terça-feira, 28 de maio de 2013
Esboço de poema
Homenagem a Herberto Hélder, no dia da publicação de Servidões
aí estás, despojado de ti
e sobra-te a dor
o teu exílio
sobra-te a luz que estremece nos teus olhos antecedendo o fim
vejo-te
e despeço-me do teu olhar, da tua respiração
os teus dedos agarram-se aos meus dedos
e o teu corpo é agora o meu corpo
neste sangue inútil
Pedro Saborino
sábado, 4 de maio de 2013
voo
voo
homenagem a Ramos Rosa
estou aqui, de pé sobre a rocha, muito perto das aves
do seu voo marítimo, no cabo ocidental onde o vento sibila sobre o tojo
e o falcão vigia a passagem dos grandes barcos migrantes
a minha viagem começa aqui, neste bordo suspenso da gávea
por onde rolam as brumas da primavera e os grandes silêncios do oceano se fazem gemido e carne salgada
aqui, onde eu não tenho corpo e estou assim suspenso no olhar
da morte
em declive sobre o nada
e voo, despeço-me de mim, alcanço a luz
toco-a, íntima e solene, queimando as mãos
Pedro Saborino
quarta-feira, 24 de abril de 2013
assim
assim
homenagem a Murilo Mendes
assim vivemos, nas aparas da luz
enquanto as aves exterminam as crias
e as papoilas do campo se consomem em lírica combustão
assim estamos, nesta dor quieta
enquanto a lâmina nos passa de lado a lado, perfurando a fome
assim enterramos o domingo com a sineta fúnebre dos dias
enquanto a peste se insinua pelas portas da cidade
e os rios vão secando em limos vagarosos
prenunciando o fim da musa
assim viajamos nos barcos nocturnos do degredo, em ritos de passagem
Pedro Saborino
quinta-feira, 28 de março de 2013
Orestéia
O que depois aconteceu não pude ver
e mesmo que pudesse não diria.
Agamémnon (Trilogia Orestéia) Ésquilo
Orestéia
onde está a mão divina no reino do visível?
o sangue que a mancha é dos simples mortais
ou dos próprios deuses?
os sinais revelam-se aos sentidos
como o olhar define o escuro perante a luz
ou os dedos modelam a forma do vazio
mas só Cassandra desvenda a face da verdadeira morte
a sua visão terrível
das Fúrias vigilantes
da longínqua cidade onde ecoam os heróis perdidos
nos seus braços tomará
como os deuses, a própria servidão
Pedro Saborino
domingo, 17 de março de 2013
Gilgamesh
às portas do oeste chega o viajante
busca no interior da vulcânica mina o tambor mágico
mas nada o salva da morte
do seu poder profundo
Enkidu não voltará
e o rei está só
longe fica a floresta dos cedros
o mágico luar, o voo redondo da ave
no vale enfrenta o leão, carrega depois a sua pele vestida sobre o tronco
até ao limiar do oceano
onde está Dilmun,o paraíso por onde sussurra a brisa da eternidade
em vã procura
dentro dos muros de Uruk
agora é chorado pelo povo
a morte não é trágica
só os deuses mortais são trágicos
Pedro Saborino
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
Os meus poetas
Trabalho na água que a voz movimentou
Gerando os sismos: e sou
O húmus, o barro nas margens
O homem que nunca compreendeu
Daniel Faria in Poesia, Assírio e Alvim 2012
divido-me entre o grito incompleto da matéria
e o murmúrio do corpo, agora extinto
estou entre o fogo inominável e o desejo,
estou entre a criação e o anjo vigilante
na ombreira da porta , no seu olhar definitivo de barqueiro
do vasto rio do esquecimento
poderia dizer estou aqui
toquem-me as mãos do real, prendam-me os dedos dos ramos que crescem das suas raízes por dentro de mim
poderia dizer vou desesperadamente
como o vento tardio ou a queda do animal ferido na sua viagem inútil
poderia inventar a luz do rosto perfeito
do seu compasso, do seu verso , da sua grandiosa madrugada,
do seu poder,
poderia clamar ressuscitei dos meus próprios mortos
poderia negar tudo , todas as minhas compaixões, todos os meus medos
poderia ser outro
mas a substância das coisas está em mim
tudo se consuma no meu sangue
Pedro Saborino
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
o que é um corpo ?
o que é um corpo ?
