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quinta-feira, 19 de março de 2009

Soneto meridional





SONETO MERIDIONAL



na outonal curva em que a vida enfim se alonga
e os sonhos se detêm, talvez findos, talvez vazios,
por demais sofridos golpes ou rudes e frios
momentos, que a fortuna adversa o peso lhes prolonga


no frágil e juvenil caminho das terríveis verdades
que o tempo, insaciável, feroz máquina da morte ,
destrói e consome , sobre nós designando a sorte
dos gestos, das angústias , dos temores, das vontades


descobrimos, em súbito e derradeiro espanto,
o cheiro do mar, que no doce e leve encanto
da noite se desprende, além do tímido odor do laranjal


assim húmido e aos poucos da terra se levanta
depois mais forte que o maior amor , mais que tanta
paixão na fugidia madrugada por fim cresce e se desfaz





Agosto e Dezembro de 2007
Tavira, Cascais

quinta-feira, 12 de março de 2009

me quedan las palabras



na morte de Rafael Albertí


28 de Outubro de 1999



de que se fazem os cantos as duras formas dos picos submersos na angústia do anoitecer de que se fazem o rosto acerado e aquelas mãos
retorcidas que cortam o vento ? de que se fazem
os pássaros esmagados
dentro dos sonhos
que já não brilham como estrelas
de que se faz o silêncio que provém do vazio
e flutua
aquela boca gelada que já nada pede
o fio trémulo com que o menino segura a lua

os passos
na chuva o calor sufocante e o odor do laranjal
de que se fazem ? o recanto da luz e o pequeno banco de pau
de que se fazem todos os ódios calcinados a greta da miséria
e a tua fome ó vão guerreiro

ó pranto

de que se fazem o destroço o duro arco vergado o caule
morto
ofício roxo de um céu esquecido


de que se fazem?

de que se fazem?

quarta-feira, 11 de março de 2009

Estrada de Inverno


Adianta-te ao adeus, como se ele assim
ficasse para trás, como o Inverno agora.

XIII Soneto a Orfeu R. M. Rilke







Vê como é difícil achar as palavras que nomeiam esta paixão

na tarde em agonia

terrível oficina de silêncios e escuros recantos


escuta o vento nos ramos nus dos plátanos

por cima de memórias que agora enchem os nossos dias

já não sabemos chorar - temos fome - e a estrada corre à nossa frente



gelou a fonte. A terra ressequida estala sob os nossos pés.



Diz-me : onde fica o paraíso ? Sabemos agora mais do que sabíamos ontem sobre o

universo ?

Diz-me ainda : que deus nos conduzirá ?




Vê como o amor se desvenda no poema