Um poema universal.
Do tamanho do mundo.
http://www.youtube.com/watch?v=1tTeZNfwesg&feature=player_embedded
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Não me desiluda

Na verdade, que estranhas são as vielas da cidade da dor,
onde, no silêncio falso, feito de tumulto,
com violência e bravata, o vazadouro sai do molde do vazio:
o ruído dourado, o monumento que explode.
onde, no silêncio falso, feito de tumulto,
com violência e bravata, o vazadouro sai do molde do vazio:
o ruído dourado, o monumento que explode.
X Elegia de Duíno , R.M. Rilke
Não me desiluda dr. , dizia, as mãos contorcidas, o olhar anguloso.
Conheci aquele olhar mil vezes , reconhecê-lo-ia ainda entre mil outros, a pergunta que fica
suspensa sem resposta, parada entre o tudo e o nada.
Não me desiluda – eu sei que me pode curar. Na face, a chaga do tumor patente como uma
abominação. Várias cirurgias, radioterapia, esperanças, depois o nada. Veio procurar-me na
esperança de uma cirurgia salvadora. Sr. F. eu não posso curá-lo. Vou tentar reduzir o tumor,
vou fazer o que for possível, mas não posso curá-lo. Dr. eu sei que pode. Não me desiluda.
E segurava-me no braço enquanto, de lado, a filha dizia que sim com movimentos da cabeça.
Sr. F. a última TAC não é nada animadora. Há vários focos de tumor. Dr. o senhor vai conseguir,
eu sei que vai conseguir.
Mas eu sabia que não ia conseguir.
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Vida
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Poema de amor

deixa-me pensar como eras antes
as minhas palavras secam-se antes de te descrever
não sei mesmo como te diria
se pudesse por fim ver o teu rosto
entre milhares de poemas verdadeiros
onde te nomeio, como uma invocação ou como uma infinidade
as minhas palavras secam-se antes de te descrever
não sei mesmo como te diria
se pudesse por fim ver o teu rosto
entre milhares de poemas verdadeiros
onde te nomeio, como uma invocação ou como uma infinidade
deixa-me revelar-te a curva dos dedos
o olhar talvez inquieto , os silêncios, a respiração
sobre os lábios como o meu corpo agora dormente
vou para além, até onde o poema me leva
o sussurro das árvores junto ao mar diz-me que já é dia
e em breve tudo se revelará
as vozes levantar-se-ão do seu torpor
deixa-me sentir –te neste momento breve
do fim da noite em que tudo se suspende
Setembro de 2009
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Poesia
sábado, 12 de setembro de 2009
Nostos

Voltou Jorge de Sena à terra donde partira um dia, ressentido, amargurado, descrente, inquieto. Inquietude que, no exílio lhe agigantou a obra.
Mas terá valido a pena? A terra continua mesquinha e vil, sombria, incerta. Eternamente adiada.
Ode para o Futuro
Falareis de nós como de um sonho.
Crepúsculo dourado. Frases calmas.
Gestos vagarosos. Música suave.
Pensamento arguto. Subtis sorrisos.
Paisagens deslizando na distância.
Éramos livres. Falávamos, sabíamos, e amávamos serena e docemente.
Uma angústia delida, melancólica,
sobre ela sonhareis.
E as tempestades, as desordens, gritos,
violência, escárnio, confusão odienta,
primaveras morrendo ignoradas
nas encostas vizinhas, as prisões,
as mortes, o amor vendido,
as lágrimas e as lutas, o desespero da vida que nos roubam
- apenas uma angústia melancólica,
sobre a qual sonhareis a idade de oiro.
E, em segredo, saudosos, enlevados,
falareis de nós - de nós! - como de um sonho.
Jorge de Sena, in 'Pedra Filosofal'
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
A peste