descreve-me a nudez da morte
o espaço entre o olhar e a memória impossível
a voz cativa dentro da dor
fala-me depois da entrada das aves
do seu rumor estrepitoso e da sua cor amarela
como os sinos matinais
fala-me da noite imóvel com as suas cruzes negras
fala-me do silêncio dos velhos
dos seus braços caídos
dos miúdos ranhosos junto ao rio de cinza
fala-me da sua revolta indizível
fala-me depois do sonho verdadeiro
do seu cristal
desvenda-me o interior do corpo
a sua luz
descreve-me a nudez da morte
o espaço entre o olhar e a memória impossível
a voz cativa dentro da dor
fala-me depois da entrada das aves
do seu rumor estrepitoso e da sua cor amarela
como os sinos matinais
fala-me da noite imóvel com as suas cruzes negras
fala-me do silêncio dos velhos
dos seus braços caídos
dos miúdos ranhosos junto ao rio de cinza
fala-me da sua revolta indizível
fala-me depois do sonho verdadeiro
do seu cristal
desvenda-me o interior do corpo
a sua luz
domingo, 18 de novembro de 2012
estrada
estrada
já não habito essas ruas com tílias e varandas
silêncios entre os pássaros da manhã
geometrias de calcário e estátuas a olhar o rio
já não abro as janelas de par em par nem delas respiro o vento inquieto
agora apenas me sento
na cidade
no seu recanto
onde o mistério é sombrio
e as perguntas não têm respostas
e as palavras se apagam por dentro
em gélidas revelações da memória
sento-me aí por fim
sobre as revoltas
e nada digo ou penso ou invento destes muros
desta ruína
deste silêncio da peste
deste cabelo frio do medo
há cadáveres de rosto incerto junto de mim
toco-lhes a pele ainda húmida como se lhes ficasse da noite o espanto a fome
invoco os deuses da abundância agora ausentes
e nada resta agora
senão os cavalos mortos na paisagem
sábado, 4 de agosto de 2012
Quinto império
quinto império
vem do tempo antigo a memória
pelo percurso do vento
luz e trevas juntam-se no punho da manhã
a sua voz reclama da bruma não já o desejado
mas o teu corpo abrupto
o rumor que flui do sangue vasto e urgente
a viagem no mar austral continua
na navegação destes rostos agora silenciosos
que olhamos
aqui está pois o povo infindo
na claridade do despertar
somos agora talvez mais do que o futuro
Pedro Saborino
sexta-feira, 13 de julho de 2012
O fio invisível
ao meu pai
O fio invisível entre os teus dedos rompe o espaço
que revela a manhã.
Os teus dedos fabricam o fato
tecem o velo da memória,
e a obra cresce do nada
como se fosse ela mesma e a vibração da sua imagem
o misterioso rio e a sua nascente,
o rosto indecifrável da vida e o olhar vigilante da morte.
Os teus dedos desvendam o interior do duro ofício,
gesto a gesto,
o alinhavo que antecede a forma,
o ombro altivo, a entretela , o botão, a gola, a dobra,
a costura minuciosa do silêncio.
E as tuas mãos desdobram-se na inquietação dos dedos,
como ramos celebrados das noites
em que dizias os versos todos
da tua vida
dos lugares ali presos nas palavras.
E as tuas mãos desfazem os gestos, rompem-nos por dentro tal como a raiz se insinua no cerne da rocha
e assim nos faz renascer do chão.
O fio invisível entre os teus dedos rompe o espaço
que revela a manhã.
Os teus dedos fabricam o fato
tecem o velo da memória,
e a obra cresce do nada
como se fosse ela mesma e a vibração da sua imagem
o misterioso rio e a sua nascente,
o rosto indecifrável da vida e o olhar vigilante da morte.
Os teus dedos desvendam o interior do duro ofício,
gesto a gesto,
o alinhavo que antecede a forma,
o ombro altivo, a entretela , o botão, a gola, a dobra,
a costura minuciosa do silêncio.
E as tuas mãos desdobram-se na inquietação dos dedos,
como ramos celebrados das noites
em que dizias os versos todos
da tua vida
dos lugares ali presos nas palavras.
E as tuas mãos desfazem os gestos, rompem-nos por dentro tal como a raiz se insinua no cerne da rocha
e assim nos faz renascer do chão.
quinta-feira, 5 de julho de 2012
Os meus poetas - Paul Celan
Vinhateiros escavam o relógio das horas sombrias
cada vez mais fundo,
tu lês,
o Invisível desafia o vento,
tu lês,
os Abertos trazem a pedra atrás do olho,
ela te reconhecerá,no dia do Sabbath.
