sexta-feira, 17 de julho de 2009

Invocação das almas



por estes dias lisboa é uma cidade inquieta
de paredes com sombras e uma crua luz que
vem sobre os ombros
como um escapulário
procissões de antigos rostos com órbitas vazias
defuntos e outros restos jacentes
numa tarde de tambores
arrastando as últimas gaivotas
que do rio sobem à colina
e resgatam uma fome milenar
miradouros vazios
desafiam o olhar num ritual de obscuras vozes
esconjuram demónios ocultos nas pedras
de diversos castelos sepultados

nesta cidade
onde rios serpenteiam abaixo dos pés
num frémito como a visão do grande maremoto
o espanto da súbita vaga

nesta cidade cresce por vezes o cheiro
da carne queimada
ouvem-se cânticos de redenção
de repente faz-se um silêncio sobre as
ruas, as praças emudecem e apenas chia a roda
na cave, com gemidos abafados de penitentes

Pedro Saborino
Julho de 2009

Um comentário:

  1. Estou há largos minutos lendo e relendo o seu poema.
    Tanto o que ele diz! Mas muito mais o que evoca!

    Obrigada, Daniel, por estes momentos de beleza e de reflexão.

    Júlia

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