalmente. A produção científica portuguesa na área da investigação oncológica, traduzida em número e qualidade de trabalhos publicados em revistas qualificadas e indexadas, bem como o número de citações produzidas, não falando já nas comunicações em reuniões internacionais , é comparativamente com outros países europeus , notável. Sobretudo se tivermos em conta o número restrito de investigadores e de centros de investigação do cancro em Portugal.


Neste sentido é particularmente importante a notícia ( aliás já bem conhecida no círculo da investigação nacional e internacional ) da abertura e início de actividade em 2010 do maior centro mundial dedicado em exclusivo à investigação, prevenção e tratamento das metástases.


Dotado de uma dimensão invulgar e de uma localização privilegiada , em Lisboa junto ao Tejo, este novo centro vai constituir uma referência mundial, até pelo tipo de investigação monotemática que vai aí ser efectuada e necessariamente pela importância clínica da mesma uma vez que a metastização é um passo crítico da progressão tumoral. Centralizar esta actividade científica em Portugal denota uma grande visão de futuro e um grande respeito por todos os que em Portugal se dedicam à investigação a ao tratamento do cancro.

Sobretudo num momento em que a conjuntura determinou uma drástica redução de fundos para a investigação.

Terry Fox



Terry Fox , um canadiano de Winnipeg, tinha 18 anos quando lhe foi diagnosticado um sarcoma da perna direita. Foi-lhe então efectuada uma amputação pela coxa. Estávamos em 1977.

Durante o seu internamento no hospital Terry viu e conviveu com muitas situações oncológicas, algumas delas em jovens e crianças. O que lhe despertou o sonho de atravessar todo o Canadá em corrida como forma de despertar a consciência da população para o problema do cancro e também para recolher fundos destinados à investigação.

Chamou-lhe Maratona da Esperança.

Começou a sua extraordinária façanha a 12 de Abril de 1980 e ,correndo 26 milhas por dia , atravessou as províncias atlânticas do Canadá, Quebec e Ontario, num crescente de entusiasmo e emoção de toda a população canadiana e mundial.

No dia 1 de Setembro porém foi obrigado a parar. Tinha percorrido 5373 km. Foram-lhe detectadas metástases pulmonares.

Terry viria a falecer em 28 de Junho de 1982 com 22 anos.Pelo seu exemplo magnífico de coragem e abnegação Terry foi proclamado herói nacional do Canadá e constitui um símbolo inspirador para todos os doentes de cancro e todos os que se dedicam ao seu tratamento.

A Fundação que tem o seu nome recolheu até agora mais de 400 milhões de dólares para a investigação do cancro.

No Canadá e em todo o mundo .
A Corrida de 2009 em Portugal vai realizar-se no dia 16 de Maio pelas 8,30 no Parque das Nações em Lisboa.
Junta-te a nós!

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Um mundo quase inabitável


Crise é apenas uma ideia. Cómoda. Não questiona nenhum sistema ideológico, nenhuma religião , não subverte nenhum pensamento político, não é desviante. Cómoda para o poder porque permite instituir a prática hipócrita das almofadas sociais , úteis sobretudo em períodos de escrutínio eleitoral . Cómoda para o sistema financeiro porque lava a imagem de cupidez e lucro sem moral, mantendo as mesmas regras com a vantagem de eliminar uns quantos aprendizes supostamente patetas mas perigosos . Cómoda para o patronato que , após ter exaurido benefícios e lucros das empresas despede em massa e sem réplica com a facilidade com que se desliga um computador . Cómoda para o empregador que busca e usa mão de obra fácil e barata . Cómoda para o arrivismo social que não olha a meios para alcançar os seus fins. Cómoda para a repressão e a intimidação . Cómoda enfim para o discurso irrisório da direita agora armada em consciência moral da sociedade .
Mas crise não significa mudança. Para existir uma mudança teria que mudar-se o curso da história , uma ruptura , um desafio incessante para um mundo novo e um homem novo. Que os políticos da globalização e os sacerdotes da missa de Davos devotos de Hayeck não podem nem desejam protagonizar.
Razão pela qual a crise, esta crise, é uma conjuntura cínica. De domínio da economia sobre a política social. E dos mercados financeiros sobre a economia. E do capital sobre o trabalho.
Porque os nababos das empresas e da finança podem ficar um pouco menos ricos. Mas os trabalhadores ficarão irremediavelmente na miséria. Presos numa jaula que não desejaram, nem foi por eles criada. Numa revolta mal contida.
Enfim um mundo quase inabitável para nós e seguramente inabitável para os nossos filhos e netos.

