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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Zona de conforto, disse ele



O emigrante não sai do seu país de livre vontade . Sai porque não encontra aí condições para se desenvolver satisfatoriamente como ser livre e senhor do seu próprio destino, ou porque não se conforma com o sistema de vida, ou porque não consegue aí realizar-se a nível profissional, ou porque é perseguido ideologicamente, ou porque não tem meios para se sustentar ou à sua família, ou ainda por uma série de razões. Não sai mesmo é de livre vontade para se passear num meio muitas vezes hostil e no qual a adaptação é quase sempre difícil e traumática.
Nos anos 60 vários factores se conjugaram para que se tivesse verificado uma vaga maciça de emigração de portugueses não só para países europeus como a França e a Alemanha ( esta numa fase imparável de reconstrução pós-guerra- não esqueçamos que estávamos apenas a escassos 15 anos do fim do grande conflito mundial), como também para a Suiça, Bélgica e ainda para os Estados Unidos, Venezuela, Brasil, África do Sul e até para Angola e Moçambique apesar da guerra colonial estar já em curso. A conjuntura económica já então desfavorável, associada a uma feroz repressão política do regime salazarista e a um nível de vida genericamente muito pobre , ou ainda a recusa de pactuar com o regime fascista vigente, foram as causas mais importantes deste êxodo, quantas vezes em condições dramáticas e degradantes para a condição humana.
Hoje, com uma taxa de desemprego seguramente acima dos 12 ou 13%, com uma estrutura empresarial altamente fragilizada, com um investimento nulo, com uma sobrecarga fiscal asfixiante, inicia-se uma emigração diferente da dos anos 60 mas não menos empobrecedora para o país. Trata-se em muitos casos de jovens qualificados, quadros, investigadores, técnicos, professores, trata-se ainda de trabalhadores que oferecem a sua força de trabalho onde lhe garantam o seu sustento e o da sua família. Trata-se em suma de portugueses que não encontram na sua terra condições de sobrevivência condigna. Como afinal os seus concidadãos dos anos 60.
Não sei se é isto que o sr. Secretário de Estado da Juventude queria dizer quando há pouco incentivava os jovens portugueses à emigração.
Nem sei afinal qual a "zona de conforto" a que se referia.
É que já estamos todos habituados ao desconforto da mudança, sr. Secretário de Estado.
Historicamente.

domingo, 30 de outubro de 2011

Fábula sem moral nenhuma




Era uma vez um reino no qual há muito o povo vivia encarcerado por ordem de um velho senhor que usava botas e vivia num palácio bafiento onde os únicos ruídos eram os dos ratos. O povo era muito infeliz e pobre . O velho senhor obrigava os seus súbditos a trabalhar para subsistir sem lhes dar quase nada em troca e mandava-lhes os filhos para uma guerra muito longe da sua terra. Muitos iam para fora para poder ganhar o sustento. Viviam no pavor de dizer qualquer coisa que não lhe agradasse porque eram logo denunciados por uns senhores esquálidos de fato preto que os colocavam numa cela só para eles e onde levavam pancada e passavam ainda mais fome. Mesmo assim alguns conseguiram juntar-se e, logo que o senhor que usava botas morreu, foram ao palácio e da janela mandaram abrir as portas das suas prisões e voltar todos aqueles que estavam na guerra distante.
Com isto o povo se achou muito diferente e começou a pensar em construir um futuro mais justo para que todos pudessem trabalhar, ler e aprender para serem finalmente felizes. Tanto mais que noutros reinos próximos o haviam já conseguido e pareciam ser todos muito felizes. Assim passaram todos a receber mais dinheiro pelo seu trabalho, a ter melhor assistência médica, a ter melhores estradas, a ter melhores casas para viver, a mandar os filhos para a universidade, a passar férias longe do reino, enfim, começaram a viver mais confiantes e a pensar que tal prosperidade nunca ia ter fim.
Entretanto os senhores que mandavam no reino também achavam que isso era bom para eles, porque assim tinham muito mais votos nas eleições e podiam viver descansados. Por outro lado os senhores que tinham guardado nos cofres dos bancos o dinheiro do povo também achavam que isso era bom para eles porque por um lado faziam grandes negócios com os senhores que mandavam no reino e por outro lado iam tirando do povo uma boa parte do que o povo recebia dos senhores que mandavam no reino.
Por outro lado ainda, para os outros reinos de fora também era bom que assim fosse, porque desta forma também emprestavam dinheiro e vendiam coisas que eles produziam a mais e que precisavam de vender.
Um dia o senhor das contas do reino foi ao cofre e achou-o quase vazio. Ficou muito alarmado e falou com os senhores dos cofres dos outros reinos à volta para saber se lhe emprestavam algum dinheiro, mas a resposta foi que também estavam com o mesmo problema e não havia dinheiro.
Então o senhor das contas do reino voltou-se para o povo e disse que já não lhe podia pagar mais, que era um problema de todos os reinos e que o povo tinha de lhe dar tudo o que tinha e ainda que os seus filhos, netos e bisnetos tinham que lhe dar tudo o que viessem a ter no futuro.
E o povo ficou muito triste. Triste e enfurecido. E disse: Nunca mais vamos acreditar nos senhores que mandam no reino. Daqui para diante vamos ser nós a mandar.
Só que esperaram em vão. E entretanto voltaram a viver como no tempo do senhor que usava botas.

