quarta-feira, 11 de abril de 2012

Epistolário sentimental III









no silêncio aparente dos mortos declinam-se os recantos da terra assim extinta sobre o brilho lunar dos heróis

morro por dentro, na vaga do tempo

inconcluído

destroço do nada que vagueia

e, chamando-me, a ave

no seu grito alado, invoca a liberdade



do nada se refaz o vento que varre a memória,

e na rocha, na sua bruta forma, desenha-se por fim o teu rosto

que a manhã acende em poderosa chama da paixão

a luz irrompe então sobre ti, incontida, como o mar na gruta do desejo

tudo se suspende

e o teu corpo nasce, intocado e nu

na invocação da manhã



 Pedro Saborino

sábado, 7 de abril de 2012

Pessah






Porque é esta noite tão importante ?






detemos o curso do tempo nesta taça de vinho



e os nossos olhos brilham de novo com fulgor



a memória vive



num movimento de futuro



porque aqui imaginamos a liberdade



suspendemos o golpe mortal do anjo



sobre o nosso rosto



que assim se abre para a luz





vem escravo



sai e caminha comigo



nesta noite



em que começamos a viver





Pedro Saborino




















quinta-feira, 29 de março de 2012

Para Rafael Albertí

Não é mais fundo o poeta no seu subsolo escuro



encerrado. O seu canto sobe mais profundo



quando, aberto no ar, é de todos os homens.






in Balada para os poetas andaluzes de hoje







de que se fazem o canto e as duras formas dos picos submersos na angústia do anoitecer de que se faz o rosto acerado
aquelas mãos retorcidas que cortam o vento
de que se fazem
os pássaros esmagados
dentro dos sonhos
que já não brilham como estrelas
de que se faz o silêncio do vazio
e flutua
a boca gelada que já nada pede
o fio trémulo que suspende a lua ?

de que se fazem os passos
na chuva o calor sufocante e o odor do laranjal
de que se faz
o recanto da luz
de que se fazem os ódios calcinados a greta da miséria
a tua fome ó vão guerreiro ?

de que se fazem o pranto
o destroço o duro arco vergado o caule
morto
ofício roxo de um céu esquecido ?

de que se fazem?
de que se fazem?





Pedro Saborino

terça-feira, 27 de março de 2012

do mal



aqui
desenhamos o círculo da infâmia

atam-nos os braços espíritos da fome

aqui cavalgamos a maldade infinita
por ressequidos desertos
sem amanhecer

dai-nos estes lábios roxos
e o furor do sangue
para que nada nos reste
além da verdadeira morte



Pedro Saborino

segunda-feira, 26 de março de 2012

sufrágio















a poesia nesta terra está cada vez mais morta
mais cinzenta
mais insignificante
mais nula
cada vez há menos poesia viva nesta terra
as portas fecham-se no desígnio da morte da poesia
e os poetas morrem aliterados
coitados
coitados
nesta terra
de poetas aliterados
e mortos

coitados







Pedro Saborino

quarta-feira, 21 de março de 2012

viagem

Quinta das Aveleiras, Torre de Moncorvo


caminhei muitas vezes por esta estrada de aveleiras
ao entardecer na saudação do poente
nasci muitas vezes da sua seiva como a água reflui da matéria ou o canto das aves veloz e inesperado se insinua entre o sangue e a memória
ou o silêncio dos lugares se purifica sobre o rosto
no prenúncio da viagem
lembro-me de como era quente o chão sob os meus pés
e como de dentro
do seu fogo íntimo e inominável
sofria a terra
em seus arados imóveis

estive aí e aí fui chamado por vozes que clamavam os nomes da inocência
estive aí sentado sobre a pedra
e os meus dedos tocavam-na longamente como o ceifeiro toca a superfície mansa da seara
e eu fazia parte desse lugar
das suas palavras que escorriam devagar sobre o musgo
em fios antiquíssimos
estive aí muito perto

Pedro Saborino










sábado, 17 de março de 2012

sagração

imagem de Pina, Wim Wenders




o poema tem um cristal
e o sangue explode nas arestas
quando se desnuda

a palavra é o interior do silêncio
o poema a sua viagem
até à margem do cântico final

o fogo a carne o suor a lágrima do sexo
a exaustão
que o tempo prolonga
em raiva
e sedimento animal

o poema constrói um rio
entre salgueiros de raízes descarnadas

porventura alguma vez nos pertenceu o poema ?
ou vimos de perto o rosto do poeta?



