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quinta-feira, 3 de maio de 2012

do tempo







do tempo


                                            para o Horácio Espalha Jr. e para Moncorvo



muitas coisas se passaram dentro dos meus versos

alongou-se, talvez demais, o espaço entre as sílabas

o que prenunciava a mudança

e eu estava ali nesse silêncio compacto e viscoso

da espera


nada definitivamente nada fluía de tal recanto

digamos desse indefinido pedaço de memória

como uma mera imagem das minhas inquietações



aí então, tal faca no vazio, se revelaram os diversos tempos

o tempo inicial e informe do princípio

milhões de milhões de anos de poeira sideral

até ao tempo do meu passo sobre este mesmo chão

ou o meu tempo interior, sem tempo

do tempo medido do meu gesto

ao tempo sem tempo nenhum da minha ideia de tempo

do universo que flui de mim

ao segundo infinitesimal da ideia



passado presente e futuro são apenas construções

como o tempo da minha vila se constrói naquele fontanário da praça

que eu vejo

mas podia nem sequer ver

podia apenas imaginar

como as pedras sobrepostas de uma escada

ou o amanhecer através da janela envidraçada deste quarto sobre a serra



aí então a minha memória poderia descobrir o tempo definitivo

o tempo essencial








quarta-feira, 11 de abril de 2012

Epistolário sentimental III









no silêncio aparente dos mortos declinam-se os recantos da terra assim extinta sobre o brilho lunar dos heróis

morro por dentro, na vaga do tempo

inconcluído

destroço do nada que vagueia

e, chamando-me, a ave

no seu grito alado, invoca a liberdade



do nada se refaz o vento que varre a memória,

e na rocha, na sua bruta forma, desenha-se por fim o teu rosto

que a manhã acende em poderosa chama da paixão

a luz irrompe então sobre ti, incontida, como o mar na gruta do desejo

tudo se suspende

e o teu corpo nasce, intocado e nu

na invocação da manhã



 Pedro Saborino

sábado, 7 de abril de 2012

Pessah






Porque é esta noite tão importante ?






detemos o curso do tempo nesta taça de vinho



e os nossos olhos brilham de novo com fulgor



a memória vive



num movimento de futuro



porque aqui imaginamos a liberdade



suspendemos o golpe mortal do anjo



sobre o nosso rosto



que assim se abre para a luz





vem escravo



sai e caminha comigo



nesta noite



em que começamos a viver





Pedro Saborino




















terça-feira, 27 de março de 2012

do mal



aqui
desenhamos o círculo da infâmia

atam-nos os braços espíritos da fome

aqui cavalgamos a maldade infinita
por ressequidos desertos
sem amanhecer

dai-nos estes lábios roxos
e o furor do sangue
para que nada nos reste
além da verdadeira morte



Pedro Saborino

segunda-feira, 26 de março de 2012

sufrágio















a poesia nesta terra está cada vez mais morta
mais cinzenta
mais insignificante
mais nula
cada vez há menos poesia viva nesta terra
as portas fecham-se no desígnio da morte da poesia
e os poetas morrem aliterados
coitados
coitados
nesta terra
de poetas aliterados
e mortos

coitados







Pedro Saborino

quarta-feira, 21 de março de 2012

viagem

Quinta das Aveleiras, Torre de Moncorvo


caminhei muitas vezes por esta estrada de aveleiras
ao entardecer na saudação do poente
nasci muitas vezes da sua seiva como a água reflui da matéria ou o canto das aves veloz e inesperado se insinua entre o sangue e a memória
ou o silêncio dos lugares se purifica sobre o rosto
no prenúncio da viagem
lembro-me de como era quente o chão sob os meus pés
e como de dentro
do seu fogo íntimo e inominável
sofria a terra
em seus arados imóveis

estive aí e aí fui chamado por vozes que clamavam os nomes da inocência
estive aí sentado sobre a pedra
e os meus dedos tocavam-na longamente como o ceifeiro toca a superfície mansa da seara
e eu fazia parte desse lugar
das suas palavras que escorriam devagar sobre o musgo
em fios antiquíssimos
estive aí muito perto

Pedro Saborino










sábado, 17 de março de 2012

sagração

imagem de Pina, Wim Wenders




o poema tem um cristal
e o sangue explode nas arestas
quando se desnuda

a palavra é o interior do silêncio
o poema a sua viagem
até à margem do cântico final

o fogo a carne o suor a lágrima do sexo
a exaustão
que o tempo prolonga
em raiva
e sedimento animal

o poema constrói um rio
entre salgueiros de raízes descarnadas

porventura alguma vez nos pertenceu o poema ?
ou vimos de perto o rosto do poeta?



