sábado, 7 de novembro de 2009

Não


Estava sentado à minha frente, as pernas cruzadas, a direita sobre a esquerda balanceando. Magro, de olhos muito azuis, um azul brilhante e prescrutador. As mãos estendidas, dedos longos, unhas compridas e amareladas do tabaco.
A mulher, ao lado, fazia-me uns sinais de alguém que bebe, acompanhando-os de um olhar oblíquo na minha direcção. Mas afinal o tratamento é para ficar curado? Isso não posso garantir-lhe. Não, não quero. Sabe, sr. dr. ele foi militar. É muito teimoso. Não. Eu não vou fazer tratamento nenhum. Fico assim. O sr. compreende que, se não se tratar, o tumor vai crescer inevitavelmente. Pois. Eu sei. Os olhos ficaram-lhe subitamente mais baços. Já ali não estava. As pernas pararam de balancear. O olhar fixou-se num ponto alto da parede branca atrás de mim. Tudo parou. Sabe, agora já não me apetece fazer a barba . Só a faço de vez em quando. Dantes era todos os dias. Não podia deixar de ser. E tinha gosto nisso, logo de manhã. Agora é a custo. E aborrece-me. Fitou-me nos olhos. Percebi que já tinha desistido. Que queria morrer. Sozinho.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Tristes trópicos

Com a cena nacional transformada numa miserável taverna argentaria, há acontecimentos que passam quase despercebidos, sinal da nossa periferia e quase inexistência cultural.
Assim não admira que tenha sido ignorada a morte de Claude Lévi-Strauss, figura ímpar da cultura da segunda metade do século XX. O autor de Tristes Trópicos ( relato admirável da sua vivência de contacto com os Ameríndios) e de Estruturas Elementares do Parentesco é na realidade o fundador da Antropologia Cultural moderna . A sua visão universalista e globalizante do comportamento social e cultural que construiu numa perspectiva estruturalista as bases antropológicas da sociedade, constitui uma visão ímpar do mundo e do respeito pelo homem na sua dignidade e diversidade.
As leituras que fiz das sua obra na minha juventude , em particular os Triste Trópicos ( que foi por muito tempo para mim um autêntico roteiro de aventura e de descoberta), deixaram marcas profundas na minha formação e na forma de entender o mundo. Infelizmente compartilho com ele o pessimismo quanto ao futuro e subscrevo as suas palavras de que "este não é o mundo que eu amo".

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Ariel

Sylvia Plath (1932-1963)

Leoa do Senhor como nos unimos
Num eixo de calcanhares e joelhos!... O sulco
Afunda e passa, irmão
Do arco tenso
Do pescoço que não consigo dobrar.
Sementes
De olhos negros lançam escuros
Anzóis...
Negro, doce sangue na boca,
Sombra,
Um outro voo
Arrasta-me pelo ar...
Coxas, cabelos,
Escamas dos meus calcanhares.
Branca
Godiva, descasco
Mãos mortas, asperezas mortas(...)


Ariel

desta cidade viverá o teu nome, renascerá o teu rosto
oh deus da justiça, mais do que os anjos que velam o invisível
sobre nós baixarás a tua mão
brotará o sangue sobre a nossa fronte
como a bênção da morte redentora
falarás depois do esquecimento e
tudo se fechará num silêncio absoluto
como a luz que provém da escuridão
num rio que vem do fundo do tempo
remoto tal a origem do corpo


o universo tremerá , o negro espaço da força incógnita
definirá as tuas palavras e então
oh deus da justiça, desvendarás o significado da sabedoria do anjo
e das formas
mostrarás o teu poder
sobre a quietude, o vazio, desvendarás a dor
que nos prende
e nos mantém escravos


desta cidade te escutaremos a voz , te tocaremos a ponta dos dedos
oh deus da justiça
como o cântico da libertação

Pedro Saborino

29 de Setembro de 2009






domingo, 25 de outubro de 2009

Um corpo na duna


Foi encontrado de borco sobre a areia, de camisa aberta no peito, os dedos enclavinhados numa arma.
Na estrada , em cima, o carro tinha a porta do condutor aberta. Sobre o banco da frente o casaco, várias chaves espalhadas, um papel escrito com três ou quatro linhas. Escorria-lhe da cabeça um fio grosso de sangue. Ao lado alguns cigarros meio fumados. Caía uma chuva fina, insistente. O mar ressoava ao longe por sobre os pios das gaivotas.
Ali estava, como um tronco caído, sem raízes.
Um estilhaço.
Um barco naufragado.
Podia quase ouvir-se ainda o estampido ecoando na praia.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

