segunda-feira, 4 de junho de 2012

os dias impuros



os dias impuros




escrevo-lhe não para me confortar mas para lhe dizer que apesar de tudo as dores não me atormentam tanto agora com o novo tratamento embora o tumor do meu pescoço continue muito inchado e tenso, sinto uma pressão enorme que por vezes me impede de falar e de respirar fico mesmo no limite da asfixia, as sessões de quimioterapia e de radioterapia deixam-me muito debilitado mas acho que depois ficarei melhor, muitas vezes imagino mesmo que me vou curar, é uma forma de olhar o mundo, sabe que continuo a trabalhar vou ao escritório falo com os colegas abro uns processos discuto umas ideias escrevo umas minutas sinto-me útil compreende? de resto sei que não posso fazer muito mais, depois regresso a casa vou sempre a pé devagar vou sorvendo os ruídos do mundo as vozes o ladrar dos cães o barulho dos carros entro no café e bebo uma bica a olhar um ou dois velhotes mal barbeados que reviram o jornal quase esfarrapado com notícias que nada adiantam ao seu rosto embaciado e eu próprio me perco por vezes em tal divagação, mas depressa me liberto do limbo incerto e procuro os sinais de que estou vivo, sofro por vezes cruamente mas estou vivo digo porquê não sei mas estou vivo de resto o que é viver? a obra feita ? as mulheres que amei? o meu filho que entretanto deixou de existir? o que é que eu fiz afinal na vida? fui o falcão agrilhoado ou a garra da águia ? a torrente o rio incontido ou o charco a viela a esquina? não lhe sei dizer nem será importante dizer porque nada é mais importante agora do que desatar estas cordas que sinto em volta de mim como uma servidão, não que eu deseje sofrer ou que a dor me purifique ou me redima ou absolva mas tão só porque não quero caber dentro do meu corpo quero estar do lado de fora de mim e olhar-me apenas como o ser físico sofredor o outro frágil que a doença vai minando, estou pois aqui ao mesmo tempo espectador da minha condição e senhor de mim mesmo, tenho dado comigo a pensar como desta forma eu posso escolher entre a essência da minha liberdade e a existência da minha natureza humana que se enreda na trama de todas estas vicissitudes às quais não posso fugir
vou tal como sísifo carregar a pedra do vale ao cume, da humilhação até à face dos deuses,dia após dia, vou acorrentar a morte
abraço amigo F.





Imagem de bucaorg (CC-usage) Flickr



3 comentários:

  1. Perturbador.
    Tenho uma amiga que está em fase terminal de um cancro no pâncreas.
    Pediu para sair do Hospital e vir para casa.
    Tentou suicidar-se, lançando-se janela fora para se estatelar no passeio, para acabar com o sofrimento e a vida que já não é.
    Já não tem sequer forças para cometer suicídio.Falhou, redondamente.
    O seu texto é de um homem que sabe o que é a dor infernisante e a morte anunciada.
    Um abraço grande para si.

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    1. A dor física põe-nos por vezes no limiar das grandes questões. Como dizia a Maria Gabriela Llansol, com o seu inesgotável dom, "parece haver dois mundos - o Mundo e a Restante Vida". Será nessa Restante Vida que procuramos as respostas para essas questões.
      Abraço
      Daniel

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  2. Junto-me a vós, Amigos.
    Não exagero se disser que o texto me abalou muito. Não consigo aceitar que o sofrimento atinja quem nunca fez mal. As crianças, porquê? Elas nem cabem nessa Restante Vida.
    Abraço
    Júlia

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