Mas a religião do tempo da peste não podia ser a religião de todos os dias e se Deus podia admitir, e mesmo desejar, que a alma repouse e se rejubile nos tempos de felicidade, desejava--a excessiva nos excessos da desgraça. Deus concedia hoje às suas criaturas a graça de colocá-las numa desgraça tal que lhes era necessário reencontrar e assumir a maior virtude, que é a do Tudo ou Nada.
Paneloux afirmou ao seu auditório que o que iria dizer não era coisa fácil – que era preciso querê-la, porque Deus a queria. Os tumores que se formavam eram o caminho natural por onde o corpo rejeitava a infecção......e diziam “Meu Deus, dai-nos tumores”, o cristão saberia abandonar-se à vontade divina ainda que incompreensível. O mal era enviado por Deus.
”Meus irmãos”, disse por fim Paneloux, anunciando que ia terminar, “ o amor de Deus é um amor difícil. Ele pressupõe o abandono total de si mesmo e o menosprezo da pessoa. Mas só ele pode apagar o sofrimento e a morte das crianças, só ele, em todo o caso pode torná-la necessária, pois é impossível compreendê-la e não podemos senão desejá-la. Eis a difícil lição que desejava compartilhar convosco. Eis a fé, cruel aos olhos dos homens, decisiva aos olhos de Deus de quem é preciso que nos aproximemos. Diante desta imagem terrível, é preciso que nos igualemos.
Paneloux afirmou ao seu auditório que o que iria dizer não era coisa fácil – que era preciso querê-la, porque Deus a queria. Os tumores que se formavam eram o caminho natural por onde o corpo rejeitava a infecção......e diziam “Meu Deus, dai-nos tumores”, o cristão saberia abandonar-se à vontade divina ainda que incompreensível. O mal era enviado por Deus.
”Meus irmãos”, disse por fim Paneloux, anunciando que ia terminar, “ o amor de Deus é um amor difícil. Ele pressupõe o abandono total de si mesmo e o menosprezo da pessoa. Mas só ele pode apagar o sofrimento e a morte das crianças, só ele, em todo o caso pode torná-la necessária, pois é impossível compreendê-la e não podemos senão desejá-la. Eis a difícil lição que desejava compartilhar convosco. Eis a fé, cruel aos olhos dos homens, decisiva aos olhos de Deus de quem é preciso que nos aproximemos. Diante desta imagem terrível, é preciso que nos igualemos.
Albert Camus, A Peste 1947
Nesta dança da morte não queremos o deus
da misericórdia não queremos voltar ao irremediável
porque não tememos a dor nem o desconhecido
não queremos voltar a ser a imagem da inquietação
Invocamos-te, divindade, para te dizer : não te queremos
há muito que não somos escravos, que libertámos a vontade
que defrontámos o teu rosto para te mostrar os nossos olhos
desafiadores, a nossa boca que proclama a liberdade
os nossos braços que derrubaram as grades
das tuas prisões milenares
Pode a tua voz rugir sobre nós, desferir o raio, lançar o medo, o opressivo manto da guerra
que nada nos fará calar
Nesta dança da morte que há muito deixámos de temer
2 de Setembro de 2009
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Poesia
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
Ao fim da tarde, com Bernardo Soares (II)

