terça-feira, 6 de setembro de 2011

cosa mentale







cosa mentale


(…) ninguém sabe como e por que meios a mente move o corpo.
Espinosa, Ética

No início tinha apenas umas fulgurações, algo que não o incomodava muito. Como que uma pressão por detrás da órbita direita. Nada que o impedisse de escrever. Muito menos de pensar. As suas rotinas diárias fluíam invariáveis, as aulas, o novo romance que começara a rever, a crónica semanal que tinha de enviar para a redacção até quarta feira, a visita diária ao café, os seus papéis em que anotava ideias e comentários de leituras, por vezes fazia desenhos. Desde que se separara tinha mais tempo para tudo isso. O Brisk, o velho boxer, tinha morrido meses atrás. A casa tinha agora uma penumbra de fumo de cachimbo e fina poeira suspensa que os escassos raios de luz revelavam. Retirara todas as fotografias dos caixilhos que agora se dispersavam vazios pela casa como olhos cegos. Ficava por vezes, sentado na beira da secretária, a olhar esses caixilhos como se fossem quadros de memória silenciosa. Tinha um passado, claro, para lá dessa fronteira invisível. Toda a gente tem um passado. O corpo tem um passado físico inexorável. Mas olhar o tempo era diferente. Não porque as coisas tivessem mudado, mas porque se sentia diferente.
Começara entretanto com dores mais fortes. O olho direito começara a ficar mais saliente e a visão complicou-se. Agora via duas imagens.
Tudo se precipitou a partir daí. Os exames médicos mostraram um tumor dentro da órbita. No dia em que lhe deram a notícia foi para casa e sentou-se junto da janela da sala até anoitecer, com as mãos cruzadas sob o queixo, estático. Pela primeira vez pensou que podia morrer.
Morrer sozinho. Para si e dentro de si. Entre os livros e papéis espalhados. Como a chuva que caía lá fora era algo que podia apenas explicar, mas que não podia impedir. Tal como a divindade universal.
Podia então morrer indefinidamente e continuar . Porque morrer não era um bem, nem um mal. Apenas uma transição.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O saque


o saque

podemos dizer dos muros que foram derrubados
só porque não os vemos?
ou porque tu e eu os ignoramos ?
ou porque simplesmente já não existem?
ou porque já não os desejamos
no silêncio das nossas omissões e cobardias?
a nossa força não provém da opressão
mas da liberdade
as verdades mudam com as fomes
ou as pragas
ou as mentiras
ou as feridas
ou as violações
(as próprias guerras nada mudam para além das mentiras)
vivemos rodeados de quotidianas verdades
mas a verdade
a derradeira verdade
é a que te liberta
e que te consome
totalmente

terça-feira, 9 de agosto de 2011

tempos











muitas coisas se passaram dentro dos meus versos
alongou-se, talvez demais, o espaço entre as sílabas
que prenunciavam a mudança
e eu estava ali num silêncio compacto e vicioso
que a espera tornava difícil
nada definitivamente nada fluía desse recanto
digamos desse indefinido pedaço de memória
como se fosse uma mera imagem das minhas inquietações
aí então, como uma faca no vazio, se revelaram os diversos tempos
o tempo inicial e informe do princípio
milhões sobre milhões de anos, pó sideral disperso
até ao tempo do meu passo sobre este chão concreto
ou o meu tempo interior sem tempo que apenas e exclusivamente construo
do tempo cronometrado do meu gesto
ao tempo sem tempo nenhum da minha ideia de tempo
do universo que flui dentro de mim e apenas apercebo
passado, presente e futuro são agora construções, como a praça vazia da minha vila se refaz no fontanário que eu vejo ali em baixo
mas podia nem sequer ver
podia apenas imaginar
como as pedras sobrepostas de uma escada
ou o amanhecer por detrás da janela envidraçada


aí então podia descortinar o tempo definitivo
o tempo real da realidade

o tempo total

Pedro Saborino






sábado, 6 de agosto de 2011

Hiroshima, 8 e 15



Hiroshima, 8 e 15


leite negro da aurora bebemos-te à tarde
bebemos-te cedo e no dia bebemos-te à noite
e bebemos bebemos
Paul Celan – Fuga da morte



temos todos as mãos sujas
a cinza escorre-nos entre os dedos
e as feridas ainda ardem na memória
dos cativeiros
das valas abertas, dos fornos fumegantes

morre-se aí
a mesma morte de todas as guerras

nós queremos apenas abrir os olhos sobre o vale funesto
e ver por fim a força das palavras
definitivas
o leite e o mel
no regaço da mãe
a giesta
o rio fluente
o canto