A tragédia da senectude


Nunca saí a correr de casa para comprar um livro de Saramago. A minha aproximação foi lenta, construída, elaborada. Fascinava-me o percurso de um mecânico de oficina que, desempregado, começou a escrever e de ignoto escriba, construindo um mundo mágico de personagens, chegou aos cumes do mais pungente humanismo. O Nobel não me impressionou nada. Havia muitos que o merecessem, tanto ou mais do que ele. Comovia-me sim a sofrida austeridade de Levantado do chão, o filigrana do Memorial ou a reinvenção de Cristo do Evangelho segundo Jesus Cristo . Depois, aos poucos, o desapontamento. A decrepitude. O esforço notório. O declive criativo. O azedume. E com a velhice irrevogável, a arrogância e o desconcerto.
Agora Saramago, que certamente nunca leu rigorosamente nada dos sessenta e tal livros que perfazem a Bíblia, expende preconceituosamente alguns dislates sobre a sua pretensa natureza de malevolência. Aceito o seu ateísmo. Mas isso nada tem a ver com o respeito pela natureza dos livros que a constituem, o seu significado cultural, o seu simbolismo intrínseco, o seu roteiro de leitura, a sua referência de civilização.
Saramago, ignorantemente, levianamente, estupidamente, tenta passar por cima de milénios , esquecendo que muito depois de os seus livros e as suas ideias serem apenas pó, se continuará a ler, a citar, a comentar, a reflectir sobre a Bíblia.
Pela razão simples de que a Bíblia é o espelho perene da própria natureza humana.

sábado, 17 de outubro de 2009

Out


As vozes tornam-se de súbito mais contidas, sussurros, olhares. O estridor do doente sobrepõe-se, num fundo permanente. O monitor apita. Tudo se dilui, como se as dimensões físicas do quarto se alterassem. Pequenas coisas assumem agora um significado diferente: o pequeno rádio portátil, as chinelas, o relógio de pulso, a fotografia sobre a mesa de cabeceira. As enfermeiras movem-se silenciosamente. Alguém folheia o processo clínico com murmúrios indefiníveis. Ao longe ouve-se a televisão, o desafio de futebol. O doente procura uma posição talvez mais confortável. Olhos cerrados. O corpo abandonado, roxo, exausto. As unhas dos pés compridas. Os movimentos respiratórios abrandam, num esforço irremediável. Um longo suspiro, sob a máscara de oxigénio. O silêncio depois. As pequenas coisas em cima da mesa. Esquecidas.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Um rosto de lado


A visita médica, rápida, passou por ele na recuperação. Olhar inquisitivo, pensos um pouco repassados, drenos, uma traqueotomia. A rotina. Quarenta e poucos anos de idade. O cabelo precocemente acinzentado destacando-se na almofada. As mãos estendidas ao lado do corpo. Esboçou um sorriso. Eu tinha-o visto na consulta, com a mulher. Explicara-lhe a extensão da cirurgia, a gravidade, a mutilação. A dificuldade em comunicar. O prognóstico. Aceita ser operado? Dr. claro que aceito. Eu tenho dois filhos.

Depois, na enfermaria, o lugar da cama vazio. Como um alvéolo de solidão.Um devir. Sobre a mesa de cabeceira, dois retratos. Um de quatro cabeças juntas num momento de alegria, todos abraçados. Talvez uma festa das férias passadas. Outro com o braço sobre os ombros do miúdo,decerto o filho, ao entardecer, sentados na areia da praia. Uma praia deserta. Um olhar que se alonga sobre um previsível mar ali à sua frente. Como uma grande interrogação. Talvez um sonho interrompido.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Vou

A VIAGEM - Gil Teixeira Lopes, óleo sobre tela

vou até aonde as palavras me levam vou definitivamente pelas palavras fora experimento tudo o que me dão nesse caminho com avidez e por vezes com fúria não olho para nenhum lado não imagino nada tudo é directo imanente cru bruto como o sexo ou a morte não me detenho em nada que não seja o gozo a liberdade e a revolta nenhuma forma me contém nenhuma força é maior que essa seja vulcão torrente ou vaga nenhum deus me comove ou me cega nada é maior do que as palavras que me levam e sobre as quais me sento como num cavalo alado ou num touro que experimenta a minha força vou até onde as palavras me consomem me devoram num derradeiro banquete de sangue vou até ao mistério final das palavras

