terça-feira, 11 de outubro de 2011

Retrato

Foto de Paulo Patoleia in Rostos Transmontanos












Não vejo o mundo sem os meus olhos, mesmo que tudo mude, ou até deixe de existir

porque eles são os meus olhos da eternidade












o teu rosto pertence a estes montes,
a tua voz sobe do rio e nele flui o percurso
da memória, tal o mundo, tal o discurso
que em mim te nomeia, como se fossem pontes

do passado para o meu peito, agora mais cansado,
mais lento o gesto, mais suave a mão
vem tudo de ti e eu não sabia, tudo repete o que não
pude dizer-te junto de ti , tocando-te o cabelo, sentado

vê agora comigo estes campos – a luz da alva
sobre a névoa descobre os ramos floridos
da amendoeira, é já manhã e os cheiros crescem

húmidos da terra, num antiquíssimo rumor
que só agora desvendo nos teus braços doridos
como se fossem os meus próprios braços que renascem

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A liturgia da poesia




O Prémio Nobel da Literatura de 2011 foi atribuído a um poeta - Tomas Transtromer , nascido em Estocolmo em 1931 . Desde os 25 anos que publica poesia. Vítima de um acidente vascular cerebral há alguns anos continuou o seu labor poético até à actualidade. É considerado o mais importante poeta sueco dos tempos modernos. Publicado em mais de 30 línguas. Praticamente desconhecido em Portugal , apenas representado numa colectânea de 1981 e citado nalguns blogues de poesia que vão por aí sondando o outro mundo . O que não admira. A poesia em Portugal é ostensivamente ignorada. As editoras aqui apenas crismam os génios preconcebidos. Ou pré-concebidos, enfim como quiserem. Temos as editoras que merecemos e as escolhas que não merecemos. Pequeninas, grotescas e ridiculamente preconceituosas. Como os bolinhos da tia, que ninguém come mas todos elogiam.

A Academia redimiu-se, depois de algumas escolhas menos boas. A Poesia verdadeira - essa visão premonitória, essa descoberta do apenas imaginável que está para além do real, essa libertação suprema do quotidiano, essa verdade sempre renovada, esse incêndio das palavras que torna a condição humana o único bem em que nos podemos encontrar como seres solidários, essa visão intangível de um mundo mais próximo - essa Poesia está hoje em festa.

Com essa festa me congratulo e me associo com todo o meu profundo entusiasmo.

Amanhã as editoras deste pobre país vão descobrir que a Poesia afinal existe.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Dignidade




Ela estava ali sentada à minha frente, as mãos de dedos finos e pálidos sobre o regaço, os olhos sem brilho. Fez-se um silêncio. Dois ou três longos minutos de interrogações. De súbito o meu olhar cruzou-se com o dela. Entendi-lhe a força da sua enorme fragilidade. Do seu pequeno corpo decrépito, minado pela doença terminal. Da solidão perante a doença inexorável. Do nada físico exposto ali, pungente, como se fosse a última das dádivas. Ao lado a empregada do lar de idosos em que vivia folheava um dossier de capa verde com meia dúzia de folhas. Notas clínicas sumárias. Monólogos de vazio quotidiano. Tudo se resumia àquele círculo da nossa presença. Que os seus olhos tornavam do tamanho do universo.
Fora, no pequeno televisor da sala de espera da consulta, passavam notícias da bolsa no noticiário das 13.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

canto do amanhecer

Ao Carlos Paredes




neste país que arrefece nos silêncios
das lutas mortas
naus submersas de viagens sem regresso
maio esquecido
nas searas de trigo imaginado
no teu peito inquieto eu procuro o teu rosto
ó voz antiga
ó rio infindável
da liberdade
já não te ouço
já não te espero no alvor da manhã
como dantes
onde o meu sangue te nomeava
os meus olhos já não te podem ver
como dantes
e o meu corpo vagueia
neste canto do amanhecer
sem alegria
sem nada

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

os olhos vazios dos deuses



Os homens da Europa, abandonados às sombras, desviaram-se do ponto fixo e reluzente. Trocaram o presente pelo futuro, a humanidade pela ilusão do poder, a miséria dos subúrbios por uma cidade fulgurante, a justiça quotidiana por uma verdadeira terra prometida. Perderam a esperança na liberdade das pessoas e sonham com uma estranha liberdade da espécie; recusam a morte solitária e chamam imortalidade a uma prodigiosa agonia colectiva. Já não acreditam naquilo que existe, no mundo e no homem vivo; o mistério da Europa é que ela já não ama a vida. Os seus cegos acreditaram de modo pueril que amar um único dia da vida equivalia a justificar séculos inteiros de opressão. Por isso, quiseram apagar a alegria do quadro do mundo adiando-a para mais tarde.
A impaciência dos limites, a recusa da vida na duplicidade, o desespero de ser homem, levaram-nos, finalmente, a uma desmedida desumanidade. Ao negarem a justa grandeza da vida, precisaram apostar na sua própria excelência. Na falta de coisa melhor, eles divinizaram-se e a sua desgraça começou: estes deuses têm os olhos vazios.