terça-feira, 2 de agosto de 2011

O banqueiro neo-anarquista, Espinosa e a liberdade








O banqueiro neo-anarquista , Espinosa e a liberdade


certamente, neste ou noutro dia qualquer, você compreenderá que o jugo tirânico do dinheiro se insinua por si próprio, se enrola sobre si mesmo como uma hélice de que não se conhece nem o fim nem o princípio, a desigualdade é um fatalismo, a liberdade um poder igualmente desigual que você pode ter ou não ter conforme o dinheiro seja poderoso ou subjugador, a minha liberdade não é o poder do dinheiro é saber que o seu trabalho não é mera ficção mas o meu lucro, mas já estou muito longe, meu caro amigo, da acção directa, o anarquismo é um mero disfarce a persona cinzenta talvez um pouco cínica em que me escondo, na verdade eu acredito que os marxismos estão todos mortos e que não somos definitivamente todos iguais, a revolução acabou , o meu próprio dinheiro não me mede a riqueza. afinal o que é ser rico? uma metáfora , ser rico não me torna livre mas você, que não é rico, não é igualmente livre, repito - a liberdade não existe por si é um poder discriminatório, a sociedade é um poder regulador, a burguesia uma miragem, você leu Gramsci? não acredito em intelectuais, não há cultura de massas, o dinheiro dimana para a cultura porque a precede, sem ele a cultura é uma falácia




- a liberdade é uma construção interior ( respondeu-lhe pausadamente o interlocutor), Espinosa situava a liberdade numa necessidade livre . o poder não é verdadeiramente livre porque não é exercido de dentro para fora e por isso considera toda a liberdade perigosa. mas a minha essência é ser livre e não temo o poder, nem o do dinheiro.essa é a minha liberdade

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Sophia revisitada em Cacela

para Ibn Darraj al-Qastalli, poeta do al Andaluz





para Cacela Velha





e para Sophia de Mello Breyner








Poema azul


do mar azul dizia
e subitamente sobre o manto
da manhã mais não via do que o sereno azul
da flor e dos teus olhos
amada e flor azul como tu eras

do mar ainda a luz da madrugada
o gosto salgado e o profundo olhar
mais não sabia que muitos mares azuis
e azuis campos de flores
eram como do teu rosto a flor

e flor diria o teu corpo
tudo enfim te tocaria









Pedro Saborino


(Foto, aliás belíssima , de Elsa Estrela)

Revelação

Foto de Carlos Muralhas



Revelação


os objectos declinam a luz
em iluminuras suspensas ao final do dia
quando a cidade se adensa por entre códices e rumores
fervilham sons nos recantos
e aves cruzam o espaço dos jardins agora prisioneiros das estátuas
há gente apressada pelas ruas
olhares, silêncios, palavras gretadas, gestos esquivos nos autocarros suburbanos
que fedem um suor magoado, espesso

o rio é agora só uma esquina
um passo
um eco que a noite inventa em naves ocultas
do passado
nas vielas onde ascendem cheiros do perdido império
jasmim, incenso, canela


por fim tudo ali se mostra
aos olhos cegos
numa beleza táctil que nem a morte sujeita, grandiosamente
à destruição do corpo e à temível presença dos anjos
incompletos


Pedro Saborino

domingo, 24 de julho de 2011

obituário

para Maria Lucia Lepecki


obituário


agora já não descrevemos em conjunto a migração das aves
tocamos apenas um corpo gélido
que flutua sobre a linha
das interrogações
o rosto emerge concrescente e, como um ocaso, divagamos em socalcos
de memórias
numa penumbra inquieta
como se tudo fosse tão só o cenário
das coisas reais

destas já não negamos o interior
apenas lhes interrogamos os recantos
que a luz não define
e onde os espaços do silêncio são maiores

por vezes tão vastos que
se iniciam no seu fim



Pedro Saborino

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Esteiros









Esteiros


do esquivo vento outonal
te passará depois o inverno e daí arrancarás as flores
que a terra húmida e premente
te abrirá nas mãos
gretadas de unhas negras e inquieta revolta
virá o sol mais tarde pela manhã
talvez pela tarde quando os teus pés se perderem em ruas de cinza
e uma luz coada breve te afagar a cara
naquele recanto onde costumas estar sempre
a olhar o rio





