quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Para Álvaro de Campos





porque matéria e espírito são apenas nomes confusos



dados à grande sombra que ensopa o exterior em sonho



e funde em noite e mistério o universo excessivo






Álvaro de Campos












viagem





é noite e passeio na rua o meu cão

tenho a lua e as estrelas sobre mim e, vendo-as, divago
de constelação em constelação, de galáxia em galáxia, de cúmulo em cúmulo
em cósmica viagem
vou até aos princípios que se afiguram muito para além do fim deste universo
(pressinto que sejam outros universos)
e daí ainda por distâncias que a astrofísica já não entende
talvez só o sonho dos universos apenas sonhados
ou a poesia
porque a poesia não tem regras físicas, não se submete à gravidade
nem precisa do tempo para existir

e penso: o que é a distância? que métrica me toma o olhar sobre estes astros como se fosse a geração do tempo e este por si mesmo
o espaço, deixando-me vê-los pela sua luz
que viaja até mim através do espaço sideral?
onde estou , silencioso espectador do nada?
aonde me transporta aquilo que eu não sei, ou aquilo que deixei de saber, ou aquilo que nunca virei a saber?

estou aqui, inerte, ou movo-me? quem sou eu afinal? desígnio ou matéria pensante? que do vazio irrompe
como a vida ressurge da morte
em ramos poderosos, em fontes submersas que rasgam subitamente a quietude da paisagem

quem somos nós todos, viventes, quem é o deus que nos observa
nos acolhe os temores,
as imperfeições, a ignorância, a soberba?
que pedra bruta somos até modelarmos o nosso rosto verdadeiro?


depois o meu cão alça a perna junto à árvore
e regresso à fina crosta da noite


Pedro Saborino



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