sábado, 15 de outubro de 2011

Indignados?






Enquanto uns milhares por todo o mundo se manifestam contra um complexo sistema que afinal todos nós criámos e alimentamos , numa espiral de necessidades nunca satisfeitas, de riqueza nunca alcançada, de conluio do poder com o dinheiro, de sucessivas negações da liberdade a pretexto da construção de uma sociedade mais próspera e feliz -




morre-se por todo o mundo de fome e de sede, morre-se de doenças que são curáveis com um antibiótico, ou evitáveis com uma vacina, há crianças e adultos que trabalham forçadamente em completa escravidão, violenta-se e mata-se por um prato de comida, mutila-se e estropia-se por preconceito cultural ou lei religiosa, denega-se ou simplesmente se subverte a justiça, desvaloriza-se a vida , trucida-se e encarcera-se por diferença ideológica, ou género, ou crença,



institui-se o terror como arma, flagelo ou castigo divino, faz-se da indiferença o quotidiano, a ignorância é um mal inevitável, o conhecimento um direito das sociedades ricas, a pobreza um desagradável incómodo.




O mundo dito civilizado transformou-se numa trágica taverna argentária. A liberdade soçobra. O que está em questão é a dignidade humana . Trata-se de uma luta que não deveríamos perder.








Foto: criança africana com noma, doença frequente na África sub-saariana. Ocorre em crianças desnutridas . É mortal se não for tratada. É tratável com antibióticos e cirurgia reconstrutiva. Ironicamente o restaurante mais caro do mundo, na Dinamarca, tem o mesmo nome.












quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Dignidade




Ela estava ali sentada à minha frente, as mãos de dedos finos e pálidos sobre o regaço, os olhos sem brilho. Fez-se um silêncio. Dois ou três longos minutos de interrogações. De súbito o meu olhar cruzou-se com o dela. Entendi-lhe a força da sua enorme fragilidade. Do seu pequeno corpo decrépito, minado pela doença terminal. Da solidão perante a doença inexorável. Do nada físico exposto ali, pungente, como se fosse a última das dádivas. Ao lado a empregada do lar de idosos em que vivia folheava um dossier de capa verde com meia dúzia de folhas. Notas clínicas sumárias. Monólogos de vazio quotidiano. Tudo se resumia àquele círculo da nossa presença. Que os seus olhos tornavam do tamanho do universo.
Fora, no pequeno televisor da sala de espera da consulta, passavam notícias da bolsa no noticiário das 13.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

não quero ser uma paramécia



a paramécia é um ser unicelular não pensa não tem cérebro é um ser unicelular pois claro a minhoca tem 300 neurónios a mosca aí uns 60 000 mas sabem a paramécia reage foge esquiva-se e vive tem vida própria e a minhoca quando lhe falta a comida junta-se as outras minhocas a mosca descobre os aromas e até dizem que se embebeda mas não é só outros seres como os macacos os lobos os golfinhos reagem ao ambiente de forma inata pré-determinada imanente nem eles próprios sabem porque o fazem mas fazem e fazem-no para se defenderem ou para se alimentarem ou para se reproduzirem de acordo com o ambiente ou as suas necessidades só isso –
mas eu tu nós todos modulamos as nossas emoções escolhemos agimos construímos decidimos muito para além das emoções da tristeza da raiva do pânico do desejo sorrimos e rimos e choramos percebemos o nosso corpo para além dele próprio para além de mijar de fazer sexo temos a ideia de nós mesmos como seres absolutamente imperfeitos e vulneráveis compassivos e despóticos apaixonados e indiferentes corajosos e cobardes indecisos e determinados submissos e inconformados temos memória procuramos a justiça e o bem e a solidariedade e a verdade nos vales profundos do pensamento nesse limbo que separa a biologia da paramécia da natureza humana -
não sejamos paramécias não deixemos que façam de nós paramécias a nossa mente é a substância do nosso corpo

