quinta-feira, 7 de junho de 2012

Corpus Christi



(…) Sob a pressão de vozes vindas do exterior, eles passaram a métodos mais suaves e têm dado ordens no sentido de que não se toque em um cabelo sequer de judeu.


Este boicote – que nega às pessoas a possibilidade de desenvolver uma actividade económica, a dignidade de cidadão e a pátria – tem empurrado muita gente para o suicídio: cinco foram os casos trazidos ao meu conhecimento somente dentre os meus familiares.

Estou convencida de que se trata de um fenómeno geral que provocará muitas vítimas. Pode-se pensar que os infelizes não terão tido bastante força moral para suportar o seu destino. Mas se a responsabilidade cai em grande parte sobre aqueles que os empurraram a um tal gesto, ela recai também sobre aqueles que se calam.

Tudo isto que aconteceu e que acontece quotidianamente vem de um governo que se define como “cristão”. Não somente os judeus, mas também milhares de fiéis católicos da Alemanha – e, eu penso, do mundo inteiro – aguardem depois de semanas e esperam que a Igreja de Cristo faça ouvir a sua voz contra um tal abuso do nome de Cristo (…).



Edith Stein, 1891-1942 (Auschwitz), canonizada em 1998 por João Paulo II como Santa Teresa Benedita da Cruz

Carta ao Papa Pio XI , 12 de Abril de 1933

segunda-feira, 4 de junho de 2012

os dias impuros



os dias impuros




escrevo-lhe não para me confortar mas para lhe dizer que apesar de tudo as dores não me atormentam tanto agora com o novo tratamento embora o tumor do meu pescoço continue muito inchado e tenso, sinto uma pressão enorme que por vezes me impede de falar e de respirar fico mesmo no limite da asfixia, as sessões de quimioterapia e de radioterapia deixam-me muito debilitado mas acho que depois ficarei melhor, muitas vezes imagino mesmo que me vou curar, é uma forma de olhar o mundo, sabe que continuo a trabalhar vou ao escritório falo com os colegas abro uns processos discuto umas ideias escrevo umas minutas sinto-me útil compreende? de resto sei que não posso fazer muito mais, depois regresso a casa vou sempre a pé devagar vou sorvendo os ruídos do mundo as vozes o ladrar dos cães o barulho dos carros entro no café e bebo uma bica a olhar um ou dois velhotes mal barbeados que reviram o jornal quase esfarrapado com notícias que nada adiantam ao seu rosto embaciado e eu próprio me perco por vezes em tal divagação, mas depressa me liberto do limbo incerto e procuro os sinais de que estou vivo, sofro por vezes cruamente mas estou vivo digo porquê não sei mas estou vivo de resto o que é viver? a obra feita ? as mulheres que amei? o meu filho que entretanto deixou de existir? o que é que eu fiz afinal na vida? fui o falcão agrilhoado ou a garra da águia ? a torrente o rio incontido ou o charco a viela a esquina? não lhe sei dizer nem será importante dizer porque nada é mais importante agora do que desatar estas cordas que sinto em volta de mim como uma servidão, não que eu deseje sofrer ou que a dor me purifique ou me redima ou absolva mas tão só porque não quero caber dentro do meu corpo quero estar do lado de fora de mim e olhar-me apenas como o ser físico sofredor o outro frágil que a doença vai minando, estou pois aqui ao mesmo tempo espectador da minha condição e senhor de mim mesmo, tenho dado comigo a pensar como desta forma eu posso escolher entre a essência da minha liberdade e a existência da minha natureza humana que se enreda na trama de todas estas vicissitudes às quais não posso fugir
vou tal como sísifo carregar a pedra do vale ao cume, da humilhação até à face dos deuses,dia após dia, vou acorrentar a morte
abraço amigo F.





Imagem de bucaorg (CC-usage) Flickr



domingo, 27 de maio de 2012

Houla



aqui

desenhamos o círculo da infâmia

atam-nos os braços espíritos da fome



aqui cavalgamos a maldade infinita

por ressequidos desertos

sem amanhecer



dai-nos estes lábios roxos

e o furor do sangue

para que nada nos reste

além da verdadeira morte

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Gaiteiro



Gaiteiro

para a Né Ladeiras e Galandum Galundaina



descubro-te o canto entre pedras e céu

trinos e lamentos , gritos e antigos sons

que do fole revivem como guerreiras danças

em passos de pastor sobre a esteva pela alba

gaiteiro da vida que me acordas



invento-te o nome, nesta serra , neste olhar

com tambores e ferrinholas

despertas as aves que voam do rebanho

sobre o meu tempo , numa viagem distante

gaiteiro da vida que me acordas



vejo-te na festa como um rei

por entre fogueiras

celebramos contigo no fole e na palheta

o vinho novo o sonho que renasce

gaiteiro da vida que me acordas



Pedro Saborino



sábado, 12 de maio de 2012

o que é perder ?


(...) E, no entanto, eu escrevo…



As vidas que, durante a batalha, se vão perder, enquanto chamas vivas, iluminaram quem, o quê? A mim?


E que pujança estética sem nome tiveram (ou estão tendo?), esses homens e mulheres?


