quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

A "caixa negra" da cirurgia




O acto cirúrgico envolve em regra três fases : a fase pré -operatória na qual é identificado, definido e esclarecido o problema cirúrgico do doente, que então deverá ficar ciente da extensão e possíveis complicações da cirurgia; a fase pós-operatória, verdadeiramente pública, em que são patentes os resultados imediatos e muitas das principais sequelas.

Entre estas duas fases ( e correspondendo ao acto cirúrgico em si ) encontra-se um espaço que o cirurgião reserva como de absoluta intimidade com o seu doente e que constitui o que se pode chamar de verdadeira black box , reduto do artífice, do cientista, do mago, porventura do inovador. Nele fluem momentos de diversos níveis de contenção, alguns terrívelmente críticos por estar em questão a vida ou a morte. Momentos que requerem por vezes uma decisão, sempre solitária, um gesto de corajoso avanço, mas também por vezes de angustiante abandono.

Há certamente um treino que permite dosear as emoções, decidir com base na prudência e no princípio da menor lesão, mas essa decisão será sempre individual e nunca partilhada, nem com a equipa que nesses momentos se reserva à orientação do chefe.

Daí o principio da autoridade do cirurgião, que nunca é questionada porque em última análise é ele que assume o gesto e a consequência.

Pode ( e deve) reportar, relatar a cirurgia, mas é com ele que o doente e a família dialoga, é a ele que avaliam, é a ele que citam no bom e no mau momento.

É pois esta caixa negra que guarda o segredo da fronteira entre o banal e o transcendente, o humano e o sagrado .



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