Paul Celan
os vestígios da morte dissipam-se na neve
o derradeiro passo diz-me que já não há regresso
a noite é então intensa nos meus dedos gelados
ouvimos muito perto as canções que perfuram o silêncio
e a minha mãe vigia
as palavras são a minha liberdade
o silêncio a minha condenação
se me ouvires poderei resistir
não existo só por mim mas porque me ouves
estou aqui
nu
acorrentado
perplexo
na desordem das coisas divinas
Pedro Saborino
segunda-feira, 25 de junho de 2012
abissus abissum invocat
Com um primeiro ministro convalescente de uma delicada cirurgia de descolamento de retina e portanto inactivo , um ministro das finanças demissionário por cólicas abdominais, sem quaisquer interlocutores a nível comunitário, sem dinheiro nos cofres do Estado para pagar salários de Junho e outros compromissos imediatos - o abismo grego é inevitável.
E depois?
segunda-feira, 18 de junho de 2012
Nostoi
Serra do Roboredo, Moncorvo - imagem de Farrapos de Memória
Nostoi
(…) e o fim de toda a nossa exploração
será chegar aonde partimos
e conhecer esse lugar pela primeira vez
T.S.Eliot, Quatro quartetos
assim, entre o nada e a destruição dos dias, ocupo-me por fim dos seus escombros
busco por galerias de antigas minas da memória
o interior do ser
antecipando a grandiosidade do fogo,
metalúrgico sinal da origem
estou preso nas entranhas do verbo
evoco os lugares que julguei serem meus,
entre mim e outro, indecifrável,
diria todos os outros nos quais já não consigo ver-me
mas que fui eu e eu conheci
e me descobriram nesses lugares
lugares talvez verdadeiros
talvez apenas lugares através dos meus sentidos
descrevo-me pois viajante de retorno à idade das vozes primitivas
ao refúgio no qual cresce a inquietação
e o olhar do próprio tempo
Pedro Saborino
terça-feira, 12 de junho de 2012
dies irae
dies irae
nesta cidade viverá o teu nome
ó deus da justiça, mais do que os anjos que velam o invisível
sobre nós baixarás a tua mão
brotará o sangue sobre a nossa cabeça
como a bênção da morte redentora
falarás depois do esquecimento e
tudo se fechará num silêncio absoluto
como a luz que provém da escuridão
um rio que vem do fundo do tempo
remoto tal a origem do corpo
o universo tremerá, no espaço negro da força incógnita
e então desvendarás o significado da sabedoria do anjo
e das formas
mostrarás o teu poder
sobre a quietude, o vazio,
desvendarás a dor que nos acorrenta
e nos mantém escravos
nesta cidade escutaremos finalmente a tua voz
- ó deus da justiça-
como o cântico da libertação
Pedro Saborino
quinta-feira, 7 de junho de 2012
Corpus Christi
(…) Sob a pressão de vozes vindas do exterior, eles passaram a métodos mais suaves e têm dado ordens no sentido de que não se toque em um cabelo sequer de judeu.
Este boicote – que nega às pessoas a possibilidade de desenvolver uma actividade económica, a dignidade de cidadão e a pátria – tem empurrado muita gente para o suicídio: cinco foram os casos trazidos ao meu conhecimento somente dentre os meus familiares.
Estou convencida de que se trata de um fenómeno geral que provocará muitas vítimas. Pode-se pensar que os infelizes não terão tido bastante força moral para suportar o seu destino. Mas se a responsabilidade cai em grande parte sobre aqueles que os empurraram a um tal gesto, ela recai também sobre aqueles que se calam.
Tudo isto que aconteceu e que acontece quotidianamente vem de um governo que se define como “cristão”. Não somente os judeus, mas também milhares de fiéis católicos da Alemanha – e, eu penso, do mundo inteiro – aguardem depois de semanas e esperam que a Igreja de Cristo faça ouvir a sua voz contra um tal abuso do nome de Cristo (…).