Que linha do tempo foi ali quebrada?, mas não partida, e lhes envolve o ser?


Que nuvem continua transitando? Por que será que no horizonte da história se ouvem gemidos, o gotejar contínuo de acções inacabadas?


(Maria Gabriela Llansol in Finita. Diário 2. 2ª ed. Assírio & Alvim, 2005, pp. 21-22; 46-47)

 


inquieto o tempo desdobra

nas mãos os múltiplos silêncios

da valsa

imperfeita

o vagar da noite que arde sobre o rio

palavra a palavra

até ao mar final da memória

pois nada sabemos

de ti


Pedro Saborino






quinta-feira, 3 de maio de 2012

do tempo







do tempo


                                            para o Horácio Espalha Jr. e para Moncorvo



muitas coisas se passaram dentro dos meus versos

alongou-se, talvez demais, o espaço entre as sílabas

o que prenunciava a mudança

e eu estava ali nesse silêncio compacto e viscoso

da espera


nada definitivamente nada fluía de tal recanto

digamos desse indefinido pedaço de memória

como uma mera imagem das minhas inquietações



aí então, tal faca no vazio, se revelaram os diversos tempos

o tempo inicial e informe do princípio

milhões de milhões de anos de poeira sideral

até ao tempo do meu passo sobre este mesmo chão

ou o meu tempo interior, sem tempo

do tempo medido do meu gesto

ao tempo sem tempo nenhum da minha ideia de tempo

do universo que flui de mim

ao segundo infinitesimal da ideia



passado presente e futuro são apenas construções

como o tempo da minha vila se constrói naquele fontanário da praça

que eu vejo

mas podia nem sequer ver

podia apenas imaginar

como as pedras sobrepostas de uma escada

ou o amanhecer através da janela envidraçada deste quarto sobre a serra



aí então a minha memória poderia descobrir o tempo definitivo

o tempo essencial








quarta-feira, 25 de abril de 2012

invocação



invocação




tomámos ali o vento

sobre o rosto

ali bramia o vendaval da manhã desperta

éramos mais do que nós

nos nossos sonhos

já não havia grades entre nós e o mar

o perfeito acorde rompia-nos o peito

como a vaga interior da paixão

éramos então o futuro

a origem

a luz



quarta-feira, 11 de abril de 2012

Epistolário sentimental III









no silêncio aparente dos mortos declinam-se os recantos da terra assim extinta sobre o brilho lunar dos heróis

morro por dentro, na vaga do tempo

inconcluído

destroço do nada que vagueia

e, chamando-me, a ave

no seu grito alado, invoca a liberdade



do nada se refaz o vento que varre a memória,

e na rocha, na sua bruta forma, desenha-se por fim o teu rosto

que a manhã acende em poderosa chama da paixão

a luz irrompe então sobre ti, incontida, como o mar na gruta do desejo

tudo se suspende

e o teu corpo nasce, intocado e nu

na invocação da manhã



 Pedro Saborino

sábado, 7 de abril de 2012

Pessah






Porque é esta noite tão importante ?






detemos o curso do tempo nesta taça de vinho



e os nossos olhos brilham de novo com fulgor



a memória vive



num movimento de futuro



porque aqui imaginamos a liberdade



suspendemos o golpe mortal do anjo



sobre o nosso rosto



que assim se abre para a luz





vem escravo



sai e caminha comigo



nesta noite



em que começamos a viver





Pedro Saborino




















quinta-feira, 29 de março de 2012

Para Rafael Albertí

Não é mais fundo o poeta no seu subsolo escuro



encerrado. O seu canto sobe mais profundo



quando, aberto no ar, é de todos os homens.






in Balada para os poetas andaluzes de hoje







de que se fazem o canto e as duras formas dos picos submersos na angústia do anoitecer de que se faz o rosto acerado
aquelas mãos retorcidas que cortam o vento
de que se fazem
os pássaros esmagados
dentro dos sonhos
que já não brilham como estrelas
de que se faz o silêncio do vazio
e flutua
a boca gelada que já nada pede
o fio trémulo que suspende a lua ?

de que se fazem os passos
na chuva o calor sufocante e o odor do laranjal
de que se faz
o recanto da luz
de que se fazem os ódios calcinados a greta da miséria
a tua fome ó vão guerreiro ?

de que se fazem o pranto
o destroço o duro arco vergado o caule
morto
ofício roxo de um céu esquecido ?

de que se fazem?
de que se fazem?