domingo, 3 de maio de 2009

Costa da Guia


Um final de tarde tranquilo daqueles que se alongam em frente dos nossos olhos até o céu se esbater do laranja vulcânico até ao roxo morno . Sem nuvens. Uns quantos melros e rolas saltitando. Ao fundo a linha do mar , para lá do farol.
O telemóvel toca mas eu ignoro-o . Talvez seja outra vez aquele meu amigo que suspeita ter a gripe nova e está preocupado. Ladra ali um cão e gritam uns miúdos na piscina duma das moradias.
Arrumo uns livros dispersos . O meu filho chega do Guincho com a namorada. Foram passear a pé.
Abro o meu Para Sempre, do Vergílio Ferreira.
"Para sempre. Aqui estou. É uma tarde de Verão, está quente. Tarde de Agosto. Olho-a em volta
na sufocação do calor, na posse final do meu destino. É uma comoção abrupta - sê calmo . Na aprendizagem serena do silêncio. Nada mais terá que aprender ? Nada mais . Tu e a vida que em ti foi acontecendo".
Ou a sempre evocada Maria Gabriela Llansol. O Amigo e Amiga.
" Hoje, terminei o meu ciclo do dia; e eu cavei energicamente a minha terra ; lancei-lhe sementes para o futuro ao prosseguir o rito da ressuscitação para os textos de Nómada
que se levantam em torno de um epicentro
que é uma Obra ___uma obra comum, exactamente como nós
somos uma mó inscrita nos dois lados".
O eterno devir.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Maria Gabriela Llansol ou a reinvenção da escrita


Conheci Maria Gabriela Llansol há uns anos atrás em situação que me permitiu ir entendendendo alguns aspectos da sua complexa personalidade e especialmente o fulgor do seu génio criativo. Numa determinada fase da sua vida pessoal foi-me dado assistir de perto ao raro dom da soberana afirmação da palavra sobreposta à sua pungente fragilidade física, num desafio absoluto do espírito. Imagem que carrego na memória como um exemplo singular e que se afigura único em toda a minha experiência de vida.

Da sua escrita disse lucidamente João Barrento tratar-se de uma escrita-vida exactamente porque " nela se confundem a vida e a escrita, sem qualquer traço de confessionalismo : trata-se de um escreviver novo da parte de quem escreve e de um escreler único da parte do legente - pois ler Llansol é ler do lado da escrita e do lado da vida num processo nunca acabado (...)" .

Em Llansol a escrita redime e liberta , questiona e responde, revela o invisível que sempre esteve presente ( o olhar sobre o real desencadeia a visão do real a qual, no invisível, lhe corresponde - O Senhor de Herbais), o universo da imaginação que aglutina todos os seus livros. Enfim, uma escrita de mundos diversos, uma escrita da palavra pura e significante que acede à imagem , sem metáfora - " Escolhi o caminho de uma construção frásica que pudesse dar-me acesso ao mundo autónomo da imagem". Uma escrita que porventura reinventa a linguagem poética sem o saber.

Maria Gabriela Llansol não é, não foi , deste tempo ou deste lado do tempo. Eduardo Lourenço disse certa vez dela " Llansol será provavelmente o último grande mito literário do século XX, depois de Pessoa". Na verdade, a sua obra perdura e desafia de um modo intemporal.


27 de Setembro de 2002

Apago o desenho que já fiz - e as cadeiras estão vazias à volta da mesa. Apaguei as árvores que desenhara sobre o texto, mas elas permanecem erguidas pelas raízes nas cadeiras. O vento derrubou um copo de vidro e de papel. A brisa , agora feita vento, sopra.
(...)
Brilha, perto, aqui, sobre aqui - e sobre tudo -
a luz da vida.

Cadernos 2.63