Pedro Saborino















quarta-feira, 14 de março de 2012

epistolário sentimental



no silêncio aparente dos mortos declinam-se os recantos
da terra agora extinta
o brilho lunar dos heróis
morro por dentro como a vaga inacabada e o tempo (inconcluído destroço do nada sideral) vagueia sobre mim
chamando-me, como a ave
no seu grito invoca a liberdade

porém do nada se refaz o vento inconformado
e na rocha bruta desenha-se o teu rosto
a manhã acende poderosa a chama da paixão
então o mar irrompe sobre ti incontido na gruta do desejo
tudo se suspende sobre o teu corpo
tocando no desejo o eterno


Pedro Saborino

sábado, 3 de março de 2012

Para Maria Gabriela Llansol

No 3º aniversário da sua morte

do real

(…) Aprendi que o real é um nó que se desata no ponto rigoroso em que uma cena fulgor se enrola e se levanta.
Maria Gabriela Llansol, Lisboaleipzig,1994



sempre ali estiveram, na dobra dos dias
mas apenas os revelámos nas palavras
por vezes de forma mortal decidindo a imagem
ou o sentido da imagem no seu interior
sem que se revelassem por si mesmos ao nosso olhar

de modo que a geração das palavras
com que os nomeávamos, ou lhes definíamos a curva,
continuamente se insinuava entre nós e o tempo


Pedro Saborino


in Marginalia





quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Gente comum



(…) o que chamamos o princípio é muitas vezes o fim
e terminar é começar.
É do fim que nós partimos.
T.S. Eliot, in Quatro quartetos



carregaremos sobre os ombros o peso da liberdade
milhões de mortos nos olharão
e o seu sacrifício não será redimido
sem o nosso próprio sacrifício

seremos julgados pelos que vierem depois de nós
pelas nossas omissões
pela nossa ignorância
pela nossa indiferença
pelo nosso egoísmo
pela nossa servidão

nada nos livrará do juízo temível dos mortos
se formos moribundos do futuro

sábado, 10 de dezembro de 2011

teoria geral do conhecimento



(…) e o fim de toda a nossa exploração
será chegar aonde partimos
e conhecer o lugar pela primeira vez

T.S.Eliot. Quatro quartetos


assim, entre o ser e a destruição dos dias, me ocupo dos seus escombros
por galerias de antigas minas
que antecipam a grandiosidade do interior da terra
o seu metalúrgico fogo
estou preso no verbo
invoco a memória dos lugares que achei meus
estou entre mim e o outro indecifrável
diria todos os outros nos quais já não consigo ver-me
mas que eu fui e eu conheci
que me descobriram nesses lugares
talvez verdadeiros
talvez só meus
talvez só lugares

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

exercício barroco sobre a liberdade




tens a liberdade que tomas do teu mundo
a tua viagem é em ti mesmo
do que não queres
do que não te conseguem tirar
do que não te silenciam
ou do que não te matam
morrerás por ti
cobarde e só
se não recusares

o teu corpo aprisiona-te
se o deres ao inquisidor

és senhor da tua luz
e apenas escravo da tua escuridão

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Insurreição


fecho aqui as páginas
que libertam o poder dos nomes
a sua insurreição
(a liberdade é o poder dos nomes que lemos nas páginas abertas)

voltarei
decerto voltarei
não para esta terra servil
mas para a sua luz maior

sábado, 19 de novembro de 2011

Carreira 28







viajo através de ti
cidade
reclinada junto ao rio que te cresce por dentro numa invenção dos movimentos do amor
descrevo-te
sentado no cavalo amarelo e abrem-se recantos
descubro-te as vozes da manhã em praças pequenas rodeadas de janelas com roupa vasos flores grades ferrugentas escadarias de pedra miradouros da luz
gente de distantes lugares
vinda em barcos ancorados no porto fluvial
na esperança adiada do dia maior
da flor
do encanto
do azul




sei que te amo cidade
desesperadamente



mas nesta viagem
sei também que morro contigo

sábado, 12 de novembro de 2011

Do Ultimatum











A genialidade torrencial de Fernando Pessoa é por vezes profundamente provocatória, como demonstra o longo panfleto poético "Do Ultimatum" (Álvaro de Campos, 1917) de que transcrevo aqui um trecho sobre a sua ideia de Europa.
Faço-o como homenagem ao Poeta, que venero. Faço-o como desafio a todos nós, portugueses.













