domingo, 30 de outubro de 2011

Fábula sem moral nenhuma




Era uma vez um reino no qual há muito o povo vivia encarcerado por ordem de um velho senhor que usava botas e vivia num palácio bafiento onde os únicos ruídos eram os dos ratos. O povo era muito infeliz e pobre . O velho senhor obrigava os seus súbditos a trabalhar para subsistir sem lhes dar quase nada em troca e mandava-lhes os filhos para uma guerra muito longe da sua terra. Muitos iam para fora para poder ganhar o sustento. Viviam no pavor de dizer qualquer coisa que não lhe agradasse porque eram logo denunciados por uns senhores esquálidos de fato preto que os colocavam numa cela só para eles e onde levavam pancada e passavam ainda mais fome. Mesmo assim alguns conseguiram juntar-se e, logo que o senhor que usava botas morreu, foram ao palácio e da janela mandaram abrir as portas das suas prisões e voltar todos aqueles que estavam na guerra distante.
Com isto o povo se achou muito diferente e começou a pensar em construir um futuro mais justo para que todos pudessem trabalhar, ler e aprender para serem finalmente felizes. Tanto mais que noutros reinos próximos o haviam já conseguido e pareciam ser todos muito felizes. Assim passaram todos a receber mais dinheiro pelo seu trabalho, a ter melhor assistência médica, a ter melhores estradas, a ter melhores casas para viver, a mandar os filhos para a universidade, a passar férias longe do reino, enfim, começaram a viver mais confiantes e a pensar que tal prosperidade nunca ia ter fim.
Entretanto os senhores que mandavam no reino também achavam que isso era bom para eles, porque assim tinham muito mais votos nas eleições e podiam viver descansados. Por outro lado os senhores que tinham guardado nos cofres dos bancos o dinheiro do povo também achavam que isso era bom para eles porque por um lado faziam grandes negócios com os senhores que mandavam no reino e por outro lado iam tirando do povo uma boa parte do que o povo recebia dos senhores que mandavam no reino.
Por outro lado ainda, para os outros reinos de fora também era bom que assim fosse, porque desta forma também emprestavam dinheiro e vendiam coisas que eles produziam a mais e que precisavam de vender.
Um dia o senhor das contas do reino foi ao cofre e achou-o quase vazio. Ficou muito alarmado e falou com os senhores dos cofres dos outros reinos à volta para saber se lhe emprestavam algum dinheiro, mas a resposta foi que também estavam com o mesmo problema e não havia dinheiro.
Então o senhor das contas do reino voltou-se para o povo e disse que já não lhe podia pagar mais, que era um problema de todos os reinos e que o povo tinha de lhe dar tudo o que tinha e ainda que os seus filhos, netos e bisnetos tinham que lhe dar tudo o que viessem a ter no futuro.
E o povo ficou muito triste. Triste e enfurecido. E disse: Nunca mais vamos acreditar nos senhores que mandam no reino. Daqui para diante vamos ser nós a mandar.
Só que esperaram em vão. E entretanto voltaram a viver como no tempo do senhor que usava botas.

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