Albert Camus, O Homem Revoltado , 1951





Não queremos os deuses

da misericórdia

não tememos a dor

não tememos o medo

não queremos voltar a ser a imagem da inquietação.

Invocamos-te, divindade, para te dizer: não te queremos.


Já não somos escravos, libertámos a vontade

defrontámos o teu rosto para te mostrar os nossos olhos

a nossa boca que proclama liberdade

os nossos braços que derrubaram as grades

das tuas prisões.


Pode a tua voz rugir sobre nós, lançar o medo, o opaco

manto da negação


mas nada nos deterá.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

sôbolos rios que vão

ao rio Sabor, berço da minha memória

e a Camões, tão perto de nós


sôbolos rios que vão
na minha terra, crescem
as penas que em mim nascem
das memórias que ali estão
e por eles permanecem

como o verde curso agreste
levo a mágoa que se tem
por tudo o resto que vem
no tempo que a mim reste
do tempo que a vida tem

entre o meu corpo e os medos
contam-me sonhos do mar
belas coisas de encantar
desvendam-me os seus segredos
que o sonho não vai guardar

dos meus rios desta vida
não me digam donde vão
porque se alonga a partida
sôbolos rios que vão
em todos há despedida



Pedro Saborino

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

não quero ser uma paramécia



a paramécia é um ser unicelular não pensa não tem cérebro é um ser unicelular pois claro a minhoca tem 300 neurónios a mosca aí uns 60 000 mas sabem a paramécia reage foge esquiva-se e vive tem vida própria e a minhoca quando lhe falta a comida junta-se as outras minhocas a mosca descobre os aromas e até dizem que se embebeda mas não é só outros seres como os macacos os lobos os golfinhos reagem ao ambiente de forma inata pré-determinada imanente nem eles próprios sabem porque o fazem mas fazem e fazem-no para se defenderem ou para se alimentarem ou para se reproduzirem de acordo com o ambiente ou as suas necessidades só isso –
mas eu tu nós todos modulamos as nossas emoções escolhemos agimos construímos decidimos muito para além das emoções da tristeza da raiva do pânico do desejo sorrimos e rimos e choramos percebemos o nosso corpo para além dele próprio para além de mijar de fazer sexo temos a ideia de nós mesmos como seres absolutamente imperfeitos e vulneráveis compassivos e despóticos apaixonados e indiferentes corajosos e cobardes indecisos e determinados submissos e inconformados temos memória procuramos a justiça e o bem e a solidariedade e a verdade nos vales profundos do pensamento nesse limbo que separa a biologia da paramécia da natureza humana -
não sejamos paramécias não deixemos que façam de nós paramécias a nossa mente é a substância do nosso corpo

terça-feira, 6 de setembro de 2011

cosa mentale







cosa mentale


(…) ninguém sabe como e por que meios a mente move o corpo.
Espinosa, Ética

No início tinha apenas umas fulgurações, algo que não o incomodava muito. Como que uma pressão por detrás da órbita direita. Nada que o impedisse de escrever. Muito menos de pensar. As suas rotinas diárias fluíam invariáveis, as aulas, o novo romance que começara a rever, a crónica semanal que tinha de enviar para a redacção até quarta feira, a visita diária ao café, os seus papéis em que anotava ideias e comentários de leituras, por vezes fazia desenhos. Desde que se separara tinha mais tempo para tudo isso. O Brisk, o velho boxer, tinha morrido meses atrás. A casa tinha agora uma penumbra de fumo de cachimbo e fina poeira suspensa que os escassos raios de luz revelavam. Retirara todas as fotografias dos caixilhos que agora se dispersavam vazios pela casa como olhos cegos. Ficava por vezes, sentado na beira da secretária, a olhar esses caixilhos como se fossem quadros de memória silenciosa. Tinha um passado, claro, para lá dessa fronteira invisível. Toda a gente tem um passado. O corpo tem um passado físico inexorável. Mas olhar o tempo era diferente. Não porque as coisas tivessem mudado, mas porque se sentia diferente.
Começara entretanto com dores mais fortes. O olho direito começara a ficar mais saliente e a visão complicou-se. Agora via duas imagens.
Tudo se precipitou a partir daí. Os exames médicos mostraram um tumor dentro da órbita. No dia em que lhe deram a notícia foi para casa e sentou-se junto da janela da sala até anoitecer, com as mãos cruzadas sob o queixo, estático. Pela primeira vez pensou que podia morrer.
Morrer sozinho. Para si e dentro de si. Entre os livros e papéis espalhados. Como a chuva que caía lá fora era algo que podia apenas explicar, mas que não podia impedir. Tal como a divindade universal.
Podia então morrer indefinidamente e continuar . Porque morrer não era um bem, nem um mal. Apenas uma transição.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O saque