Pedro Saborino















quarta-feira, 14 de março de 2012

epistolário sentimental



no silêncio aparente dos mortos declinam-se os recantos
da terra agora extinta
o brilho lunar dos heróis
morro por dentro como a vaga inacabada e o tempo (inconcluído destroço do nada sideral) vagueia sobre mim
chamando-me, como a ave
no seu grito invoca a liberdade

porém do nada se refaz o vento inconformado
e na rocha bruta desenha-se o teu rosto
a manhã acende poderosa a chama da paixão
então o mar irrompe sobre ti incontido na gruta do desejo
tudo se suspende sobre o teu corpo
tocando no desejo o eterno


Pedro Saborino

sábado, 3 de março de 2012

Para Maria Gabriela Llansol

No 3º aniversário da sua morte

do real

(…) Aprendi que o real é um nó que se desata no ponto rigoroso em que uma cena fulgor se enrola e se levanta.
Maria Gabriela Llansol, Lisboaleipzig,1994



sempre ali estiveram, na dobra dos dias
mas apenas os revelámos nas palavras
por vezes de forma mortal decidindo a imagem
ou o sentido da imagem no seu interior
sem que se revelassem por si mesmos ao nosso olhar

de modo que a geração das palavras
com que os nomeávamos, ou lhes definíamos a curva,
continuamente se insinuava entre nós e o tempo


Pedro Saborino


in Marginalia





quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Para Herberto Hélder



morrer é assim: sepultado na luz como um pássaro no voo
Herberto Hélder, in a Imagem Expansiva, 1981


círculo de fogo

procuro as vozes nocturnas das imagens
na escuridão desvendo o espaço interior das coisas mortas
nada é apenas um grito
um apelo da dor
um membro trucidado
as flores são meras metáforas da maldade
o vácuo insano
caminho em passos de cego
sobre a carne
que o fogo me consome

e vivo

talvez


Pedro Saborino

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Para Lorca





Cante jondo

(…) dos que morreram separa-me
um muro de sonhos maus.
Gazel da lembrança de amor , Federico Garcia Lorca


nada
enche agora este campo senão o luar
(em Agosto a lua resplandece sobre Granada)
quantos corpos mais vão cair
junto ao rio sangrento?
quantas flores celebrarão o negro olhar
fitando a morte?
quantos gritos clamarão a liberdade?
e o rio vai
levando o silêncio e a noite
como o aroma do laranjal até ao mar
verde que te quero verde
dizias
e sobre ti não passarão





Pedro Saborino

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Para Camões




Dinamene



nos sons da noite desejo-te o teu mar
desvendo-te nas coxas o meu poder
dentro de ti, navego-te, sem te saber
tão perto o fogo, tão fundo o olhar

invento-te o mistério, a dor, o despertar
do teu gemido, que no amanhecer
abre a obscura gruta, o súbito enlouquecer
da vaga insaciada, da morte devagar




Pedro Saborino

domingo, 15 de janeiro de 2012

O poder da literatura






Pela sua importância e oportunidade junto, com a devida vénia, um link para o post da Profª. Helena Damião no excelente blog De Rerum Natura.
Trata-se de uma súmula do livro Para que serve a literatura de Antoine Compagnon ( foto acima) no qual se reflecte sobre o significado da literatura na vida e na escola.



É um notável documento que me impressionou profundamente pela sua concisão e sobretudo por mostrar como a literatura é um instrumento de civilização, de saber, de liberdade e de partilha.


http://dererummundi.blogspot.com/2012/01/para-que-serve-literatura-2.html#links

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Para Fiama

Nós que tivemos a vagarosa alegria repartida
pelo movimento, pela forma, pelo nome,
voltamos ao zero irradiante (…)
Fiama Hasse Pais Brandão in “ As Fábulas” ed. Quasi



nada restará de mim para além do verbo essencial
a mudança do olhar
a liturgia da paixão

nada recriará a viagem
senão o interior das palavras
a sua paisagem verdadeira
nada lembrará o mar senão o barco






Pedro Saborino

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Para Álvaro de Campos





porque matéria e espírito são apenas nomes confusos



dados à grande sombra que ensopa o exterior em sonho



e funde em noite e mistério o universo excessivo






Álvaro de Campos












viagem





é noite e passeio na rua o meu cão

tenho a lua e as estrelas sobre mim e, vendo-as, divago
de constelação em constelação, de galáxia em galáxia, de cúmulo em cúmulo
em cósmica viagem
vou até aos princípios que se afiguram muito para além do fim deste universo
(pressinto que sejam outros universos)
e daí ainda por distâncias que a astrofísica já não entende
talvez só o sonho dos universos apenas sonhados
ou a poesia
porque a poesia não tem regras físicas, não se submete à gravidade
nem precisa do tempo para existir

e penso: o que é a distância? que métrica me toma o olhar sobre estes astros como se fosse a geração do tempo e este por si mesmo
o espaço, deixando-me vê-los pela sua luz
que viaja até mim através do espaço sideral?
onde estou , silencioso espectador do nada?
aonde me transporta aquilo que eu não sei, ou aquilo que deixei de saber, ou aquilo que nunca virei a saber?