Pedro Saborino

Ay Carmela

Homenagem a Mainstreet



Ay Carmela



não passarão sobre o teu corpo
não desenharão o rio do silêncio sobre ti
o tempo não ocultará o teu rosto
ou as tuas mãos
ou o teu sangue
ou o teu filho
ou a tua morte

não será medo ou fome ou dor o teu grito
mas o vento que dissipa a névoa

o mar que invade o sonho


estaremos aí
nesse chão

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Lugares





podia ter sido de outra maneira
outras palavras teriam feito romper-me o corpo
ou nele conter o próprio ritmo do vento

podia ter dito apenas algo inventado
duas coisas quaisquer sobre o universo
e surgiria da morte como um rio
neste espaço
entre a agonia e a luz da alva

mas tudo permanece
o círculo branco
o som
a poeira muito fina do segredo



Pedro Saborino


quinta-feira, 29 de julho de 2010

Escada de jacob


BRANISLAV MIHAJLOVIC
Escada de Jacob (Azul)
Acrílico, chumbo, pedras s/papel - 140x110 cm - 2005




olho em torno e pressinto o que ainda permanece das formas
ou pelo menos alguma luz que por vezes divaga
sobre os meus ombros
de objectos outrora perante mim

não é pois verdadeiramente noite ou abismo
nem nada se esconde
dessa luz azul que revela o espaço entre o vazio e a cor
epítese terrível onde os membros de vários corpos se confundem e
se consomem
num ritual de fogo

agora o passo acima
o olhar silencioso da ave sobre o campo onde o fumo silencia o frémito da luta
e as armas repousam
não há mais gritos e os gemidos apenas prenunciam o espaço da morte

por cima ainda rompo as vestes roxas
e as minhas perguntas libertam-me as palavras
do nada
em metáforas e diversos perfumes
há cantos
e silêncio depois

caminho sobre a rocha
e o peito abre num prenúncio
a libertação do anjo

aqui
conheço o ocre a tinta magnífica a mão aberta
o sentido urgente

no último degrau por fim desvendo o rosto
revelado o tempo
que o deus fabrica
a iluminação a dor final das vísceras
tombadas sobre o pó
das estrelas


Pedro Saborino

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Nau Catrineta


vede o céu que se curva
no poente em cada dia
inútil o remo ou a vela sobre o rumor cavo do mar
alcança o olhar do gageiro
em silêncio o horizonte

contemos a raiva a fome o espanto
os sonhos numa ave que se afasta
um albatroz
o peixe raro voador cinzento morte alada
desta nau deste mistério

Pedro Saborino

poema breve

há um vento parado neste espaço
uma luz que se desprende molda e refaz
o caminho
vemos até ao fim o dia esplendoroso
que os nossos dedos retecem
quase podíamos tocar o interior dessa memória
como uma víscera
um ruído sanguíneo
ou talvez nada

Pedro Saborino

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Final

Tudo é efémero.
Tudo tem um ponto final.
Ou talvez apenas uma vírgula, num imenso contínuo.
Esta minha passagem pela blogosfera foi uma experiência gratificante. Mais uma. Chegou o momento de lhe pôr fim.
Em nome de outros projectos.
Por vezes há que refazer a intimidade das palavras para criar algo de novo. É o caso.
Ou, para citar a Fiama Hasse Pais Brandão nesse belíssimo poema "Do Outono", poderia dizer:

Sem vento a minha voz secou
aqui, neste parque de cedros quietos.

Tudo é como ontem era, mas a minha
voz,na minha face, calou-se,
porque só o vento me trazia a fala,
vinda de algures, com notícias de alguém,
indo para além, para outros ouvidos, num
país.

Até sempre.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

a poesia não tem de ser




a poesia não tem de ser bela
há apenas aves apodrecidas
no bordo do caminho
os deuses há muito deixaram os rios onde agora flutuam detritos
e escuros limos
a poesia não tem de desvendar ou interrogar ou interpelar
há por vezes demasiadas palavras na poesia
e o tempo urge
a poesia não tem de ser ilegível
ou hermética
deve ser directa e brutal como uma puta
despir-se
vomitar trucidar violentar
a poesia não tem de mudar nada
no todo imutável
tem sim de libertar
tem sim de recusar

não há poesia nenhuma numa criança morta

Novembro de 2009

domingo, 22 de novembro de 2009

Do real



Do real

(…) Aprendi que o real é um nó que se desata no ponto rigoroso em que uma cena fulgor se enrola e se levanta.
Maria Gabriela Llansol, Lisboaleipzig , 1994)

sempre ali estiveram, na dobra dos dias
mas apenas as revelámos nas palavras
por vezes de forma mortal decidindo a imagem
ou o sentido da imagem no seu interior
sem que ela se revelasse por si mesma ao nosso olhar

de modo que a geração das palavras
com que as nomeávamos, ou lhes definíamos a curva,
continuamente se insinuava entre nós
e o tempo
num devir absoluto