terça-feira, 6 de setembro de 2011

cosa mentale







cosa mentale


(…) ninguém sabe como e por que meios a mente move o corpo.
Espinosa, Ética

No início tinha apenas umas fulgurações, algo que não o incomodava muito. Como que uma pressão por detrás da órbita direita. Nada que o impedisse de escrever. Muito menos de pensar. As suas rotinas diárias fluíam invariáveis, as aulas, o novo romance que começara a rever, a crónica semanal que tinha de enviar para a redacção até quarta feira, a visita diária ao café, os seus papéis em que anotava ideias e comentários de leituras, por vezes fazia desenhos. Desde que se separara tinha mais tempo para tudo isso. O Brisk, o velho boxer, tinha morrido meses atrás. A casa tinha agora uma penumbra de fumo de cachimbo e fina poeira suspensa que os escassos raios de luz revelavam. Retirara todas as fotografias dos caixilhos que agora se dispersavam vazios pela casa como olhos cegos. Ficava por vezes, sentado na beira da secretária, a olhar esses caixilhos como se fossem quadros de memória silenciosa. Tinha um passado, claro, para lá dessa fronteira invisível. Toda a gente tem um passado. O corpo tem um passado físico inexorável. Mas olhar o tempo era diferente. Não porque as coisas tivessem mudado, mas porque se sentia diferente.
Começara entretanto com dores mais fortes. O olho direito começara a ficar mais saliente e a visão complicou-se. Agora via duas imagens.
Tudo se precipitou a partir daí. Os exames médicos mostraram um tumor dentro da órbita. No dia em que lhe deram a notícia foi para casa e sentou-se junto da janela da sala até anoitecer, com as mãos cruzadas sob o queixo, estático. Pela primeira vez pensou que podia morrer.
Morrer sozinho. Para si e dentro de si. Entre os livros e papéis espalhados. Como a chuva que caía lá fora era algo que podia apenas explicar, mas que não podia impedir. Tal como a divindade universal.
Podia então morrer indefinidamente e continuar . Porque morrer não era um bem, nem um mal. Apenas uma transição.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

marginalia



cinquenta e poucos anos, no alto do rosto magro e anguloso, agarotado, as sobrancelhas espessas, perguntava-me então como é que vai ser a minha vida? eu trabalho estou na hotelaria trabalho num restaurante como é que vai ser a minha vida? fez-se um espaço ali um espaço interrogativo silêncio a mulher ao lado de lábios entreabertos dentes tortos pois como é que vai ser a vida dele ? temos dois filhos tenho de lhes dizer então que idade têm os seus filhos? seis e doze ah seis e doze mas o problema importante agora é tratar de si já lhe expliquei o que lhe vamos fazer este osso aqui tem de sair e a língua compreende a língua está toda invadida não há forma de tirar o tumor sem tirar tudo isto aqui e o dedo indicador direito percorria o queixo de um lado ao outro vamos ter de lhe fazer aqui uma traqueotomia pode ser apenas temporária depois decidimos e a alimentação? ah a alimentação primeiro através de uma sonda e por quanto tempo dr.? isso depende há doentes que recuperam mais rapidamente isso depende isso depende a mulher de lado o olhar fixado em mim , mas depois posso trabalhar? o que é que eu vou dizer ao meu patrão? quanto tempo? cinco meses? sim talvez cinco meses com a cirurgia e a radioterapia aí uns cinco meses , voltou-se ligeiramente na cadeira, as sobrancelhas elevadas pois cinco meses, mas depois não posso voltar a servir à mesa no restaurante que trabalho é que vou arranjar? de novo um silêncio
uma pequena nota à margem do texto principal
fora o jardim com um lago e alguns pássaros. chovia.