Ao fim da tarde, com Bernardo Soares (II)
Notei-lhe um fino tremor das mãos enquanto acariciava os bordos da pasta. “Mas antes deixe que lhe fale um pouco de mim. Não tenho propriamente uma história de vida para lhe contar. Também não sei se isso será importante. A minha mãe morreu quando eu tinha um ano e claro que não me lembro dela. O meu pai sei que se matou quando eu tinha três anos, mas na realidade nunca o conheci. Fui criado em Lisboa por uma tia materna. Uma tia austera. Tinha entretanto enviuvado e vivia de uma pensão do marido, que fora militar, e de trabalhos de costura que fazia para fora. O meu tio coxeava da perna esquerda devido a um ferimento antigo. Morreu cedo, com uma apoplexia. Lembro-me dele nessa tarde de cara roxa e inchada, agarrado à garganta, num estertor a que assisti aterrorizado sozinho com ele em casa. Aprendi muito cedo e rápido a ser severo, conciso e reservado. Não falava com vizinhos e tudo se passava num tom baixo de voz. As refeições eram a horas rigorosamente certas e nunca falávamos. As luzes eram apagadas às dez da noite. Acordava-se às seis e meia da manhã. Lembro-me do relógio de parede e das suas badaladas nervosas, de timbre metálico. Com elas acordava e me deitava”. Por instantes desviou o olhar e pousou a pasta preta sobre a mesa. Procurou no bolso do casaco o pacotinho de tabaco e com vagar foi enrolando um cigarro que depois acendeu, deitando entre os lábios uma baforada de fumo denso e acre. “Como vê não tenho uma história muito interessante para lhe contar. Vivi com a minha tia Lucília no 3º andar de um prédio da rua da Madalena. Era uma casa grande com cinco divisões,um longo corredor, uma cozinha com bancadas de pedra e uma despensa na qual me costumava fechar por vezes para me esconder. Na traseira tinha uma varanda que dava para as varandas de outros prédios e onde via os estendais de roupa o que por vezes era a minha única distracção. A única talvez não porque muitas vezes ali me sentava a ler, sobretudo Cesário. Como sabe a rua da Madalena é bastante tranquila e eu gostava, como ainda hoje gosto, de sair e descer até à rua da Alfândega e à rua do Arsenal para olhar as pessoas, os carros, o movimento. A minha tia morreu há seis anos. Passava longas horas a fazer paciências e por fim tinha muita dificuldade em andar, pelo que já não saía. Tinha algumas visitas de vizinhas que depois foram espaçando e eu próprio que já andava na Escola Comercial não podia estar muito tempo junto dela. Morreu sentada na sua cadeira da sala, sem qualquer agonia, indiferente e plácida”.
Notei-lhe um fino tremor das mãos enquanto acariciava os bordos da pasta. “Mas antes deixe que lhe fale um pouco de mim. Não tenho propriamente uma história de vida para lhe contar. Também não sei se isso será importante. A minha mãe morreu quando eu tinha um ano e claro que não me lembro dela. O meu pai sei que se matou quando eu tinha três anos, mas na realidade nunca o conheci. Fui criado em Lisboa por uma tia materna. Uma tia austera. Tinha entretanto enviuvado e vivia de uma pensão do marido, que fora militar, e de trabalhos de costura que fazia para fora. O meu tio coxeava da perna esquerda devido a um ferimento antigo. Morreu cedo, com uma apoplexia. Lembro-me dele nessa tarde de cara roxa e inchada, agarrado à garganta, num estertor a que assisti aterrorizado sozinho com ele em casa. Aprendi muito cedo e rápido a ser severo, conciso e reservado. Não falava com vizinhos e tudo se passava num tom baixo de voz. As refeições eram a horas rigorosamente certas e nunca falávamos. As luzes eram apagadas às dez da noite. Acordava-se às seis e meia da manhã. Lembro-me do relógio de parede e das suas badaladas nervosas, de timbre metálico. Com elas acordava e me deitava”. Por instantes desviou o olhar e pousou a pasta preta sobre a mesa. Procurou no bolso do casaco o pacotinho de tabaco e com vagar foi enrolando um cigarro que depois acendeu, deitando entre os lábios uma baforada de fumo denso e acre. “Como vê não tenho uma história muito interessante para lhe contar. Vivi com a minha tia Lucília no 3º andar de um prédio da rua da Madalena. Era uma casa grande com cinco divisões,um longo corredor, uma cozinha com bancadas de pedra e uma despensa na qual me costumava fechar por vezes para me esconder. Na traseira tinha uma varanda que dava para as varandas de outros prédios e onde via os estendais de roupa o que por vezes era a minha única distracção. A única talvez não porque muitas vezes ali me sentava a ler, sobretudo Cesário. Como sabe a rua da Madalena é bastante tranquila e eu gostava, como ainda hoje gosto, de sair e descer até à rua da Alfândega e à rua do Arsenal para olhar as pessoas, os carros, o movimento. A minha tia morreu há seis anos. Passava longas horas a fazer paciências e por fim tinha muita dificuldade em andar, pelo que já não saía. Tinha algumas visitas de vizinhas que depois foram espaçando e eu próprio que já andava na Escola Comercial não podia estar muito tempo junto dela. Morreu sentada na sua cadeira da sala, sem qualquer agonia, indiferente e plácida”.
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quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Ao fim da tarde, com Bernardo Soares