o saque

podemos dizer dos muros que foram derrubados
só porque não os vemos?
ou porque tu e eu os ignoramos ?
ou porque simplesmente já não existem?
ou porque já não os desejamos
no silêncio das nossas omissões e cobardias?
a nossa força não provém da opressão
mas da liberdade
as verdades mudam com as fomes
ou as pragas
ou as mentiras
ou as feridas
ou as violações
(as próprias guerras nada mudam para além das mentiras)
vivemos rodeados de quotidianas verdades
mas a verdade
a derradeira verdade
é a que te liberta
e que te consome
totalmente

terça-feira, 9 de agosto de 2011

tempos











muitas coisas se passaram dentro dos meus versos
alongou-se, talvez demais, o espaço entre as sílabas
que prenunciavam a mudança
e eu estava ali num silêncio compacto e vicioso
que a espera tornava difícil
nada definitivamente nada fluía desse recanto
digamos desse indefinido pedaço de memória
como se fosse uma mera imagem das minhas inquietações
aí então, como uma faca no vazio, se revelaram os diversos tempos
o tempo inicial e informe do princípio
milhões sobre milhões de anos, pó sideral disperso
até ao tempo do meu passo sobre este chão concreto
ou o meu tempo interior sem tempo que apenas e exclusivamente construo
do tempo cronometrado do meu gesto
ao tempo sem tempo nenhum da minha ideia de tempo
do universo que flui dentro de mim e apenas apercebo
passado, presente e futuro são agora construções, como a praça vazia da minha vila se refaz no fontanário que eu vejo ali em baixo
mas podia nem sequer ver
podia apenas imaginar
como as pedras sobrepostas de uma escada
ou o amanhecer por detrás da janela envidraçada


aí então podia descortinar o tempo definitivo
o tempo real da realidade

o tempo total

Pedro Saborino






sábado, 6 de agosto de 2011

Hiroshima, 8 e 15



Hiroshima, 8 e 15


leite negro da aurora bebemos-te à tarde
bebemos-te cedo e no dia bebemos-te à noite
e bebemos bebemos
Paul Celan – Fuga da morte



temos todos as mãos sujas
a cinza escorre-nos entre os dedos
e as feridas ainda ardem na memória
dos cativeiros
das valas abertas, dos fornos fumegantes

morre-se aí
a mesma morte de todas as guerras

nós queremos apenas abrir os olhos sobre o vale funesto
e ver por fim a força das palavras
definitivas
o leite e o mel
no regaço da mãe
a giesta
o rio fluente
o canto

terça-feira, 2 de agosto de 2011

O banqueiro neo-anarquista, Espinosa e a liberdade








O banqueiro neo-anarquista , Espinosa e a liberdade


certamente, neste ou noutro dia qualquer, você compreenderá que o jugo tirânico do dinheiro se insinua por si próprio, se enrola sobre si mesmo como uma hélice de que não se conhece nem o fim nem o princípio, a desigualdade é um fatalismo, a liberdade um poder igualmente desigual que você pode ter ou não ter conforme o dinheiro seja poderoso ou subjugador, a minha liberdade não é o poder do dinheiro é saber que o seu trabalho não é mera ficção mas o meu lucro, mas já estou muito longe, meu caro amigo, da acção directa, o anarquismo é um mero disfarce a persona cinzenta talvez um pouco cínica em que me escondo, na verdade eu acredito que os marxismos estão todos mortos e que não somos definitivamente todos iguais, a revolução acabou , o meu próprio dinheiro não me mede a riqueza. afinal o que é ser rico? uma metáfora , ser rico não me torna livre mas você, que não é rico, não é igualmente livre, repito - a liberdade não existe por si é um poder discriminatório, a sociedade é um poder regulador, a burguesia uma miragem, você leu Gramsci? não acredito em intelectuais, não há cultura de massas, o dinheiro dimana para a cultura porque a precede, sem ele a cultura é uma falácia




- a liberdade é uma construção interior ( respondeu-lhe pausadamente o interlocutor), Espinosa situava a liberdade numa necessidade livre . o poder não é verdadeiramente livre porque não é exercido de dentro para fora e por isso considera toda a liberdade perigosa. mas a minha essência é ser livre e não temo o poder, nem o do dinheiro.essa é a minha liberdade