sábado, 7 de novembro de 2009

Não


Estava sentado à minha frente, as pernas cruzadas, a direita sobre a esquerda balanceando. Magro, de olhos muito azuis, um azul brilhante e prescrutador. As mãos estendidas, dedos longos, unhas compridas e amareladas do tabaco.
A mulher, ao lado, fazia-me uns sinais de alguém que bebe, acompanhando-os de um olhar oblíquo na minha direcção. Mas afinal o tratamento é para ficar curado? Isso não posso garantir-lhe. Não, não quero. Sabe, sr. dr. ele foi militar. É muito teimoso. Não. Eu não vou fazer tratamento nenhum. Fico assim. O sr. compreende que, se não se tratar, o tumor vai crescer inevitavelmente. Pois. Eu sei. Os olhos ficaram-lhe subitamente mais baços. Já ali não estava. As pernas pararam de balancear. O olhar fixou-se num ponto alto da parede branca atrás de mim. Tudo parou. Sabe, agora já não me apetece fazer a barba . Só a faço de vez em quando. Dantes era todos os dias. Não podia deixar de ser. E tinha gosto nisso, logo de manhã. Agora é a custo. E aborrece-me. Fitou-me nos olhos. Percebi que já tinha desistido. Que queria morrer. Sozinho.

domingo, 25 de outubro de 2009

Um corpo na duna


Foi encontrado de borco sobre a areia, de camisa aberta no peito, os dedos enclavinhados numa arma.
Na estrada , em cima, o carro tinha a porta do condutor aberta. Sobre o banco da frente o casaco, várias chaves espalhadas, um papel escrito com três ou quatro linhas. Escorria-lhe da cabeça um fio grosso de sangue. Ao lado alguns cigarros meio fumados. Caía uma chuva fina, insistente. O mar ressoava ao longe por sobre os pios das gaivotas.
Ali estava, como um tronco caído, sem raízes.
Um estilhaço.
Um barco naufragado.
Podia quase ouvir-se ainda o estampido ecoando na praia.

sábado, 17 de outubro de 2009

Out


As vozes tornam-se de súbito mais contidas, sussurros, olhares. O estridor do doente sobrepõe-se, num fundo permanente. O monitor apita. Tudo se dilui, como se as dimensões físicas do quarto se alterassem. Pequenas coisas assumem agora um significado diferente: o pequeno rádio portátil, as chinelas, o relógio de pulso, a fotografia sobre a mesa de cabeceira. As enfermeiras movem-se silenciosamente. Alguém folheia o processo clínico com murmúrios indefiníveis. Ao longe ouve-se a televisão, o desafio de futebol. O doente procura uma posição talvez mais confortável. Olhos cerrados. O corpo abandonado, roxo, exausto. As unhas dos pés compridas. Os movimentos respiratórios abrandam, num esforço irremediável. Um longo suspiro, sob a máscara de oxigénio. O silêncio depois. As pequenas coisas em cima da mesa. Esquecidas.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Um rosto de lado


A visita médica, rápida, passou por ele na recuperação. Olhar inquisitivo, pensos um pouco repassados, drenos, uma traqueotomia. A rotina. Quarenta e poucos anos de idade. O cabelo precocemente acinzentado destacando-se na almofada. As mãos estendidas ao lado do corpo. Esboçou um sorriso. Eu tinha-o visto na consulta, com a mulher. Explicara-lhe a extensão da cirurgia, a gravidade, a mutilação. A dificuldade em comunicar. O prognóstico. Aceita ser operado? Dr. claro que aceito. Eu tenho dois filhos.

Depois, na enfermaria, o lugar da cama vazio. Como um alvéolo de solidão.Um devir. Sobre a mesa de cabeceira, dois retratos. Um de quatro cabeças juntas num momento de alegria, todos abraçados. Talvez uma festa das férias passadas. Outro com o braço sobre os ombros do miúdo,decerto o filho, ao entardecer, sentados na areia da praia. Uma praia deserta. Um olhar que se alonga sobre um previsível mar ali à sua frente. Como uma grande interrogação. Talvez um sonho interrompido.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Não me desiluda





Na verdade, que estranhas são as vielas da cidade da dor,
onde, no silêncio falso, feito de tumulto,
com violência e bravata, o vazadouro sai do molde do vazio:
o ruído dourado, o monumento que explode.