Naquele dia chuvoso de Setembro, que prenunciava um Outono sombrio, descia a Rua Nova do Almada a pensar no bilhete que me tinham deixado na porteira. Queria falar comigo e mostrar-me uns escritos. Uma letra minuciosa, caligráfica, alongada. Alguém lhe dera o meu endereço certamente nalguma tertúlia.
Depressa alcancei o largo de Santos e daí, estugando o passo, a rua de S. Paulo, já sob uma bátega violenta. Quando deparei com o número escrito no bilhete encontro uma porta esconsa de pensão, que nada faria adivinhar não fosse a tabuleta “Pensão Ideal- Almoços e Jantares”. Ainda de rosto molhado entrei no vestíbulo, com um chão de pedra e quase sem luz, e rapidamente subi ao primeiro andar. Uma porta pesada, de um verde já pintado há muitos anos. Dentro ouviam-se algumas vozes, quase em sussurro. O botão da campainha não funcionava, pelo que decidi bater.
O ralo da porta abriu-se e percebi um brilho de óculos que depressa se transformou num “Quem é?” enrouquecido. “O sr. Bernardo Soares está?”. “Está sim. Eu vou abrir”.
Após o ruído do trinco, a porta abre-se para uma saleta de paredes pintadas de azul desbotado e um corredor longo com vários quadros antigos pendurados na parede, ao fundo do qual, à direita se percebia existir uma sala de onde provinham as vozes.
“O sr. Soares está na sala ao fundo”. Ao meu encontro vem um homem magro, vestido com um fato cinzento escuro, gravata azul de nó fino, rosto anguloso no qual se destacava um olhar inquiridor, talvez inseguro, mas persistente. “Sr. S. quero agradecer-lhe o incómodo de ter vindo. Muito desejava a sua vinda. Queira fazer o favor de entrar”.
Conduz-me em passo apressado para um cadeirão da sala, sob um candeeiro que naquele fim de tarde outonal espalhava uma luz cérea. Em redor uma mesa baixa coberta com um naperon de renda. Ao canto um tripé alto suportava uma vaso com gladíolos amarelecidos. Sobre uma das paredes uma velha pintura campestre com um moinho. Do lado oposto uma fotografia de um militar com bigodes retorcidos e a mão direita apoiada no punho do sabre.
Bernardo Soares apagou no cinzeiro um cigarro de tabaco de onça e, sentando-se na cadeira à minha frente, começou por dizer que, sendo ajudante de guarda-livros num armazém de mercearias da rua de S. Julião, tinha ouvido falar de mim numa conversa de café, mais exactamente no Martinho. Que apreciava muito os escritores do Orpheu e que ele próprio também escrevia. Retorqui-lhe que os escritos do Orpheu não eram senão para alguns e, com espanto meu, disse-me que ele era um desses alguns.
Nesse instante fixei melhor o seu olhar e descobri-lhe uma profunda inquietação, uma terrível mistura de perguntas sem resposta, de contradições e de vazios. A chuva batia fortemente na janela da sala e ouviam-se vagamente alguns carros na rua. “Sr. S. eu tenho aqui alguns cadernos de escritos meus que gostava de lhe mostrar”. Abriu uma gaveta no móvel ao seu lado e retirou uma pasta de cartão preto com elásticos.
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quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Duende

Nestas noites quentes de Verão, que apetece gozar até ao alvor da manhã, saio muitas vezes até Sevilha, deixando para trás um Algarve massificado onde muitos portugueses fingem que se divertem espojando-se na praia à torreira do sol entre um almoço de sardinha assada e um jantar de febras e vinho rasca.
A noite sevilhana tem, no Verão, um misterioso perfume de laranjeiras que suaviza o bafo mediterrânico do levante. De repente as luzes tornam-se amareladas, os jardins povoam-se de misteriosos recantos com secretos rumores, as vielas do bairro judeu enchem-se de uma multidão que transborda dos bares num vozear interminável , os pátios fecham-se em mistérios de antigas lendas mouriscas, evola-se o canto de lamentos que se perdem na memória do tempo entre batidas de palmas.
Canto que se prolonga depois pela noite em vários tablaos , alguns para turistas, mas um ou outro com programa mais profundo. Entrego-me fascinado a esta viagem que nos leva perto de alguns segredos indecifráveis. Desenham-se figuras, reinventam-se ritmos, forjam-se emoções, num inexplicável tempo que as escalas sincopadas das guitarras, as palmas, o sapateado, tornam numa vertigem . Os dançadores têm uma pose demiúrgica que recria o eterno mito da paixão mortal, um sentimento trágico da vida, eros e tanatos.
Impossível não lembrar Lorca. E esse indefinível duende.
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Dos cinco sentidos

Dos cinco sentidos:
Perguntar se vio, ou ouvio, ou cheyrou, ou palpou, ou gostou algua cousa defendida sopena de peccado mortal : ou porisso peccar mortalmente, ou le pos a sy, ou a outro em algu perigo probavel de peccar mortalmente , ou deixou de comprir algua ley que obrigau a mortal, Ou fez notavel damno da alma, saude, honra, ou fazéla da do proximo, ou da alma, ou saude de si mesmo.
in Manuall de Confessores & penitentes, p. 498, MDLX.
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
A mão da gruta de Chauvet

