Mostrando postagens com marcador Política. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Política. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Fábulas sem moral nenhuma 2




Os senhores da pasta preta voltaram. Com sorrisos esquivos, convenientes, pendurados do canto da boca. Voltaram e vasculharam. Com os seus olhos pequeninos de agiotas. Com as suas mãos melífluas e as suas maquinetas. Viram os livros todos dos senhores do castelo. Espreitaram por baixo das mesas, dentro das gavetas, nos recantos escuros e nas arcas onde por vezes se escondem segredos da casa. Viram e rosnaram entre si. Num rumor inquietante que o castelão observava, distante, de mãos retorcidas.
Depois fizeram-lhe sinal para se aproximar. Imperativos. De dedo em riste sobre o seu nariz disseram-lhe para se sentar. E ele sentou-se. Num pequeno banco de três pés. Assim, quase acocorado, temeroso, ouviu então a reprimenda dos senhores da pasta preta. Num tom crescente de intensidade ameaçaram-no ocupar o castelo se não fizesse exactamente o que lhe haviam determinado. O castelão sentiu que já nada mandava no castelo e que só lhe restava cumprir tudo o que lhe haviam dito. Chamou então todos os seus súbditos e, engrossando a voz clamou:- Vivemos todos momentos difíceis e de todos se espera que se sacrifiquem para os ultrapassarmos. Dos que menos podem se exige que dêm tudo o que ainda têm; dos que mais podem que dêm o que não lhes fizer falta. Assim poderemos sair em breve desta situação. O povo, recalcitrante, nada reclamou porque ao lado estavam os senhores da pasta preta.
Mais tarde os senhores da pasta preta chamaram o guardião das moedas e disseram-lhe:- Tu aí , tens que te governar por tua conta. Chamaste-nos e agora tens de nos aguentar. O guardião das moedas, que temia que o castelão lhe ficasse também com as moedas, respondeu:- Pois bem, então vou ali buscar mais moedas do povo. E assim fez. Com isto os senhores da pasta preta decidiram ir-se embora. Com passos rápidos, afastaram-se do castelo dizendo:- Em breve voltaremos.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Taverna argentaria





O quadro é agora muito claro, apesar da patética (convicta?) declaração europeísta de unidade do Dr. Durão Barroso. Mas obviamente a Comissão Europeia já não manda nada. E o Dr. Durão Barroso sabe muito bem disso. Desde há muito tempo.
Estamos pois manifestamente na rua.
E ainda não estamos de todo porque ainda não pagámos o que devemos.
Quando o fizermos, já chupados até aos ossos, com uma economia totalmente ressequida, uma massa de desempregados arrastando a sua penosa revolta, uma classe média destroçada, uma multidão de funcionários públicos exauridos de recursos e de pensionistas à beira da miséria, um mar de falências, um número insustentável de incumprimentos financeiros, uma banca agonizante, uma sangria inestimável de massa cinzenta – então seremos finalmente despejados do clube. Estaremos fora da taverna argentaria.
Quando então nos chutarem do eurão e andarmos a catar as résteas do eurinho, o da via reduzida, o da 2ª velocidade, o da farsa do faz- de-conta–que-somos, o do tasco mediterrânico, talvez possamos compreender como o projecto europeu foi totalmente destruído por políticos sem dimensão. Que a Europa não merecia verdadeiramente neste momento crucial.
Políticos que gerem apenas interesses de agenda, sem qualquer visão estruturante, numa espécie de santa aliança mercantilista franco-germânica que, ao revés da história política e cultural da Europa a caminho da modernidade e do progresso fazem profissão de fé de uma via que a história registará seguramente como o pesadelo do século XXI.
Eles serão responsáveis pela morte da Europa enquanto espaço social, cultural e político no qual a democracia e a liberdade, qual coruja de Atena pousada, seriam o farol no sombrio mar da tirania e da guerra.
Serão assim inexoravelmente julgados.