(...)A Europa tem sede de que se crie, tem fome de Futuro !
A Europa quer grandes Poetas, quer grandes Estadistas, quer grandes Generais !
Quer o Político que construa conscientemente os destinos inconscientes do seu povo !
Quer o Poeta que busque a Imortalidade ardentemente, e não se importe com a fama, que é para as actrizes e para os produtos farmacêuticos!
Quer o General que combata pelo Triunfo Construtivo, não pela vitória em que apenas se derrotam os outros!
A Europa quer muito destes Políticos, muitos destes Poetas, muitos destes Generais!
A Europa quer a Grande Ideia que esteja por dentro destes Homens Fortes — a ideia que seja o Nome da sua riqueza anónima!
A Europa quer a Inteligência Nova que seja a Forma da sua Matéria caótica!
Quer a Vontade Nova que faça um Edifício com as pedras-ao-acaso do que é hoje a Vida!
Quer a sensibilidade Nova que reúna de dentro os egoísmos dos lacaios da Hora!
A Europa quer Donos! O Mundo quer a Europa!
A Europa está farta de não existir ainda ! Está farta de ser apenas o arrabalde de si-própria ! A Era das Máquinas procura, tacteando, a vinda da Grande Humanidade!
A Europa anseia, ao menos, por Teóricos de O-que-será, por Cantores-Videntes do seu Futuro!
Dai Homeros À Era das Máquinas, ó Destinos científicos! Dai Miltons à época das Coisas Eléctricas, ó Deuses interiores à Matéria!
Dai-nos Possuidores de si-próprios, Fortes Completos, Harmónicos Subtis!
A Europa quer passar de designação geográfica a pessoa civilizada !
O que aí está a apodrecer a Vida, quando muito é estrume para o Futuro!
O que aí está não pode durar, porque não é nada!
Eu, da Raça dos Navegadores, afirmo que não pode durar!
Eu, da Raça dos Descobridores, desprezo o que seja menos que descobrir um Novo Mundo!
Quem há na Europa que ao menos suspeite de que lado fica o Novo Mundo agora a descobrir?
Quem sabe estar em um Sagres qualquer?
Eu, ao menos, sou uma grande Ânsia, do tamanho exacto do Possível!
Eu, ao menos sou da estatura da Ambição Imperfeita, mas da Ambição para Senhores, não para escravos!
Ergo-me ante, o sol que desce, e a sombra do meu Desprezo anoitece em vós!
Eu, ao menos, sou bastante para indicar o Caminho!
Vou indicar o caminho!(...)










Álvaro de Campos, 1917

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

O quinto império







E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será theatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.

Grecia, Roma, Cristandade,
Europa- os quatro se vão
Para onde vae toda edade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu Dom Sebastião?~


Mensagem , Fernando Pessoa


vem sobre nós do tempo antigo a longa memória
o discurso do vento que o horizonte alarga e define
luz e treva no punho da manhã

a tua voz clama da bruma já não o desejado
mas o corpo abrupto
o rumor que do teu sangue flui vasto e urgente
no mar austral da viagem
a navegação do teu rosto
desde o princípio

aqui estamos pois povo infindo
na claridade do novo despertar
somos mais do que o futuro
viajamos além do nosso tempo ‘







terça-feira, 11 de outubro de 2011

Retrato

Foto de Paulo Patoleia in Rostos Transmontanos












Não vejo o mundo sem os meus olhos, mesmo que tudo mude, ou até deixe de existir

porque eles são os meus olhos da eternidade












o teu rosto pertence a estes montes,
a tua voz sobe do rio e nele flui o percurso
da memória, tal o mundo, tal o discurso
que em mim te nomeia, como se fossem pontes

do passado para o meu peito, agora mais cansado,
mais lento o gesto, mais suave a mão
vem tudo de ti e eu não sabia, tudo repete o que não
pude dizer-te junto de ti , tocando-te o cabelo, sentado

vê agora comigo estes campos – a luz da alva
sobre a névoa descobre os ramos floridos
da amendoeira, é já manhã e os cheiros crescem

húmidos da terra, num antiquíssimo rumor
que só agora desvendo nos teus braços doridos
como se fossem os meus próprios braços que renascem