As fascinantes pinturas rupestres da gruta de Pont d'Arc, no Sul de França, a maior parte das quais com cerca de 30 a 32 000 anos ( mais antigas portanto que as da gruta de Lascaux), incluem para além de um grande número de figuras animais de comovente realismo, a imagem em negativo de uma mão direita. A mão do artista, se entendermos por artista o criador da imagem e, ao mesmo tempo, o indutor do seu significado.
Porquê a mão? Porquê esta linguagem nova? Esta incursão no terreno do sagrado, no recinto ritualizador da hierofania?
A gruta, povoada de representações animais que o quotidiano apresentava ao caçador, fonte da vida e da sobrevivência, era decerto a imagem do seu microcosmo, fora do qual nada mais existiria que a competição selvagem e porventura o caos.
Podemos imaginar um sentido mágico nesta mão - o ponto de encontro do concreto com a estrutura organizadora do pensamento humano, como referia Lévi Strauss. A observação meticulosa da realidade incluia em si mesma o seu princípio e a sua interpretação. A sua significação seria a forma de intervir no real. A mão o seu agente.
A mão que caça, que come, que faz, que mata, que ritualiza enfim - a mão que transcende a função para se tornar no instrumento da divindade. A mão criadora. Que pinta, que inventa, que acaricia, que escreve.
A mão que cura.
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
A blogosfera

A blogosfera é o reino do efémero. E também o da imaterialidade. E também o da abrangência.E também o da ilusão.
Nela cabem a discussão sobre o repolho do quintal e o grande arroto metafísico do filósofo em fim de carreira. A erotogénese das mamas da vizinha e o lúbrico mundo do geronte voyeur. A introspecção da matrona reformada que tecla o sexo nas tardes mornas e o cavalo voador da mais desconformada paixão. Cabem o político do discurso e o discurso sem política, o tom bom e o bom tom, o mau hálito da velha (política) consumida escatologicamente, massificadamente, redundantemente, prostituidamente.
Cabem o texto e o contexto, a canção e a cantada, o toque e o apalpão, o botox marado e o nariz refinado, a dama e a madama, a coxa e a pernama.
Cabem o sacrílego, o sarcástico, o satânico, o salamizador, o exterminador, o purificador. O eterno e o finito. O divino e o profano. A verdade e o cenário. O sim e o não. O pois sim.
Vale tudo na blogosfera. Se está vivo, faça-se morto. Se morreu , revivifique-se. Desanque-se, desmonte-se , componha-se, cuspa-se, dispa-se, desfaça-se, invente-se. Se. Se puder, poste-se. Na posta. No posto. Composto. Recomposto. Descomposto. Indisposto. Satisposto.
Génios e imbecis. Sensatos e insanos. Mais imbecis que génios, obviamente.
Morra a blogosfera! Morra ! Pum!
Homenagem ao Carlos Mota de Oliveira, autor de LOGO, EM PORTO FORMOSO
terça-feira, 4 de agosto de 2009
Bernardo Santareno (1920-1980)

Falar de Bernardo Santareno é falar daquele que poderá ser considerado o maior dramaturgo português da segunda metade do século XX.
Médico, licenciado pela Faculdade de Medicina de Coimbra em 1950, psiquiatra. Filho de um republicano convicto, que o resgatou ao seminário por " preferir vê-lo morto a ser padre". Entre 1957 e 1958 acompanhou como médico a frota bacalhoeira nas campanhas de pesca do bacalhau, experiência que lhe serviu de base para as peças "O lugre" e "A promessa".
Numa época em que o regime salazarista perseguia toda e qualquer voz discordante, Bernardo Santareno foi uma vítima da repressão e muitas vezes silenciado. A sua notável peça "A promessa" foi retirada de representação por influência do reaccionarismo eclesial de paróquia associado ao obscurantismo do regime.
A sua militância política passou pelo MDP/CDE e pelo Movimento Unitário dos Trabalhadores Intelectuais.
Se a sua matriz estética foi o neo-realismo, a sua genial criatividade evoluiu da afirmação de uma pujante linguagem poética quase naturalista para um registo épico, brechtiano, mas sempre de uma peculiar ênfase, que revive a tragédia grega nos seus momentos de maior universalidade.
De um primeiro ciclo em que se incluem "A promessa", "O bailarino", "A Excomungada","O Lugre" , "O Crime da Aldeia Velha","António Marinheiro", "Édipo de Alfama", "O Duelo", "O Pecado de João Agonia"e "Anunciação", Santareno passou a uma fase de um intervencionismo político em que se destacam "António José da Silva o Judeu", "O Inferno", "A Traição do Padre Martinho" e sobretudo " Português, Escritor, 45 anos de idade", esta já depois do 25 de Abril e que constituiu um marco na literatura dramática portuguesa dos últimos 50 anos.
Das sua últimas quatro peças publicadas em 1979 sob o título "Os Marginais e a Revolução" ressalta a problemática do preconceito face à liberdade de opção, a discriminação e a mentira social, numa perspectiva que desmascara a sociedade portuguesa no seu conservadorismo e na sua hipocrisia.
Muito além do seu tempo, muitas vezes atacado e outras tantas ignorado, Bernardo Santareno é uma figura gigante do panorama intelectual português que aqui evoco, com toda a justiça.
quinta-feira, 30 de julho de 2009
Um deus iníquo