X Elegia de Duíno , R.M. Rilke



Não me desiluda dr. , dizia, as mãos contorcidas, o olhar anguloso.
Conheci aquele olhar mil vezes , reconhecê-lo-ia ainda entre mil outros, a pergunta que fica
suspensa sem resposta, parada entre o tudo e o nada.
Não me desiluda – eu sei que me pode curar. Na face, a chaga do tumor patente como uma
abominação. Várias cirurgias, radioterapia, esperanças, depois o nada. Veio procurar-me na
esperança de uma cirurgia salvadora. Sr. F. eu não posso curá-lo. Vou tentar reduzir o tumor,
vou fazer o que for possível, mas não posso curá-lo. Dr. eu sei que pode. Não me desiluda.
E segurava-me no braço enquanto, de lado, a filha dizia que sim com movimentos da cabeça.
Sr. F. a última TAC não é nada animadora. Há vários focos de tumor. Dr. o senhor vai conseguir,
eu sei que vai conseguir.
Mas eu sabia que não ia conseguir.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

A mão da gruta de Chauvet


As fascinantes pinturas rupestres da gruta de Pont d'Arc, no Sul de França, a maior parte das quais com cerca de 30 a 32 000 anos ( mais antigas portanto que as da gruta de Lascaux), incluem para além de um grande número de figuras animais de comovente realismo, a imagem em negativo de uma mão direita. A mão do artista, se entendermos por artista o criador da imagem e, ao mesmo tempo, o indutor do seu significado.
Porquê a mão? Porquê esta linguagem nova? Esta incursão no terreno do sagrado, no recinto ritualizador da hierofania?
A gruta, povoada de representações animais que o quotidiano apresentava ao caçador, fonte da vida e da sobrevivência, era decerto a imagem do seu microcosmo, fora do qual nada mais existiria que a competição selvagem e porventura o caos.
Podemos imaginar um sentido mágico nesta mão - o ponto de encontro do concreto com a estrutura organizadora do pensamento humano, como referia Lévi Strauss. A observação meticulosa da realidade incluia em si mesma o seu princípio e a sua interpretação. A sua significação seria a forma de intervir no real. A mão o seu agente.
A mão que caça, que come, que faz, que mata, que ritualiza enfim - a mão que transcende a função para se tornar no instrumento da divindade. A mão criadora. Que pinta, que inventa, que acaricia, que escreve.
A mão que cura.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Bernardo Santareno (1920-1980)


Falar de Bernardo Santareno é falar daquele que poderá ser considerado o maior dramaturgo português da segunda metade do século XX.
Médico, licenciado pela Faculdade de Medicina de Coimbra em 1950, psiquiatra. Filho de um republicano convicto, que o resgatou ao seminário por " preferir vê-lo morto a ser padre". Entre 1957 e 1958 acompanhou como médico a frota bacalhoeira nas campanhas de pesca do bacalhau, experiência que lhe serviu de base para as peças "O lugre" e "A promessa".
Numa época em que o regime salazarista perseguia toda e qualquer voz discordante, Bernardo Santareno foi uma vítima da repressão e muitas vezes silenciado. A sua notável peça "A promessa" foi retirada de representação por influência do reaccionarismo eclesial de paróquia associado ao obscurantismo do regime.
A sua militância política passou pelo MDP/CDE e pelo Movimento Unitário dos Trabalhadores Intelectuais.
Se a sua matriz estética foi o neo-realismo, a sua genial criatividade evoluiu da afirmação de uma pujante linguagem poética quase naturalista para um registo épico, brechtiano, mas sempre de uma peculiar ênfase, que revive a tragédia grega nos seus momentos de maior universalidade.
De um primeiro ciclo em que se incluem "A promessa", "O bailarino", "A Excomungada","O Lugre" , "O Crime da Aldeia Velha","António Marinheiro", "Édipo de Alfama", "O Duelo", "O Pecado de João Agonia"e "Anunciação", Santareno passou a uma fase de um intervencionismo político em que se destacam "António José da Silva o Judeu", "O Inferno", "A Traição do Padre Martinho" e sobretudo " Português, Escritor, 45 anos de idade", esta já depois do 25 de Abril e que constituiu um marco na literatura dramática portuguesa dos últimos 50 anos.
Das sua últimas quatro peças publicadas em 1979 sob o título "Os Marginais e a Revolução" ressalta a problemática do preconceito face à liberdade de opção, a discriminação e a mentira social, numa perspectiva que desmascara a sociedade portuguesa no seu conservadorismo e na sua hipocrisia.
Muito além do seu tempo, muitas vezes atacado e outras tantas ignorado, Bernardo Santareno é uma figura gigante do panorama intelectual português que aqui evoco, com toda a justiça.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Um deus iníquo