sábado, 5 de novembro de 2011

Inside job


http://www.youtube.com/watch?v=FzrBurlJUNk



Quando Henry Paulson deixou a Goldman Sachs, antes da falência, para tomar posse como Secretário do Tesouro do governo de G. Bush em Maio de 2006, não veio de mãos a abanar - trouxe uns largos milhões de dólares a título de compensações.
Esse foi apenas um aspecto (e ainda assim menor) da enorme crise imobiliária nos EUA que pôs em questão toda a política neoliberal cujo objectivo principal era (e é ainda) retirar do Estado a regulamentação dos movimentos financeiros a nível mundial de forma a proteger os indescritíveis lucros dos investidores que se dedicam a este tipo de especulações.
A desregulamentação precedeu e determinou esse fenómeno político-económico da globalização.
Está hoje em dia patente que a finalidade da globalização é exclusivamente a movimentação mundial do capital, de forma essa sim global, permitindo aos especuladores reinventar formas de multiplicar o seu património financeiro, sem qualquer respeito por Estados, governos ou sociedades.
Especialistas, professores e analistas de conceituadas escolas de administração e finanças dos EUA converteram-se em conselheiros governamentais com principescas remunerações e privilégios.
As políticas de cariz social são execradas como despesistas e apontadas como causa major dos deficits estatais. Em desespero de causa são apontadas soluções nas quais a prosperidade é baseada na liberalização dos negócios como promotor de emprego e de riqueza.
A soberania dos Estados é transferida para o FMI e para fundos estruturais meramente adjuvantes.
O filme Inside Job mostra à saciedade como, enquanto o contribuinte ingénuo se esgota por manter as suas responsabilidades, um bando criminoso de especuladores gananciosos e imorais refocila num mar inominável de triliões que tenta avidamente repartir. Tudo isto enquanto os responsáveis governamentais assobiam para o lado como se nada tivessem a ver com o caso.
Tudo isto enquanto muitos países tentam implementar sistemas produtivos de desenvolvimento económico afastando-se de sectores vitais de produção de riqueza como a actividade agrícola e outros. Tudo isto em nome da neo-liberalização da economia e dos movimentos indiscriminados de capitais.
Estamos assim, nós e muitos outros, debaixo do jugo do manto superior do capitalismo onde se jogam as cartadas de casino do capitalismo puro e duro, nós pessoas normais que trabalhamos para sobreviver pagando as nossas contas, os nossos impostos, satisfazendo as nossas responsabilidades, com grave prejuízo da qualidade de vida e por vezes da própria subsistência.
Somos a maioria.
Só não entendo porque é que não conseguimos fazer ouvir a nossa voz .
É tempo de o fazermos, antes que nos devorem!











terça-feira, 18 de outubro de 2011

O garrote

Portugal é um pais pequeno. Pequeno e pobre. Portugal é dos países da OCDE com maiores desigualdades.A despesa e a dívida pública em percentagem do PIB são actualmente insustentáveis. Os investimentos públicos têm sido em regra ruinosos – vd. o caso das PPP’s. Os acumulados de dívida das empresas públicas, dos transportes e das estradas são astronómicos. As despesas de saúde são incontroladas e crescentes. A indústria exportadora é desapoiada e manifestamente não consolidada. Há excesso de construção e houve muita especulação imobiliária com o apoio solícito dos bancos, que agora se debatem com um incumprimento gigantesco e um parque de imóveis impossível de negociar. Os níveis de produtividade são baixos. O endividamento público assustador. O externo ainda mais. Vivemos há mais de dez anos em plena crise estrutural, de apatia e de paragem económica, que começou em Guterres, continuou com Durão Barroso e Santana. Os governos de Sócrates tentaram um surto de expansão que esbarrou em inúmeras debilidades estruturais e numa oposição meramente bota-abaixista. A intervenção da troika, em desespero de causa, foi a machadada final na nossa economia . O funeral da justiça social. O fim da utopia de um Estado justo e defensor do bem-estar dos cidadãos . Talvez por culpa de uma obscura concertação político-financeira mundial, de blocos económicos pouco claros, de manobras especulativas dos mercados. Talvez por culpa de uma UE que não se assume como união política e mal se conforma a uma união económica, em sucessivas indecisões, avanços e recuos. Talvez por culpa de todos nós portugueses, que perante o mundo não assumimos a dignidade histórica que temos a obrigação de preservar. E este é o maior dos males. O garrote que nos irá estrangular.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Fracasso


É por demais óbvio que a campanha do Partido Socialista para as eleições do Parlamento Europeu foi, mais do que decepcionante, um fracasso total. Fracasso que nem a militância do PS conseguiu disfarçar. Vital Moreira, independentemente do seu valor intrínseco como cidadão e como intelectual, foi sem dúvida alguma uma péssima escolha. Uma escolha que compromete de alguma forma, pela pálida imagem pública, discurso cinzento e falta de convicção, a própria imagem do PS neste momento tão crucial na definição de uma estratégia eleitoral para as autárquicas e legislativas de 2009.


Maria de Lurdes Pintasilgo, João Cravinho, António Vitorino e Sousa Franco foram de longe candidatos cabeças de lista mais intervenientes e mais brilhantes do que demonstrou ser Vital Moreira.


Do Congresso de Espinho saiu uma dinâmica estruturante com vista ao combate às desigualdades, exclusão e discriminações, de maior justiça social que alguma vez a direita oportunista e a esquerda demagógica e radical poderiam seriamente propor , dinâmica que a campanha socialista das europeias apenas palidamente reflectiu, se é que essa mensagem alguma vez atingiu o eleitorado.


Mais do que nunca os próximos e decisivos embates eleitorais farão prova da força e vitalidade da esquerda democrática e dos seus valores , face ao sinuoso discurso revivalista de uma oposição que se divide entre o magistério compungido da direita e a utopia gasta de uma esquerda que caça votos no descontentamento do eleitor, dando numa mão um nada e na outra uma ramo de coisa nenhuma.
Mais do que nunca há que dizer a verdade aos portugueses, fechar o balanço da hipocrisia e da ambiguidade, enfrentar o descontentamento e a desilusão, construir esperanças e horizontes - sem o que o sufrágio pode revelar-se calamitoso. Para nós e para as próximas gerações.
O abismo chama o abismo.