Pedro Saborino

terça-feira, 27 de março de 2012

do mal



aqui
desenhamos o círculo da infâmia

atam-nos os braços espíritos da fome

aqui cavalgamos a maldade infinita
por ressequidos desertos
sem amanhecer

dai-nos estes lábios roxos
e o furor do sangue
para que nada nos reste
além da verdadeira morte



Pedro Saborino

segunda-feira, 26 de março de 2012

sufrágio















a poesia nesta terra está cada vez mais morta
mais cinzenta
mais insignificante
mais nula
cada vez há menos poesia viva nesta terra
as portas fecham-se no desígnio da morte da poesia
e os poetas morrem aliterados
coitados
coitados
nesta terra
de poetas aliterados
e mortos

coitados







Pedro Saborino

quarta-feira, 21 de março de 2012

viagem

Quinta das Aveleiras, Torre de Moncorvo


caminhei muitas vezes por esta estrada de aveleiras
ao entardecer na saudação do poente
nasci muitas vezes da sua seiva como a água reflui da matéria ou o canto das aves veloz e inesperado se insinua entre o sangue e a memória
ou o silêncio dos lugares se purifica sobre o rosto
no prenúncio da viagem
lembro-me de como era quente o chão sob os meus pés
e como de dentro
do seu fogo íntimo e inominável
sofria a terra
em seus arados imóveis

estive aí e aí fui chamado por vozes que clamavam os nomes da inocência
estive aí sentado sobre a pedra
e os meus dedos tocavam-na longamente como o ceifeiro toca a superfície mansa da seara
e eu fazia parte desse lugar
das suas palavras que escorriam devagar sobre o musgo
em fios antiquíssimos
estive aí muito perto

Pedro Saborino










sábado, 17 de março de 2012

sagração

imagem de Pina, Wim Wenders




o poema tem um cristal
e o sangue explode nas arestas
quando se desnuda

a palavra é o interior do silêncio
o poema a sua viagem
até à margem do cântico final

o fogo a carne o suor a lágrima do sexo
a exaustão
que o tempo prolonga
em raiva
e sedimento animal

o poema constrói um rio
entre salgueiros de raízes descarnadas

porventura alguma vez nos pertenceu o poema ?
ou vimos de perto o rosto do poeta?



Pedro Saborino















quarta-feira, 14 de março de 2012

epistolário sentimental



no silêncio aparente dos mortos declinam-se os recantos
da terra agora extinta
o brilho lunar dos heróis
morro por dentro como a vaga inacabada e o tempo (inconcluído destroço do nada sideral) vagueia sobre mim
chamando-me, como a ave
no seu grito invoca a liberdade

porém do nada se refaz o vento inconformado
e na rocha bruta desenha-se o teu rosto
a manhã acende poderosa a chama da paixão
então o mar irrompe sobre ti incontido na gruta do desejo
tudo se suspende sobre o teu corpo
tocando no desejo o eterno


Pedro Saborino

sábado, 3 de março de 2012

Para Maria Gabriela Llansol

No 3º aniversário da sua morte

do real

(…) Aprendi que o real é um nó que se desata no ponto rigoroso em que uma cena fulgor se enrola e se levanta.
Maria Gabriela Llansol, Lisboaleipzig,1994



sempre ali estiveram, na dobra dos dias
mas apenas os revelámos nas palavras
por vezes de forma mortal decidindo a imagem
ou o sentido da imagem no seu interior
sem que se revelassem por si mesmos ao nosso olhar

de modo que a geração das palavras
com que os nomeávamos, ou lhes definíamos a curva,
continuamente se insinuava entre nós e o tempo


Pedro Saborino


in Marginalia





quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Para Herberto Hélder



morrer é assim: sepultado na luz como um pássaro no voo
Herberto Hélder, in a Imagem Expansiva, 1981


círculo de fogo

procuro as vozes nocturnas das imagens
na escuridão desvendo o espaço interior das coisas mortas
nada é apenas um grito
um apelo da dor
um membro trucidado
as flores são meras metáforas da maldade
o vácuo insano
caminho em passos de cego
sobre a carne
que o fogo me consome

e vivo

talvez


Pedro Saborino

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Para Lorca





Cante jondo

(…) dos que morreram separa-me
um muro de sonhos maus.
Gazel da lembrança de amor , Federico Garcia Lorca


nada
enche agora este campo senão o luar
(em Agosto a lua resplandece sobre Granada)
quantos corpos mais vão cair
junto ao rio sangrento?
quantas flores celebrarão o negro olhar
fitando a morte?
quantos gritos clamarão a liberdade?
e o rio vai
levando o silêncio e a noite
como o aroma do laranjal até ao mar
verde que te quero verde
dizias
e sobre ti não passarão





Pedro Saborino

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Para Camões




Dinamene



nos sons da noite desejo-te o teu mar
desvendo-te nas coxas o meu poder
dentro de ti, navego-te, sem te saber
tão perto o fogo, tão fundo o olhar

invento-te o mistério, a dor, o despertar
do teu gemido, que no amanhecer
abre a obscura gruta, o súbito enlouquecer
da vaga insaciada, da morte devagar




Pedro Saborino

domingo, 15 de janeiro de 2012

O poder da literatura






Pela sua importância e oportunidade junto, com a devida vénia, um link para o post da Profª. Helena Damião no excelente blog De Rerum Natura.
Trata-se de uma súmula do livro Para que serve a literatura de Antoine Compagnon ( foto acima) no qual se reflecte sobre o significado da literatura na vida e na escola.



É um notável documento que me impressionou profundamente pela sua concisão e sobretudo por mostrar como a literatura é um instrumento de civilização, de saber, de liberdade e de partilha.


http://dererummundi.blogspot.com/2012/01/para-que-serve-literatura-2.html#links