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A liturgia da poesia




O Prémio Nobel da Literatura de 2011 foi atribuído a um poeta - Tomas Transtromer , nascido em Estocolmo em 1931 . Desde os 25 anos que publica poesia. Vítima de um acidente vascular cerebral há alguns anos continuou o seu labor poético até à actualidade. É considerado o mais importante poeta sueco dos tempos modernos. Publicado em mais de 30 línguas. Praticamente desconhecido em Portugal , apenas representado numa colectânea de 1981 e citado nalguns blogues de poesia que vão por aí sondando o outro mundo . O que não admira. A poesia em Portugal é ostensivamente ignorada. As editoras aqui apenas crismam os génios preconcebidos. Ou pré-concebidos, enfim como quiserem. Temos as editoras que merecemos e as escolhas que não merecemos. Pequeninas, grotescas e ridiculamente preconceituosas. Como os bolinhos da tia, que ninguém come mas todos elogiam.

A Academia redimiu-se, depois de algumas escolhas menos boas. A Poesia verdadeira - essa visão premonitória, essa descoberta do apenas imaginável que está para além do real, essa libertação suprema do quotidiano, essa verdade sempre renovada, esse incêndio das palavras que torna a condição humana o único bem em que nos podemos encontrar como seres solidários, essa visão intangível de um mundo mais próximo - essa Poesia está hoje em festa.

Com essa festa me congratulo e me associo com todo o meu profundo entusiasmo.

Amanhã as editoras deste pobre país vão descobrir que a Poesia afinal existe.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

canto do amanhecer

Ao Carlos Paredes




neste país que arrefece nos silêncios
das lutas mortas
naus submersas de viagens sem regresso
maio esquecido
nas searas de trigo imaginado
no teu peito inquieto eu procuro o teu rosto
ó voz antiga
ó rio infindável
da liberdade
já não te ouço
já não te espero no alvor da manhã
como dantes
onde o meu sangue te nomeava
os meus olhos já não te podem ver
como dantes
e o meu corpo vagueia
neste canto do amanhecer
sem alegria
sem nada

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

os olhos vazios dos deuses



Os homens da Europa, abandonados às sombras, desviaram-se do ponto fixo e reluzente. Trocaram o presente pelo futuro, a humanidade pela ilusão do poder, a miséria dos subúrbios por uma cidade fulgurante, a justiça quotidiana por uma verdadeira terra prometida. Perderam a esperança na liberdade das pessoas e sonham com uma estranha liberdade da espécie; recusam a morte solitária e chamam imortalidade a uma prodigiosa agonia colectiva. Já não acreditam naquilo que existe, no mundo e no homem vivo; o mistério da Europa é que ela já não ama a vida. Os seus cegos acreditaram de modo pueril que amar um único dia da vida equivalia a justificar séculos inteiros de opressão. Por isso, quiseram apagar a alegria do quadro do mundo adiando-a para mais tarde.
A impaciência dos limites, a recusa da vida na duplicidade, o desespero de ser homem, levaram-nos, finalmente, a uma desmedida desumanidade. Ao negarem a justa grandeza da vida, precisaram apostar na sua própria excelência. Na falta de coisa melhor, eles divinizaram-se e a sua desgraça começou: estes deuses têm os olhos vazios.

Albert Camus, O Homem Revoltado , 1951





Não queremos os deuses

da misericórdia

não tememos a dor

não tememos o medo

não queremos voltar a ser a imagem da inquietação.

Invocamos-te, divindade, para te dizer: não te queremos.


Já não somos escravos, libertámos a vontade

defrontámos o teu rosto para te mostrar os nossos olhos

a nossa boca que proclama liberdade

os nossos braços que derrubaram as grades

das tuas prisões.


Pode a tua voz rugir sobre nós, lançar o medo, o opaco

manto da negação


mas nada nos deterá.