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Sophia revisitada em Cacela

para Ibn Darraj al-Qastalli, poeta do al Andaluz





para Cacela Velha





e para Sophia de Mello Breyner








Poema azul


do mar azul dizia
e subitamente sobre o manto
da manhã mais não via do que o sereno azul
da flor e dos teus olhos
amada e flor azul como tu eras

do mar ainda a luz da madrugada
o gosto salgado e o profundo olhar
mais não sabia que muitos mares azuis
e azuis campos de flores
eram como do teu rosto a flor

e flor diria o teu corpo
tudo enfim te tocaria









Pedro Saborino


(Foto, aliás belíssima , de Elsa Estrela)

Revelação

Foto de Carlos Muralhas



Revelação


os objectos declinam a luz
em iluminuras suspensas ao final do dia
quando a cidade se adensa por entre códices e rumores
fervilham sons nos recantos
e aves cruzam o espaço dos jardins agora prisioneiros das estátuas
há gente apressada pelas ruas
olhares, silêncios, palavras gretadas, gestos esquivos nos autocarros suburbanos
que fedem um suor magoado, espesso

o rio é agora só uma esquina
um passo
um eco que a noite inventa em naves ocultas
do passado
nas vielas onde ascendem cheiros do perdido império
jasmim, incenso, canela


por fim tudo ali se mostra
aos olhos cegos
numa beleza táctil que nem a morte sujeita, grandiosamente
à destruição do corpo e à temível presença dos anjos
incompletos


Pedro Saborino

domingo, 24 de julho de 2011

obituário

para Maria Lucia Lepecki


obituário


agora já não descrevemos em conjunto a migração das aves
tocamos apenas um corpo gélido
que flutua sobre a linha
das interrogações
o rosto emerge concrescente e, como um ocaso, divagamos em socalcos
de memórias
numa penumbra inquieta
como se tudo fosse tão só o cenário
das coisas reais

destas já não negamos o interior
apenas lhes interrogamos os recantos
que a luz não define
e onde os espaços do silêncio são maiores

por vezes tão vastos que
se iniciam no seu fim



Pedro Saborino

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Esteiros









Esteiros


do esquivo vento outonal
te passará depois o inverno e daí arrancarás as flores
que a terra húmida e premente
te abrirá nas mãos
gretadas de unhas negras e inquieta revolta
virá o sol mais tarde pela manhã
talvez pela tarde quando os teus pés se perderem em ruas de cinza
e uma luz coada breve te afagar a cara
naquele recanto onde costumas estar sempre
a olhar o rio





Pedro Saborino

Ay Carmela

Homenagem a Mainstreet



Ay Carmela



não passarão sobre o teu corpo
não desenharão o rio do silêncio sobre ti
o tempo não ocultará o teu rosto
ou as tuas mãos
ou o teu sangue
ou o teu filho
ou a tua morte

não será medo ou fome ou dor o teu grito
mas o vento que dissipa a névoa

o mar que invade o sonho


estaremos aí
nesse chão

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Lugares





podia ter sido de outra maneira
outras palavras teriam feito romper-me o corpo
ou nele conter o próprio ritmo do vento

podia ter dito apenas algo inventado
duas coisas quaisquer sobre o universo
e surgiria da morte como um rio
neste espaço
entre a agonia e a luz da alva

mas tudo permanece
o círculo branco
o som
a poeira muito fina do segredo



Pedro Saborino


quinta-feira, 29 de julho de 2010

Escada de jacob


BRANISLAV MIHAJLOVIC
Escada de Jacob (Azul)
Acrílico, chumbo, pedras s/papel - 140x110 cm - 2005




olho em torno e pressinto o que ainda permanece das formas
ou pelo menos alguma luz que por vezes divaga
sobre os meus ombros
de objectos outrora perante mim

não é pois verdadeiramente noite ou abismo
nem nada se esconde
dessa luz azul que revela o espaço entre o vazio e a cor
epítese terrível onde os membros de vários corpos se confundem e
se consomem
num ritual de fogo

agora o passo acima
o olhar silencioso da ave sobre o campo onde o fumo silencia o frémito da luta
e as armas repousam
não há mais gritos e os gemidos apenas prenunciam o espaço da morte

por cima ainda rompo as vestes roxas
e as minhas perguntas libertam-me as palavras
do nada
em metáforas e diversos perfumes
há cantos
e silêncio depois

caminho sobre a rocha
e o peito abre num prenúncio
a libertação do anjo

aqui
conheço o ocre a tinta magnífica a mão aberta
o sentido urgente

no último degrau por fim desvendo o rosto
revelado o tempo
que o deus fabrica
a iluminação a dor final das vísceras
tombadas sobre o pó
das estrelas


Pedro Saborino

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Nau Catrineta


vede o céu que se curva
no poente em cada dia
inútil o remo ou a vela sobre o rumor cavo do mar
alcança o olhar do gageiro
em silêncio o horizonte

contemos a raiva a fome o espanto
os sonhos numa ave que se afasta
um albatroz
o peixe raro voador cinzento morte alada
desta nau deste mistério

Pedro Saborino