Outubro de 2009

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Salmo

A FUGA
Mário Eloy (1938-39) - óleo sobre tela 100x80 cm
Centro de Arte Moderna Dr. J. Azeredo Perdigão - Fundação Calouste Gulbenkian



Salmos 139:16
Os teus olhos viram a minha substância ainda informe e no teu livro foram escritos todos os dias que foram ordenados para mim, quando ainda não havia nem um deles.


não estou bem certo (passado tanto tempo) se me recordo
da tua voz, por vezes parece-me ecoar como um lamento
outras como um afago talvez mesmo uma dolorosa evocação
houve dias em que nem podia escrever
o mundo debruçava-se sobre o meu ser
ou talvez fosse o meu corpo entorpecido
que lentamente se descarnava
num ritual
tocavam-me, eu sabia que me haviam exposto as entranhas
depois puxavam-me para uma luz informe
num gelado silêncio
cuja memória me emudece
era um corpo só e desventrado
e a tua voz ecoava sobre ele
entrava nele , numa temível posse

Pedro Saborino

Setembro de 2009

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Não me desiluda





Na verdade, que estranhas são as vielas da cidade da dor,
onde, no silêncio falso, feito de tumulto,
com violência e bravata, o vazadouro sai do molde do vazio:
o ruído dourado, o monumento que explode.


X Elegia de Duíno , R.M. Rilke



Não me desiluda dr. , dizia, as mãos contorcidas, o olhar anguloso.
Conheci aquele olhar mil vezes , reconhecê-lo-ia ainda entre mil outros, a pergunta que fica
suspensa sem resposta, parada entre o tudo e o nada.
Não me desiluda – eu sei que me pode curar. Na face, a chaga do tumor patente como uma
abominação. Várias cirurgias, radioterapia, esperanças, depois o nada. Veio procurar-me na
esperança de uma cirurgia salvadora. Sr. F. eu não posso curá-lo. Vou tentar reduzir o tumor,
vou fazer o que for possível, mas não posso curá-lo. Dr. eu sei que pode. Não me desiluda.
E segurava-me no braço enquanto, de lado, a filha dizia que sim com movimentos da cabeça.
Sr. F. a última TAC não é nada animadora. Há vários focos de tumor. Dr. o senhor vai conseguir,
eu sei que vai conseguir.
Mas eu sabia que não ia conseguir.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Poema de amor



deixa-me pensar como eras antes
as minhas palavras secam-se antes de te descrever
não sei mesmo como te diria
se pudesse por fim ver o teu rosto
entre milhares de poemas verdadeiros
onde te nomeio, como uma invocação ou como uma infinidade

deixa-me revelar-te a curva dos dedos
o olhar talvez inquieto , os silêncios, a respiração
sobre os lábios como o meu corpo agora dormente

vou para além, até onde o poema me leva
o sussurro das árvores junto ao mar diz-me que já é dia
e em breve tudo se revelará
as vozes levantar-se-ão do seu torpor

deixa-me sentir –te neste momento breve
do fim da noite em que tudo se suspende

Setembro de 2009

sábado, 12 de setembro de 2009

Nostos


Voltou Jorge de Sena à terra donde partira um dia, ressentido, amargurado, descrente, inquieto. Inquietude que, no exílio lhe agigantou a obra.
Mas terá valido a pena? A terra continua mesquinha e vil, sombria, incerta. Eternamente adiada.

Ode para o Futuro

Falareis de nós como de um sonho.
Crepúsculo dourado. Frases calmas.
Gestos vagarosos. Música suave.
Pensamento arguto. Subtis sorrisos.
Paisagens deslizando na distância.
Éramos livres. Falávamos, sabíamos, e amávamos serena e docemente.
Uma angústia delida, melancólica,
sobre ela sonhareis.
E as tempestades, as desordens, gritos,
violência, escárnio, confusão odienta,
primaveras morrendo ignoradas
nas encostas vizinhas, as prisões,
as mortes, o amor vendido,
as lágrimas e as lutas, o desespero da vida que nos roubam
- apenas uma angústia melancólica,
sobre a qual sonhareis a idade de oiro.

E, em segredo, saudosos, enlevados,
falareis de nós - de nós! - como de um sonho.