A primeira vez que o vi pareceu-me um homem ainda mais pequeno do que na realidade era, de passos curtos, olhos mortiços, um abandono de quase indiferença. Vinha por um tumor no pescoço que havia algumas semanas o atormentava, duro, inflado, estranho. Trazia consigo a mulher, de falas vibrantes, aquele sotaque de fronteira meio espanholado. E uma história obscura. Uma manhã, por desvario, desfechara no crâneo um tiro . Um tiro de que guardava , perto do cerebelo, a irremovível marca. Um projéctil que a cirurgia não conseguira remover. Mas que não lhe roubara nem a vida, nem o tino. O que R. já aceitava como um sinal da providência. Uma benesse.
Operei-o. Durante um par de anos o tumor não deu sinais. Por vezes trazia-me umas chouriças de porco preto, como que de festejo. Depois , um dia, em surdina, começou a tolher-se-lhe a marcha. Os passos tornaram-se vacilantes, caía, tremulava. Pensou-se que fosse da bala. Não era. Era uma coisa neurológica, degenerativa. Irreversível.
De semana em semana R. piorava. Passou à cadeira de rodas. O rosto ensimesmado, a fala presa. De repente deixou de engolir. Nada lhe passava pela goela. Teve que ser intubado. As análises não estavam bem. A hematologia desencantou algo estranho. Um mieloma. Fez quimioterapia.
R. emagreceu ao limite. Ficou esquálido, inerte, de olhos vidrados. Um dia sangrou da boca, uma hemorragia estúpida. Abra lá a boca sr. R. Um tumor, um maléfico tumor da gengiva que o excruciava já de cheiro e dores. Foi de novo operado. Uma cirurgia miserável, mutilante, de incerto fim. Mais uma traqueotomia. Mais tubos. Mais angústias.
Mas R. conseguia por vezes sorrir. Os olhos, cada vez mais pequeninos, brilhavam no fundo de duas covas orbitárias. E levantava os polegares. Na sua cadeira de rodas.
A semana passada R. voltou. De língua inchada, disforme. Tinha uma recidiva. Inoperável.
Vou amanhã despedir-me dele. Vai para uma unidade de cuidados paliativos.
Com a bala dentro do crâneo.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Um olhar



C. entra devagar pela porta entreaberta, pequenos passos, cabeça curvada. Um rosto anónimo. 87 anos ? Talvez , talvez. O nariz destaca-se no rosto, firme, recto. O olhar esquivo. Ou vazio? Atrás uma acompanhante do lar com um pequeno dossier de capa verde na mão. Dona C, então diga-me o que se passa. Um silêncio que me leva a dirigir os olhos para a acompanhante. Nada de exames? Quem a manda cá? Alguma carta? A senhora foi fazer uma TAC ao hospital de Santarém,mas não trazemos nada. Só este papel. Sente-se ali dona C. Um tumor pétreo do pescoço. A cabeça sempre pendente, olhos no chão. Mas não tem nada aí ? Nem um papel? Nada doutor. A mão palpa. Que mais virá hoje? Não vou poder fazer nada. Uma pedra . Um imenso nada. Tem dores dona C.? Não, não tenho . É impossível. Um tumor destes não pode deixar de dar dores. Dores terríveis. Dores excruciantes . Não, não tenho. Há quanto tempo tem isto aqui? Levanta a cabeça e finalmente cruzo-me com o seu olhar. Onde não encontro nada senão o vazio.
O vazio da dor que já não se sente. Da vida que é já só um esperar. Do abandono. Sem revolta. Mas com muitas perguntas.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