A primeira vez que o vi pareceu-me um homem ainda mais pequeno do que na realidade era, de passos curtos, olhos mortiços, um abandono de quase indiferença. Vinha por um tumor no pescoço que havia algumas semanas o atormentava, duro, inflado, estranho. Trazia consigo a mulher, de falas vibrantes, aquele sotaque de fronteira meio espanholado. E uma história obscura. Uma manhã, por desvario, desfechara no crâneo um tiro . Um tiro de que guardava , perto do cerebelo, a irremovível marca. Um projéctil que a cirurgia não conseguira remover. Mas que não lhe roubara nem a vida, nem o tino. O que R. já aceitava como um sinal da providência. Uma benesse.
Operei-o. Durante um par de anos o tumor não deu sinais. Por vezes trazia-me umas chouriças de porco preto, como que de festejo. Depois , um dia, em surdina, começou a tolher-se-lhe a marcha. Os passos tornaram-se vacilantes, caía, tremulava. Pensou-se que fosse da bala. Não era. Era uma coisa neurológica, degenerativa. Irreversível.
De semana em semana R. piorava. Passou à cadeira de rodas. O rosto ensimesmado, a fala presa. De repente deixou de engolir. Nada lhe passava pela goela. Teve que ser intubado. As análises não estavam bem. A hematologia desencantou algo estranho. Um mieloma. Fez quimioterapia.
R. emagreceu ao limite. Ficou esquálido, inerte, de olhos vidrados. Um dia sangrou da boca, uma hemorragia estúpida. Abra lá a boca sr. R. Um tumor, um maléfico tumor da gengiva que o excruciava já de cheiro e dores. Foi de novo operado. Uma cirurgia miserável, mutilante, de incerto fim. Mais uma traqueotomia. Mais tubos. Mais angústias.
Mas R. conseguia por vezes sorrir. Os olhos, cada vez mais pequeninos, brilhavam no fundo de duas covas orbitárias. E levantava os polegares. Na sua cadeira de rodas.
A semana passada R. voltou. De língua inchada, disforme. Tinha uma recidiva. Inoperável.
Vou amanhã despedir-me dele. Vai para uma unidade de cuidados paliativos.
Com a bala dentro do crâneo.
sábado, 25 de julho de 2009
Maria Madalena

Saramago revisita, no seu Caderno, o tema de Jesus e Maria Madalena http://caderno.josesaramago.org/2009/07/24/um-capitulo-para-o-evangelho/.
Longe de uma complexa trama teológica e de uma porventura inútil discussão sobre a divindade e a incarnação, Saramago converte em serenas palavras a imagem de um ser sensível ao amor. Um amor carnal, directo, desnudado. Como pode ser o amor. Visível e provocante. Humanizado. Transgressor.
Revelação e ascese.
E recordo aqui Maria Gabriela Llansol em Amigo e Amiga:
"Mas como é possível não tocar quem se ama?", pergunta o meu corpo, pois acordei , neste dia de chuva, banhada numa tristeza que se converteu em lágrimas e numa
profunda nostalgia do tal luar quando nós vimos dele, ou corremos para ele.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
O Caderno de Saramago

Tal como Saramago cita no frontispício de "O Ano da Morte de Ricardo Reis" (de resto o meu romance preferido de toda a sua obra) - "Sábio é o que se contenta com o espectáculo do mundo".
Mas Saramago não é só espectador. É interveniente. Sem ser juiz. Sem cosmogonias. Sem preconceitos.
Saramago reinventou a humanização da escrita, de comovente legibilidade. A história flui, como que projectada, e o autor constrói a sua utopia sem violar a realidade que ali se apresenta, tensa, tangível, tantas vezes descarnada, mas sempre próxima.
Leio Saramago com o mesmo espírito com que ouço os últimos quartetos de Beethoven - certo da sua intemporalidade, numa humilde descoberta, sempre renovada, do mundo e das coisas.
Escritor quase compulsivo, brindou-nos de alguns meses a esta parte com um Caderno -blogue, no qual exprime as suas ideias no fluir dos dias. Notável. Agora em livro. A ler.
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Literatura
domingo, 19 de julho de 2009
Graça Morais

