sábado, 12 de setembro de 2009

Nostos


Voltou Jorge de Sena à terra donde partira um dia, ressentido, amargurado, descrente, inquieto. Inquietude que, no exílio lhe agigantou a obra.
Mas terá valido a pena? A terra continua mesquinha e vil, sombria, incerta. Eternamente adiada.

Ode para o Futuro

Falareis de nós como de um sonho.
Crepúsculo dourado. Frases calmas.
Gestos vagarosos. Música suave.
Pensamento arguto. Subtis sorrisos.
Paisagens deslizando na distância.
Éramos livres. Falávamos, sabíamos, e amávamos serena e docemente.
Uma angústia delida, melancólica,
sobre ela sonhareis.
E as tempestades, as desordens, gritos,
violência, escárnio, confusão odienta,
primaveras morrendo ignoradas
nas encostas vizinhas, as prisões,
as mortes, o amor vendido,
as lágrimas e as lutas, o desespero da vida que nos roubam
- apenas uma angústia melancólica,
sobre a qual sonhareis a idade de oiro.

E, em segredo, saudosos, enlevados,
falareis de nós - de nós! - como de um sonho.


Jorge de Sena, in 'Pedra Filosofal'

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