sexta-feira, 19 de junho de 2009

Crónica da infância revisitada



Mão amiga ( que não quero revelar mas muito estimo) ofertou-me esta magnífica criação de Baptista-Bastos. Com um carinho que tudo diz da sua - ofertante- bondade e da sua perspicaz compreensão dos meus gostos.

Para além das suas estorinhas de compungente emoção.

Sucede que tenho por B.-B. um enorme afecto. Tão desinteressado quanto genuíno.

E, como ocorre quando o afecto é genuíno e desinteressado, a análise esmorece e o verbo flui , sem outro passo que o da generosidade.

Assim é com este conto, que porventura já não é conto, nem memória, nem verso, nem nada.

Apenas um traço, um rosto, ou muitos rostos e muitas vozes, uma aguarela como as que o pincel de Mónica Cid ali deixam , dentro dos nossos olhos.

Começa com um era uma vez de uma avó que nunca teve ocasião para se sentar e olhar o rio. Uma avó que o autor retrata de compleição baixa, rosto firme e vivência magoada e apreensiva.

Que interpelava o pai , beberrão, ossudo, bruto, mas de triste olhar, sobre o cuidar do filho. E de tudo sabia, num reportório de vivos e de mortos em que o bairro da Bica, onde habitavam, era cenário e foi memória de um mundo que B.-B. revive e refaz.

Um bairro de figuras reais, com um poeta de fechado rosto , esquivo, autor de letras para fado, e outras figuras, ciganos e surdos-mudos, boa gente que a avó lhe descobria para o mundo .

A avó da bolsa de quadrados de flanela de onde saiam umas moedas, um auxílio, um conforto, a bolsa mágica do afago."Tens sonhado um bocadinho por mim?" questionava a avó , que de livros pouco sabia, mas lia na natureza os sinais da eterna busca , como a maresia que do rio subia ás ruas . O rio , o rio eterno como o fluir universal das coisas. Como as putas verdadeiras e a descoberta do corpo, num sobressalto .
Uma avó sábia, pequena e sofredora, imensa e comovente no imaginário de B.-B. , que morreu num dia feriado, docemente, como um pássaro ferido, a olhar o neto.

Um comentário:

  1. Seu texto é tão afectivo e sensível quanto o de Baptista Bastos, as suas palavras têm a delicadeza e o carinho que a avó palhaça e o seu neto merecem.

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