sábado, 27 de julho de 2013

Exílio



a manhã é breve neste jardim com acácias, salgueiros


estátuas fugidias

e escrevo porque já não tenho tempo de dizer

que tudo antecipa a viagem



o refúgio foi há muito ocupado pelo grasnar das gaivotas

que sobem do mar, famintas

chegou o tempo do exílio



 Pedro Saborino

quarta-feira, 26 de junho de 2013

ovo da serpente




no ornato no alpendre no beiral


estamos na casinha

na proporção

no silêncio

mas o rumor impera

o sangue cresce

a serpente nasce




Pedro Saborino

quarta-feira, 12 de junho de 2013

navegação do corpo


                                                            para a Graça Barroso



do rosto ao interior o músculo vibra tenso, contíguo


em viagem dolorosa da carne por diversas paisagens

por luzes que do nada se refazem e definem o flanco

o ventre reclinado

aberto



o corpo flui

de dentro

sobre um nada informe

da pele inexplicada brotam ramos

talvez gestos

o olhar abre-se à luz impiedosa do sol

e a palavra

finalmente

explode no silêncio



como o belo é assim o princípio do ser

a fonte o seu espaço, o fogo a sua voraz destruição



no imperfeito desvendamos por fim o sagrado



Pedro Saborino
in  Marginalia 2013

 

terça-feira, 28 de maio de 2013

Esboço de poema


                            Homenagem a Herberto Hélder, no dia da publicação de Servidões



aí estás, despojado de ti


e sobra-te a dor

o teu exílio

sobra-te a luz que estremece nos teus olhos antecedendo o fim

vejo-te

e despeço-me do teu olhar, da tua respiração

os teus dedos agarram-se aos meus dedos

e o teu corpo é agora o meu corpo

neste sangue inútil



Pedro Saborino

sábado, 4 de maio de 2013

voo



voo

                                                           homenagem a Ramos Rosa




estou aqui, de pé sobre a rocha, muito perto das aves


do seu voo marítimo, no cabo ocidental onde o vento sibila sobre o tojo

e o falcão vigia a passagem dos grandes barcos migrantes



a minha viagem começa aqui, neste bordo suspenso da gávea

por onde rolam as brumas da primavera e os grandes silêncios do oceano se fazem gemido e carne salgada

aqui, onde eu não tenho corpo e estou assim suspenso no olhar

da morte

em declive sobre o nada



e voo, despeço-me de mim, alcanço a luz

toco-a, íntima e solene, queimando as mãos



Pedro Saborino



quarta-feira, 24 de abril de 2013

assim




 assim


                                                        homenagem a Murilo Mendes




assim vivemos, nas aparas da luz

enquanto as aves exterminam as crias

e as papoilas do campo se consomem em lírica combustão

assim estamos, nesta dor quieta

enquanto a lâmina nos passa de lado a lado, perfurando a fome

assim enterramos o domingo com a sineta fúnebre dos dias

enquanto a peste se insinua pelas portas da cidade

e os rios vão secando em limos vagarosos

prenunciando o fim da musa

assim viajamos nos barcos nocturnos do degredo, em ritos de passagem



Pedro Saborino

quinta-feira, 28 de março de 2013

Orestéia



O que depois aconteceu não pude ver
e mesmo que pudesse não diria.

Agamémnon (Trilogia Orestéia) Ésquilo





Orestéia


onde está a mão divina no reino do visível?

o sangue que a mancha é dos simples mortais

ou dos próprios deuses?



os sinais revelam-se aos sentidos

como o olhar define o escuro perante a luz

ou os dedos modelam a forma do vazio

mas só Cassandra desvenda a face da verdadeira morte

a sua visão terrível

das Fúrias vigilantes

da longínqua cidade onde ecoam os heróis perdidos



nos seus braços tomará

como os deuses, a própria servidão



Pedro Saborino



domingo, 17 de março de 2013

Gilgamesh






às portas do oeste chega o viajante


busca no interior da vulcânica mina o tambor mágico

mas nada o salva da morte

do seu poder profundo

Enkidu não voltará

e o rei está só



longe fica a floresta dos cedros

o mágico luar, o voo redondo da ave

o rei está só

peregrino solitário

no vale enfrenta o leão, carrega depois a sua pele vestida sobre o tronco

até ao limiar do oceano

onde está Dilmun,o paraíso por onde sussurra a brisa da eternidade

e dessa, a planta de espinhos alcançará por fim

em vã procura



dentro dos muros de Uruk

agora é chorado pelo povo



a morte não é trágica

só os deuses mortais são trágicos




Pedro Saborino


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Os meus poetas



Trabalho na água que a voz movimentou

Gerando os sismos: e sou
O húmus, o barro nas margens
O homem que nunca compreendeu

Daniel Faria in Poesia, Assírio e Alvim 2012







divido-me entre o grito incompleto da matéria

e o murmúrio do corpo, agora extinto

estou entre o fogo inominável e o desejo,

estou entre a criação e o anjo vigilante

na ombreira da porta , no seu olhar definitivo de barqueiro

do vasto rio do esquecimento



poderia dizer estou aqui

toquem-me as mãos do real, prendam-me os dedos dos ramos que crescem das suas raízes por dentro de mim

poderia dizer vou desesperadamente

como o vento tardio ou a queda do animal ferido na sua viagem inútil

poderia inventar a luz do rosto perfeito

do seu compasso, do seu verso , da sua grandiosa madrugada,

do seu poder,

poderia clamar ressuscitei dos meus próprios mortos

poderia negar tudo , todas as minhas compaixões, todos os meus medos

poderia ser outro



mas a substância das coisas está em mim

tudo se consuma no meu sangue



Pedro Saborino