quarta-feira, 2 de setembro de 2009

A peste




Mas a religião do tempo da peste não podia ser a religião de todos os dias e se Deus podia admitir, e mesmo desejar, que a alma repouse e se rejubile nos tempos de felicidade, desejava--a excessiva nos excessos da desgraça. Deus concedia hoje às suas criaturas a graça de colocá-las numa desgraça tal que lhes era necessário reencontrar e assumir a maior virtude, que é a do Tudo ou Nada.
Paneloux afirmou ao seu auditório que o que iria dizer não era coisa fácil – que era preciso querê-la, porque Deus a queria. Os tumores que se formavam eram o caminho natural por onde o corpo rejeitava a infecção......e diziam “Meu Deus, dai-nos tumores”, o cristão saberia abandonar-se à vontade divina ainda que incompreensível. O mal era enviado por Deus.
”Meus irmãos”, disse por fim Paneloux, anunciando que ia terminar, “ o amor de Deus é um amor difícil. Ele pressupõe o abandono total de si mesmo e o menosprezo da pessoa. Mas só ele pode apagar o sofrimento e a morte das crianças, só ele, em todo o caso pode torná-la necessária, pois é impossível compreendê-la e não podemos senão desejá-la. Eis a difícil lição que desejava compartilhar convosco. Eis a fé, cruel aos olhos dos homens, decisiva aos olhos de Deus de quem é preciso que nos aproximemos. Diante desta imagem terrível, é preciso que nos igualemos.

Albert Camus, A Peste 1947


Nesta dança da morte não queremos o deus

da misericórdia não queremos voltar ao irremediável

porque não tememos a dor nem o desconhecido

não queremos voltar a ser a imagem da inquietação

Invocamos-te, divindade, para te dizer : não te queremos

há muito que não somos escravos, que libertámos a vontade

que defrontámos o teu rosto para te mostrar os nossos olhos

desafiadores, a nossa boca que proclama a liberdade

os nossos braços que derrubaram as grades

das tuas prisões milenares

Pode a tua voz rugir sobre nós, desferir o raio, lançar o medo, o opressivo manto da guerra

que nada nos fará calar

Nesta dança da morte que há muito deixámos de temer


2 de Setembro de 2009

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