Jorge de Sena, in 'Pedra Filosofal'

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

A peste




Mas a religião do tempo da peste não podia ser a religião de todos os dias e se Deus podia admitir, e mesmo desejar, que a alma repouse e se rejubile nos tempos de felicidade, desejava--a excessiva nos excessos da desgraça. Deus concedia hoje às suas criaturas a graça de colocá-las numa desgraça tal que lhes era necessário reencontrar e assumir a maior virtude, que é a do Tudo ou Nada.
Paneloux afirmou ao seu auditório que o que iria dizer não era coisa fácil – que era preciso querê-la, porque Deus a queria. Os tumores que se formavam eram o caminho natural por onde o corpo rejeitava a infecção......e diziam “Meu Deus, dai-nos tumores”, o cristão saberia abandonar-se à vontade divina ainda que incompreensível. O mal era enviado por Deus.
”Meus irmãos”, disse por fim Paneloux, anunciando que ia terminar, “ o amor de Deus é um amor difícil. Ele pressupõe o abandono total de si mesmo e o menosprezo da pessoa. Mas só ele pode apagar o sofrimento e a morte das crianças, só ele, em todo o caso pode torná-la necessária, pois é impossível compreendê-la e não podemos senão desejá-la. Eis a difícil lição que desejava compartilhar convosco. Eis a fé, cruel aos olhos dos homens, decisiva aos olhos de Deus de quem é preciso que nos aproximemos. Diante desta imagem terrível, é preciso que nos igualemos.

Albert Camus, A Peste 1947


Nesta dança da morte não queremos o deus

da misericórdia não queremos voltar ao irremediável

porque não tememos a dor nem o desconhecido

não queremos voltar a ser a imagem da inquietação

Invocamos-te, divindade, para te dizer : não te queremos

há muito que não somos escravos, que libertámos a vontade

que defrontámos o teu rosto para te mostrar os nossos olhos

desafiadores, a nossa boca que proclama a liberdade

os nossos braços que derrubaram as grades

das tuas prisões milenares

Pode a tua voz rugir sobre nós, desferir o raio, lançar o medo, o opressivo manto da guerra

que nada nos fará calar

Nesta dança da morte que há muito deixámos de temer


2 de Setembro de 2009

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Ao fim da tarde, com Bernardo Soares (II)


Ao fim da tarde, com Bernardo Soares (II)

Notei-lhe um fino tremor das mãos enquanto acariciava os bordos da pasta. “Mas antes deixe que lhe fale um pouco de mim. Não tenho propriamente uma história de vida para lhe contar. Também não sei se isso será importante. A minha mãe morreu quando eu tinha um ano e claro que não me lembro dela. O meu pai sei que se matou quando eu tinha três anos, mas na realidade nunca o conheci. Fui criado em Lisboa por uma tia materna. Uma tia austera. Tinha entretanto enviuvado e vivia de uma pensão do marido, que fora militar, e de trabalhos de costura que fazia para fora. O meu tio coxeava da perna esquerda devido a um ferimento antigo. Morreu cedo, com uma apoplexia. Lembro-me dele nessa tarde de cara roxa e inchada, agarrado à garganta, num estertor a que assisti aterrorizado sozinho com ele em casa. Aprendi muito cedo e rápido a ser severo, conciso e reservado. Não falava com vizinhos e tudo se passava num tom baixo de voz. As refeições eram a horas rigorosamente certas e nunca falávamos. As luzes eram apagadas às dez da noite. Acordava-se às seis e meia da manhã. Lembro-me do relógio de parede e das suas badaladas nervosas, de timbre metálico. Com elas acordava e me deitava”. Por instantes desviou o olhar e pousou a pasta preta sobre a mesa. Procurou no bolso do casaco o pacotinho de tabaco e com vagar foi enrolando um cigarro que depois acendeu, deitando entre os lábios uma baforada de fumo denso e acre. “Como vê não tenho uma história muito interessante para lhe contar. Vivi com a minha tia Lucília no 3º andar de um prédio da rua da Madalena. Era uma casa grande com cinco divisões,um longo corredor, uma cozinha com bancadas de pedra e uma despensa na qual me costumava fechar por vezes para me esconder. Na traseira tinha uma varanda que dava para as varandas de outros prédios e onde via os estendais de roupa o que por vezes era a minha única distracção. A única talvez não porque muitas vezes ali me sentava a ler, sobretudo Cesário. Como sabe a rua da Madalena é bastante tranquila e eu gostava, como ainda hoje gosto, de sair e descer até à rua da Alfândega e à rua do Arsenal para olhar as pessoas, os carros, o movimento. A minha tia morreu há seis anos. Passava longas horas a fazer paciências e por fim tinha muita dificuldade em andar, pelo que já não saía. Tinha algumas visitas de vizinhas que depois foram espaçando e eu próprio que já andava na Escola Comercial não podia estar muito tempo junto dela. Morreu sentada na sua cadeira da sala, sem qualquer agonia, indiferente e plácida”.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Ao fim da tarde, com Bernardo Soares


