segunda-feira, 29 de junho de 2009

O direito ao rosto



Quando A. entrava na sala de espera da consulta as vozes baixavam de tom e havia sussurros.
A. tinha sido uma bela mulher. Um cancro da face, terebrante, insidioso, motivara já várias cirurgias . Cada uma mais mutilante do que a anterior. Até que, no limiar das drásticas decisões lhe fiz a "grande" cirurgia. A cirurgia transfiguradora . A da imagem nulificada, da proscrição, a sagrada ablação do mal, salvífica e necessária.
Mas, com a mão que desfere o golpe, lhe reconstruímos também o rosto. Um rosto então determinado pelos olhos vivos e inquiridores e pela boca, uma boca de lábio superior inerte. Entre eles um espaço, uma ideia de humano, uma forma a haver.
A. olhava todos de frente. Sem máscara alguma. Nunca. Os olhos brilhavam sobre a apreciação compungida dos outros. Uma sociedade selvática, crua de vazios e negações.
Foi entretanto ainda reoperada . Um sobressalto. Que mais fortaleceu a vontade de assumir um rosto. Não necessariamente o rosto original. Mas um rosto novo . Um novo nariz. Uma identidade física que nunca se negara no seu íntimo. Orgulhosamente .
Lenta e pacientemente começámos .
Desenhando um rosto.

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