estou aqui, inerte, ou movo-me? quem sou eu afinal? desígnio ou matéria pensante? que do vazio irrompe
como a vida ressurge da morte
em ramos poderosos, em fontes submersas que rasgam subitamente a quietude da paisagem

quem somos nós todos, viventes, quem é o deus que nos observa
nos acolhe os temores,
as imperfeições, a ignorância, a soberba?
que pedra bruta somos até modelarmos o nosso rosto verdadeiro?


depois o meu cão alça a perna junto à árvore
e regresso à fina crosta da noite


Pedro Saborino



segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Para R.M.Rilke





poema incompleto









todas as coisas ressoam a profundidade infinita, todos os elementos se reunem com o mundo
R.M. Rilke

é necessária a poesia? é necessária e urgente a poesia?
os deuses vagueiam por dentro deste cântico funesto e o mundo celebra o efémero, sabemos tudo o que resta de nós, agora mortais,
e as vozes grandiosas já não nos comovem
como o rosto macio do jovem
ou a água vibrante na corda do vento matinal

é então necessária a poesia?
como descreveríamos a paixão das palavras, como ressurgiríamos do nada para o eterno?
como viveríamos assim, em concêntricos círculos de inquietação até ao mistério final?
como diríamos amo-te, ou desejo-te, ou tomo-te na vaga poderosa da carne, sem sucumbir?
como diríamos eu sonho, ou desvendaríamos a luz do poente?

acreditamos no poder da poesia
porque




Pedro Saborino





quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Para Pablo Neruda




Geração do poema






Não estás morto,não estás morto.


Estás apenas dormindo.


Como dormem as flores


quando o sol se reclina.






o poema está aí onde tu o inventas
e a tua mão subverte esse tempo indefinível que lateja
na antecipação do prazer
como o sexo

está aí o poema, só teu, em nudez total
depois move-se, sempre inacabado, suplicando na dor do corpo
e rasga-te
no movimento
esse instante que ninguém viu ou sentiu ou respirou senão tu
profano aprendiz da agonia da palavra exacta
da revelação
do rio profundo da matéria

está aí o poema, possuindo-te já e não possuído
tomando-te o suor incendiado na vigília que entra pela manhã
calcinando-te no fogo interior da sua construção
está aí o poema
entre o sim e não, o amor e a morte, o anjo e a mutilação
o nada e a revelação
está aí senhor e servo da tua criatura
em mudança permanente




Pedro Saborino


quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Para T. S. Eliot


(…) e o fim de toda a nossa exploração
será chegar aonde partimos
e conhecer esse lugar pela primeira vez

T.S.Eliot, Quatro quartetos



Nostos

assim, entre o ser e a destruição dos dias, ocupo-me finalmente dos seus escombros
ando por galerias de minas antigas da memória
antecipando a grandiosidade do fogo,
metalúrgico sinal da origem

estou preso nas entranhas do verbo
evoco os lugares que julguei serem meus,
entre mim e outro, indecifrável,
diria todos os outros nos quais já não consigo ver-me
mas que fui eu e eu conheci
e me descobriram nesses lugares

lugares talvez verdadeiros
talvez apenas lugares através dos meus sentidos

descrevo-me pois viajante de retorno à idade das vozes primitivas
ao refúgio no qual a inquietação se avoluma
e o olhar desperta
absoluto



Pedro Saborino

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Gente comum



(…) o que chamamos o princípio é muitas vezes o fim
e terminar é começar.
É do fim que nós partimos.
T.S. Eliot, in Quatro quartetos



carregaremos sobre os ombros o peso da liberdade
milhões de mortos nos olharão
e o seu sacrifício não será redimido
sem o nosso próprio sacrifício

seremos julgados pelos que vierem depois de nós
pelas nossas omissões
pela nossa ignorância
pela nossa indiferença
pelo nosso egoísmo
pela nossa servidão

nada nos livrará do juízo temível dos mortos
se formos moribundos do futuro

sábado, 10 de dezembro de 2011

teoria geral do conhecimento



(…) e o fim de toda a nossa exploração
será chegar aonde partimos
e conhecer o lugar pela primeira vez

T.S.Eliot. Quatro quartetos


assim, entre o ser e a destruição dos dias, me ocupo dos seus escombros
por galerias de antigas minas
que antecipam a grandiosidade do interior da terra
o seu metalúrgico fogo
estou preso no verbo
invoco a memória dos lugares que achei meus
estou entre mim e o outro indecifrável
diria todos os outros nos quais já não consigo ver-me
mas que eu fui e eu conheci
que me descobriram nesses lugares
talvez verdadeiros
talvez só meus
talvez só lugares