Edith Stein, 1891-1942 (Auschwitz), canonizada em 1998 por João Paulo II como Santa Teresa Benedita da Cruz
Carta ao Papa Pio XI , 12 de Abril de 1933
segunda-feira, 4 de junho de 2012
os dias impuros
os dias impuros
escrevo-lhe não para me confortar mas para lhe dizer que apesar de tudo as dores não me atormentam tanto agora com o novo tratamento embora o tumor do meu pescoço continue muito inchado e tenso, sinto uma pressão enorme que por vezes me impede de falar e de respirar fico mesmo no limite da asfixia, as sessões de quimioterapia e de radioterapia deixam-me muito debilitado mas acho que depois ficarei melhor, muitas vezes imagino mesmo que me vou curar, é uma forma de olhar o mundo, sabe que continuo a trabalhar vou ao escritório falo com os colegas abro uns processos discuto umas ideias escrevo umas minutas sinto-me útil compreende? de resto sei que não posso fazer muito mais, depois regresso a casa vou sempre a pé devagar vou sorvendo os ruídos do mundo as vozes o ladrar dos cães o barulho dos carros entro no café e bebo uma bica a olhar um ou dois velhotes mal barbeados que reviram o jornal quase esfarrapado com notícias que nada adiantam ao seu rosto embaciado e eu próprio me perco por vezes em tal divagação, mas depressa me liberto do limbo incerto e procuro os sinais de que estou vivo, sofro por vezes cruamente mas estou vivo digo porquê não sei mas estou vivo de resto o que é viver? a obra feita ? as mulheres que amei? o meu filho que entretanto deixou de existir? o que é que eu fiz afinal na vida? fui o falcão agrilhoado ou a garra da águia ? a torrente o rio incontido ou o charco a viela a esquina? não lhe sei dizer nem será importante dizer porque nada é mais importante agora do que desatar estas cordas que sinto em volta de mim como uma servidão, não que eu deseje sofrer ou que a dor me purifique ou me redima ou absolva mas tão só porque não quero caber dentro do meu corpo quero estar do lado de fora de mim e olhar-me apenas como o ser físico sofredor o outro frágil que a doença vai minando, estou pois aqui ao mesmo tempo espectador da minha condição e senhor de mim mesmo, tenho dado comigo a pensar como desta forma eu posso escolher entre a essência da minha liberdade e a existência da minha natureza humana que se enreda na trama de todas estas vicissitudes às quais não posso fugir
vou tal como sísifo carregar a pedra do vale ao cume, da humilhação até à face dos deuses,dia após dia, vou acorrentar a morte
abraço amigo F.
Imagem de bucaorg (CC-usage) Flickr
domingo, 27 de maio de 2012
Houla
aqui
desenhamos o círculo da infâmia
aqui cavalgamos a maldade infinita
por ressequidos desertos
sem amanhecer
dai-nos estes lábios roxos
e o furor do sangue
para que nada nos reste
além da verdadeira morte
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Gaiteiro
Gaiteiro
para a Né Ladeiras e Galandum Galundaina
descubro-te o canto entre pedras e céu
trinos e lamentos , gritos e antigos sons
que do fole revivem como guerreiras danças
invento-te o nome, nesta serra , neste olhar
com tambores e ferrinholas
despertas as aves que voam do rebanho
sobre o meu tempo , numa viagem distante
gaiteiro da vida que me acordas
vejo-te na festa como um rei
por entre fogueiras
celebramos contigo no fole e na palheta
o vinho novo o sonho que renasce
gaiteiro da vida que me acordas
Pedro Saborino
sábado, 12 de maio de 2012
o que é perder ?
(...) E, no entanto, eu escrevo…
As vidas que, durante a batalha, se vão perder, enquanto chamas vivas, iluminaram quem, o quê? A mim?
E que pujança estética sem nome tiveram (ou estão tendo?), esses homens e mulheres?
Que linha do tempo foi ali quebrada?, mas não partida, e lhes envolve o ser?
Que nuvem continua transitando? Por que será que no horizonte da história se ouvem gemidos, o gotejar contínuo de acções inacabadas?
(Maria Gabriela Llansol in Finita. Diário 2. 2ª ed. Assírio & Alvim, 2005, pp. 21-22; 46-47)
inquieto o tempo desdobra
nas mãos os múltiplos silêncios
da valsa
imperfeita
o vagar da noite que arde sobre o rio
palavra a palavra
até ao mar final da memória
pois nada sabemos
de ti
Pedro Saborino
quinta-feira, 3 de maio de 2012
do tempo
do tempo
para o Horácio Espalha Jr. e para Moncorvo
muitas coisas se passaram dentro dos meus versos
alongou-se, talvez demais, o espaço entre as sílabas
o que prenunciava a mudança
e eu estava ali nesse silêncio compacto e viscoso
da espera
nada definitivamente nada fluía de tal recanto
digamos desse indefinido pedaço de memória
como uma mera imagem das minhas inquietações
aí então, tal faca no vazio, se revelaram os diversos tempos
o tempo inicial e informe do princípio
milhões de milhões de anos de poeira sideral
até ao tempo do meu passo sobre este mesmo chão
ou o meu tempo interior, sem tempo
do tempo medido do meu gesto
ao tempo sem tempo nenhum da minha ideia de tempo
do universo que flui de mim
ao segundo infinitesimal da ideia
passado presente e futuro são apenas construções
como o tempo da minha vila se constrói naquele fontanário da praça
que eu vejo
mas podia nem sequer ver
podia apenas imaginar
como as pedras sobrepostas de uma escada
ou o amanhecer através da janela envidraçada deste quarto sobre a serra
aí então a minha memória poderia descobrir o tempo definitivo
o tempo essencial
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