Naquele dia chuvoso de Setembro, que prenunciava um Outono sombrio, descia a Rua Nova do Almada a pensar no bilhete que me tinham deixado na porteira. Queria falar comigo e mostrar-me uns escritos. Uma letra minuciosa, caligráfica, alongada. Alguém lhe dera o meu endereço certamente nalguma tertúlia.
Depressa alcancei o largo de Santos e daí, estugando o passo, a rua de S. Paulo, já sob uma bátega violenta. Quando deparei com o número escrito no bilhete encontro uma porta esconsa de pensão, que nada faria adivinhar não fosse a tabuleta “Pensão Ideal- Almoços e Jantares”. Ainda de rosto molhado entrei no vestíbulo, com um chão de pedra e quase sem luz, e rapidamente subi ao primeiro andar. Uma porta pesada, de um verde já pintado há muitos anos. Dentro ouviam-se algumas vozes, quase em sussurro. O botão da campainha não funcionava, pelo que decidi bater.
O ralo da porta abriu-se e percebi um brilho de óculos que depressa se transformou num “Quem é?” enrouquecido. “O sr. Bernardo Soares está?”. “Está sim. Eu vou abrir”.
Após o ruído do trinco, a porta abre-se para uma saleta de paredes pintadas de azul desbotado e um corredor longo com vários quadros antigos pendurados na parede, ao fundo do qual, à direita se percebia existir uma sala de onde provinham as vozes.
“O sr. Soares está na sala ao fundo”. Ao meu encontro vem um homem magro, vestido com um fato cinzento escuro, gravata azul de nó fino, rosto anguloso no qual se destacava um olhar inquiridor, talvez inseguro, mas persistente. “Sr. S. quero agradecer-lhe o incómodo de ter vindo. Muito desejava a sua vinda. Queira fazer o favor de entrar”.
Conduz-me em passo apressado para um cadeirão da sala, sob um candeeiro que naquele fim de tarde outonal espalhava uma luz cérea. Em redor uma mesa baixa coberta com um naperon de renda. Ao canto um tripé alto suportava uma vaso com gladíolos amarelecidos. Sobre uma das paredes uma velha pintura campestre com um moinho. Do lado oposto uma fotografia de um militar com bigodes retorcidos e a mão direita apoiada no punho do sabre.
Bernardo Soares apagou no cinzeiro um cigarro de tabaco de onça e, sentando-se na cadeira à minha frente, começou por dizer que, sendo ajudante de guarda-livros num armazém de mercearias da rua de S. Julião, tinha ouvido falar de mim numa conversa de café, mais exactamente no Martinho. Que apreciava muito os escritores do Orpheu e que ele próprio também escrevia. Retorqui-lhe que os escritos do Orpheu não eram senão para alguns e, com espanto meu, disse-me que ele era um desses alguns.
Nesse instante fixei melhor o seu olhar e descobri-lhe uma profunda inquietação, uma terrível mistura de perguntas sem resposta, de contradições e de vazios. A chuva batia fortemente na janela da sala e ouviam-se vagamente alguns carros na rua. “Sr. S. eu tenho aqui alguns cadernos de escritos meus que gostava de lhe mostrar”. Abriu uma gaveta no móvel ao seu lado e retirou uma pasta de cartão preto com elásticos.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Duende