Já aqui falei de Mestre Gil Teixeira Lopes, natural de Mirandela. Hoje vou evocar outra figura maior das artes plásticas, também de origem transmontana - Graça Morais.
Graça Morais nasceu no Vieiro, concelho de Vila Flor, em 1948. Aí mantém o seu atelier e nele
tem produzido uma boa parte da sua obra.
Paisagem física e humana da Terra Quente, que remete para o "Reino Maravilhoso" de Miguel Torga: "Léguas e léguas de chão raivoso, contorcido, queimado por um sol de fogo ou por um fio de neve (...) terra de homens inteiros, saibrosos, que olham de frente e têm no rosto as mesmas rugas da terra".
Quando a determinada altura voltou às suas origens no Vieiro para reflectir , trabalhar e amadurecer ideias, recusando até alguns projectos, dizendo " Ainda não resolvi tudo em Trás-os-Montes", reafirmava as suas raízes profundas. Ancestrais, como a família do Freixiel. A sua oficina - cabaninha, como lhe chama - adega agora transformada em estúdio, quase primitiva, é o recinto mágico da transfiguração. Mitologia de formas antiquíssimas que Graça Morais redescobre e fixa em cores, gestos, rostos. Por vezes trágicos, por vezes inquiridores, por vezes subtis e inocentes. Um universo único, diálogo com a memória, onde todos os seres adquirem uma surpreendente e por vezes visceral pujança.
Figuras e rostos de hierático dramatismo, que parecem ligar-se à terra- mãe, num processo tão lucidamente descrito por António Alçada Baptista "como um itinerário de purificação do Eu e, de certo modo, da própria história onde nascemos".
A pintura de Graça Morais é reflexiva, apaixonantemente melancólica. O seu percurso estilístico assume por vezes ( sobretudo na fase de 80, do retiro no Vieiro ) uma expressão de inusitada violência em que a mulher- vítima tem um papel desafiadoramente central , com um realismo cru.
Na série "O Sagrado e o Profano" assume um perturbante cruzamento do fantástico com o erotismo, depois aprofundado na série " Erotismo e Morte", para mim o ponto mais alto da obra da pintora.
Percurso riquíssimo, que passa depois por retratos femininos marcados, firmes, matriarcais ("As Escolhidas") e mais recentemente por essa magnífica "Memória da Terra", obra de maturidade absoluta, comovente, rostos de uma velhice sofrida, mas sem revolta , como que aguardando a morte.
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Invocação das almas

por estes dias lisboa é uma cidade inquieta
de paredes com sombras e uma crua luz que
vem sobre os ombros
como um escapulário
procissões de antigos rostos com órbitas vazias
defuntos e outros restos jacentes
numa tarde de tambores
arrastando as últimas gaivotas
que do rio sobem à colina
e resgatam uma fome milenar
miradouros vazios
desafiam o olhar num ritual de obscuras vozes
esconjuram demónios ocultos nas pedras
de diversos castelos sepultados
nesta cidade
onde rios serpenteiam abaixo dos pés
num frémito como a visão do grande maremoto
o espanto da súbita vaga
nesta cidade cresce por vezes o cheiro
da carne queimada
ouvem-se cânticos de redenção
de repente faz-se um silêncio sobre as
ruas, as praças emudecem e apenas chia a roda
na cave, com gemidos abafados de penitentes
Pedro Saborino
Julho de 2009
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Um olhar

C. entra devagar pela porta entreaberta, pequenos passos, cabeça curvada. Um rosto anónimo. 87 anos ? Talvez , talvez. O nariz destaca-se no rosto, firme, recto. O olhar esquivo. Ou vazio? Atrás uma acompanhante do lar com um pequeno dossier de capa verde na mão. Dona C, então diga-me o que se passa. Um silêncio que me leva a dirigir os olhos para a acompanhante. Nada de exames? Quem a manda cá? Alguma carta? A senhora foi fazer uma TAC ao hospital de Santarém,mas não trazemos nada. Só este papel. Sente-se ali dona C. Um tumor pétreo do pescoço. A cabeça sempre pendente, olhos no chão. Mas não tem nada aí ? Nem um papel? Nada doutor. A mão palpa. Que mais virá hoje? Não vou poder fazer nada. Uma pedra . Um imenso nada. Tem dores dona C.? Não, não tenho . É impossível. Um tumor destes não pode deixar de dar dores. Dores terríveis. Dores excruciantes . Não, não tenho. Há quanto tempo tem isto aqui? Levanta a cabeça e finalmente cruzo-me com o seu olhar. Onde não encontro nada senão o vazio.
O vazio da dor que já não se sente. Da vida que é já só um esperar. Do abandono. Sem revolta. Mas com muitas perguntas.
terça-feira, 14 de julho de 2009
Ainda Manuel Alegre