Novembro de 2009

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

marginalia



cinquenta e poucos anos, no alto do rosto magro e anguloso, agarotado, as sobrancelhas espessas, perguntava-me então como é que vai ser a minha vida? eu trabalho estou na hotelaria trabalho num restaurante como é que vai ser a minha vida? fez-se um espaço ali um espaço interrogativo silêncio a mulher ao lado de lábios entreabertos dentes tortos pois como é que vai ser a vida dele ? temos dois filhos tenho de lhes dizer então que idade têm os seus filhos? seis e doze ah seis e doze mas o problema importante agora é tratar de si já lhe expliquei o que lhe vamos fazer este osso aqui tem de sair e a língua compreende a língua está toda invadida não há forma de tirar o tumor sem tirar tudo isto aqui e o dedo indicador direito percorria o queixo de um lado ao outro vamos ter de lhe fazer aqui uma traqueotomia pode ser apenas temporária depois decidimos e a alimentação? ah a alimentação primeiro através de uma sonda e por quanto tempo dr.? isso depende há doentes que recuperam mais rapidamente isso depende isso depende a mulher de lado o olhar fixado em mim , mas depois posso trabalhar? o que é que eu vou dizer ao meu patrão? quanto tempo? cinco meses? sim talvez cinco meses com a cirurgia e a radioterapia aí uns cinco meses , voltou-se ligeiramente na cadeira, as sobrancelhas elevadas pois cinco meses, mas depois não posso voltar a servir à mesa no restaurante que trabalho é que vou arranjar? de novo um silêncio
uma pequena nota à margem do texto principal
fora o jardim com um lago e alguns pássaros. chovia.

sábado, 14 de novembro de 2009

Elegância, eficácia e cortes de açougueiro


Em miúdo ia muitas vezes com a empregada da casa à praça, o mercado 31 de Janeiro, ali para os lados do Saldanha. Dessas incursões guardo na memória, como uma experiência quase iniciática, a visita ao talho. O magarefe empunhava o facalhão, previamente afiado num cerimonial que ele próprio desfrutava pelo canto do olho zanaga, pegava no naco de lombo ou no costado do porco e com uma suavidade calculada separava bifes e costeletas, que ia juntando ao lado com delicadeza .
Nada daquilo me parecia cruel ou grosseiro. Muito pelo contrário, eu via nesses gestos delicados, naquelas mãos sapudas, um requinte de perícia que eu admirava de olhos arregalados.
Mais tarde, já durante a minha formação hospitalar como cirurgião, recordei muitas vezes esses mesmos gestos. Vi e trabalhei com muitos cirurgiões. Alguns limpavam as mãos à bata, como se estivessem em campanha. Outros hesitavam na abordagem das estruturas, sem convicção. Outros ainda tremulavam perante qualquer emergência como principiantes. Outros ainda tratavam os órgãos com displicência ou com agressividade.
Mas também vi alguns, muito mais raros, que repetiam a suavidade do gesto do açougueiro. Que acariciavam os tecidos como panos de seda . Que dissecavam a canivete . Que moviam os dedos entre as pinças e compressas como uma dança magistral.
Estes ensinaram-me a paixão da cirurgia. O desafio da vida e a intimidade da arte.

sábado, 7 de novembro de 2009

Não


Estava sentado à minha frente, as pernas cruzadas, a direita sobre a esquerda balanceando. Magro, de olhos muito azuis, um azul brilhante e prescrutador. As mãos estendidas, dedos longos, unhas compridas e amareladas do tabaco.
A mulher, ao lado, fazia-me uns sinais de alguém que bebe, acompanhando-os de um olhar oblíquo na minha direcção. Mas afinal o tratamento é para ficar curado? Isso não posso garantir-lhe. Não, não quero. Sabe, sr. dr. ele foi militar. É muito teimoso. Não. Eu não vou fazer tratamento nenhum. Fico assim. O sr. compreende que, se não se tratar, o tumor vai crescer inevitavelmente. Pois. Eu sei. Os olhos ficaram-lhe subitamente mais baços. Já ali não estava. As pernas pararam de balancear. O olhar fixou-se num ponto alto da parede branca atrás de mim. Tudo parou. Sabe, agora já não me apetece fazer a barba . Só a faço de vez em quando. Dantes era todos os dias. Não podia deixar de ser. E tinha gosto nisso, logo de manhã. Agora é a custo. E aborrece-me. Fitou-me nos olhos. Percebi que já tinha desistido. Que queria morrer. Sozinho.