Nestas noites quentes de Verão, que apetece gozar até ao alvor da manhã, saio muitas vezes até Sevilha, deixando para trás um Algarve massificado onde muitos portugueses fingem que se divertem espojando-se na praia à torreira do sol entre um almoço de sardinha assada e um jantar de febras e vinho rasca.
A noite sevilhana tem, no Verão, um misterioso perfume de laranjeiras que suaviza o bafo mediterrânico do levante. De repente as luzes tornam-se amareladas, os jardins povoam-se de misteriosos recantos com secretos rumores, as vielas do bairro judeu enchem-se de uma multidão que transborda dos bares num vozear interminável , os pátios fecham-se em mistérios de antigas lendas mouriscas, evola-se o canto de lamentos que se perdem na memória do tempo entre batidas de palmas.
Canto que se prolonga depois pela noite em vários tablaos , alguns para turistas, mas um ou outro com programa mais profundo. Entrego-me fascinado a esta viagem que nos leva perto de alguns segredos indecifráveis. Desenham-se figuras, reinventam-se ritmos, forjam-se emoções, num inexplicável tempo que as escalas sincopadas das guitarras, as palmas, o sapateado, tornam numa vertigem . Os dançadores têm uma pose demiúrgica que recria o eterno mito da paixão mortal, um sentimento trágico da vida, eros e tanatos.
Impossível não lembrar Lorca. E esse indefinível duende.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Dos cinco sentidos


Dos cinco sentidos:
Perguntar se vio, ou ouvio, ou cheyrou, ou palpou, ou gostou algua cousa defendida sopena de peccado mortal : ou porisso peccar mortalmente, ou le pos a sy, ou a outro em algu perigo probavel de peccar mortalmente , ou deixou de comprir algua ley que obrigau a mortal, Ou fez notavel damno da alma, saude, honra, ou fazéla da do proximo, ou da alma, ou saude de si mesmo.
in Manuall de Confessores & penitentes, p. 498, MDLX.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

A mão da gruta de Chauvet


As fascinantes pinturas rupestres da gruta de Pont d'Arc, no Sul de França, a maior parte das quais com cerca de 30 a 32 000 anos ( mais antigas portanto que as da gruta de Lascaux), incluem para além de um grande número de figuras animais de comovente realismo, a imagem em negativo de uma mão direita. A mão do artista, se entendermos por artista o criador da imagem e, ao mesmo tempo, o indutor do seu significado.
Porquê a mão? Porquê esta linguagem nova? Esta incursão no terreno do sagrado, no recinto ritualizador da hierofania?
A gruta, povoada de representações animais que o quotidiano apresentava ao caçador, fonte da vida e da sobrevivência, era decerto a imagem do seu microcosmo, fora do qual nada mais existiria que a competição selvagem e porventura o caos.
Podemos imaginar um sentido mágico nesta mão - o ponto de encontro do concreto com a estrutura organizadora do pensamento humano, como referia Lévi Strauss. A observação meticulosa da realidade incluia em si mesma o seu princípio e a sua interpretação. A sua significação seria a forma de intervir no real. A mão o seu agente.
A mão que caça, que come, que faz, que mata, que ritualiza enfim - a mão que transcende a função para se tornar no instrumento da divindade. A mão criadora. Que pinta, que inventa, que acaricia, que escreve.
A mão que cura.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

A blogosfera




A blogosfera é o reino do efémero. E também o da imaterialidade. E também o da abrangência.E também o da ilusão.

Nela cabem a discussão sobre o repolho do quintal e o grande arroto metafísico do filósofo em fim de carreira. A erotogénese das mamas da vizinha e o lúbrico mundo do geronte voyeur. A introspecção da matrona reformada que tecla o sexo nas tardes mornas e o cavalo voador da mais desconformada paixão. Cabem o político do discurso e o discurso sem política, o tom bom e o bom tom, o mau hálito da velha (política) consumida escatologicamente, massificadamente, redundantemente, prostituidamente.

Cabem o texto e o contexto, a canção e a cantada, o toque e o apalpão, o botox marado e o nariz refinado, a dama e a madama, a coxa e a pernama.

Cabem o sacrílego, o sarcástico, o satânico, o salamizador, o exterminador, o purificador. O eterno e o finito. O divino e o profano. A verdade e o cenário. O sim e o não. O pois sim.

Vale tudo na blogosfera. Se está vivo, faça-se morto. Se morreu , revivifique-se. Desanque-se, desmonte-se , componha-se, cuspa-se, dispa-se, desfaça-se, invente-se. Se. Se puder, poste-se. Na posta. No posto. Composto. Recomposto. Descomposto. Indisposto. Satisposto.
Génios e imbecis. Sensatos e insanos. Mais imbecis que génios, obviamente.


Morra a blogosfera! Morra ! Pum!


Homenagem ao Carlos Mota de Oliveira, autor de LOGO, EM PORTO FORMOSO