No lançamento do livro Alma, referencial do seu imaginário de infância em Águeda, Manuel Alegre proferiu o que ele denominou de Explicação de Alma. A qual acaba por ser também a explicação da sua ligação ás origens. Essa terra única e irrepetível ou terra-todas-as-terras. Simultaneamente origem e forma, princípio e termo. Caminho e libertação.
Revejo-me neste texto, na explicação humaníssima do nostoi que nos habita e nos faz reconstruir com por vezes dolorosos fios a nossa identidade.
" (...) Seja como for, eu tinha de escrever este livro. Há livros que se fazem porque se quer. Há outros que se escrevem porque não pode deixar de ser. Foi o que aconteceu com Alma. Era a raiz e a matriz.
Muitas vezes, nas horas do exílio e da solidão, eu agarrava-me à memória, sobrevivia das minhas próprias raízes. Como Ulisses pensando em Ítaca perdida, também eu pensava num rio, numa rua, numa casa.
Não sei se alguém consegue voltar de um longo exílio. Não sei se alguma vez se volta verdadeiramente a casa. Nem sei tão pouco se alguém, a não ser, como na Odisseia, o fiel porqueiro de Ulisses, verdadeiramente nos reconhece quando voltamos. Talvez Alma fosse a única maneira de voltar à minha terra, à minha casa, ou a mim mesmo. Talvez a única forma de finalmente ser reconhecido pelos que já cá não estão, pelos que nunca me conheceram e pelos que só assim poderão saber quem sou. Ou quem não sou. Sabe-se lá."
Excerto da intervenção de Manuel Alegre no lançamento da 1ª edição de "Alma", Águeda, 19 de Janeiro de 1996.
Muitas vezes, nas horas do exílio e da solidão, eu agarrava-me à memória, sobrevivia das minhas próprias raízes. Como Ulisses pensando em Ítaca perdida, também eu pensava num rio, numa rua, numa casa.
Não sei se alguém consegue voltar de um longo exílio. Não sei se alguma vez se volta verdadeiramente a casa. Nem sei tão pouco se alguém, a não ser, como na Odisseia, o fiel porqueiro de Ulisses, verdadeiramente nos reconhece quando voltamos. Talvez Alma fosse a única maneira de voltar à minha terra, à minha casa, ou a mim mesmo. Talvez a única forma de finalmente ser reconhecido pelos que já cá não estão, pelos que nunca me conheceram e pelos que só assim poderão saber quem sou. Ou quem não sou. Sabe-se lá."
Excerto da intervenção de Manuel Alegre no lançamento da 1ª edição de "Alma", Águeda, 19 de Janeiro de 1996.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
Máscaras da Utopia
Foi apresentado no dia 10, na Fundação Gulbenkian, a obra Máscaras da Utopia do Prof. José Oliveira Barata. A obra retrata mais de 30 anos de actividade dos grupos de teatro académico ( período de 1938 a 1974), designadamente o TEUC, o TUP, o CITAC e os grupos de teatro de Direito e de Letras de Lisboa.
Centrado num período dominado pela política de silenciamento cultural do salazarismo, o livro apresenta o historial desses grupos de teatro, os seus percursos e os seus intervenientes.
Neste contexto histórico-político é salientado o papel da Fundação Gulbenkian no apoio aos grupos de teatro, quer na formação dos seus elementos, quer nas deslocações efectuadas, algumas delas fora do País. São ainda lembrados os Ciclos Gulbenkian de Teatro, que eu e outros do meu tempo de juventude tiveram o privilégio de fruir quase com sofreguidão, pois eram verdadeiros espaços de liberdade e de partilha.
Os grupos de teatro universitário, longe de serem elitistas e fechados sobre si próprios, eram uma escola de entreajuda e sobretudo autênticos focos de resistência à perseguição censória do regime.
Na ocasião o Prof. José Oliveira Barata ( que foi ele próprio membro do CITAC) apresentou um notável texto, que tomo a liberdade de citar:
http://caminhosdamemoria.wordpress.com/2009/07/11/%c2%abmascaras-da-utopia%c2%bb/Nele se exprime de forma magnífica o papel demiúrgico da própria utopia que diversas gerações foram construindo, de uma forma que ele próprio designa de anónimo heroísmo da generosidade militante.
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