O direito ao rosto



Quando A. entrava na sala de espera da consulta as vozes baixavam de tom e havia sussurros.
A. tinha sido uma bela mulher. Um cancro da face, terebrante, insidioso, motivara já várias cirurgias . Cada uma mais mutilante do que a anterior. Até que, no limiar das drásticas decisões lhe fiz a "grande" cirurgia. A cirurgia transfiguradora . A da imagem nulificada, da proscrição, a sagrada ablação do mal, salvífica e necessária.
Mas, com a mão que desfere o golpe, lhe reconstruímos também o rosto. Um rosto então determinado pelos olhos vivos e inquiridores e pela boca, uma boca de lábio superior inerte. Entre eles um espaço, uma ideia de humano, uma forma a haver.
A. olhava todos de frente. Sem máscara alguma. Nunca. Os olhos brilhavam sobre a apreciação compungida dos outros. Uma sociedade selvática, crua de vazios e negações.
Foi entretanto ainda reoperada . Um sobressalto. Que mais fortaleceu a vontade de assumir um rosto. Não necessariamente o rosto original. Mas um rosto novo . Um novo nariz. Uma identidade física que nunca se negara no seu íntimo. Orgulhosamente .
Lenta e pacientemente começámos .
Desenhando um rosto.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Crónica da infância revisitada



Mão amiga ( que não quero revelar mas muito estimo) ofertou-me esta magnífica criação de Baptista-Bastos. Com um carinho que tudo diz da sua - ofertante- bondade e da sua perspicaz compreensão dos meus gostos.

Para além das suas estorinhas de compungente emoção.

Sucede que tenho por B.-B. um enorme afecto. Tão desinteressado quanto genuíno.

E, como ocorre quando o afecto é genuíno e desinteressado, a análise esmorece e o verbo flui , sem outro passo que o da generosidade.

Assim é com este conto, que porventura já não é conto, nem memória, nem verso, nem nada.

Apenas um traço, um rosto, ou muitos rostos e muitas vozes, uma aguarela como as que o pincel de Mónica Cid ali deixam , dentro dos nossos olhos.

Começa com um era uma vez de uma avó que nunca teve ocasião para se sentar e olhar o rio. Uma avó que o autor retrata de compleição baixa, rosto firme e vivência magoada e apreensiva.

Que interpelava o pai , beberrão, ossudo, bruto, mas de triste olhar, sobre o cuidar do filho. E de tudo sabia, num reportório de vivos e de mortos em que o bairro da Bica, onde habitavam, era cenário e foi memória de um mundo que B.-B. revive e refaz.

Um bairro de figuras reais, com um poeta de fechado rosto , esquivo, autor de letras para fado, e outras figuras, ciganos e surdos-mudos, boa gente que a avó lhe descobria para o mundo .

A avó da bolsa de quadrados de flanela de onde saiam umas moedas, um auxílio, um conforto, a bolsa mágica do afago."Tens sonhado um bocadinho por mim?" questionava a avó , que de livros pouco sabia, mas lia na natureza os sinais da eterna busca , como a maresia que do rio subia ás ruas . O rio , o rio eterno como o fluir universal das coisas. Como as putas verdadeiras e a descoberta do corpo, num sobressalto .
Uma avó sábia, pequena e sofredora, imensa e comovente no imaginário de B.-B. , que morreu num dia feriado, docemente, como um pássaro ferido, a olhar o neto.

sábado, 23 de maio de 2009

Marcos Ana



Amigos, camaradas, hermanos, aquí estamos de nuevo, junto a vuestro duro silencio, para hablar por vuestras bocas enterradas. Ahora hace 70 años que perdimos la guerra, o que nos la hicieron perder los apóstoles de la capitulación. Y llegó “la paz”, la negra paz del franquismo, una red implacable de sangre y odio que nos apresó rabiosamente a todos los defensores de la libertad y la República.
“Sin diques quedó el llantoLos olivos ardiendo. Desgarradascon lívido espanto las palomas,y el toro seco del terror, allanadola paz de los hogares”.
España se convirtió en un campo de exterminio, en un oscuro paredón donde la máquina de matar trabajaba sin descanso. Miles de españoles eran conducidos como rebaños a las cárceles y a los campos de concentración, y otros directamente a improvisados mataderos, donde eran asesinados, tras haber sido torturados. Y después, la trágica parodia de los siniestros Tribunales franquistas, verdugos elegidos, que dictaron y ejecutaron vuestro fusilamiento. Desde su forzado exilio Rafael Alberti describía aquel tiempo:
“Miradla allí,la Muerte está en su casa.Se oye un ciego reloj de horas desiertas.Y hay muchas calles por donde nadie pasa,porque ya nadie puede abrir sus puertas.¡Cuidad que ni una sombra se despierteen esa triste Casa de la Muerte!”
Y ese genocidio duró 40 años. Y cayeron los mejores hombres y mujeres, o adolescentes como las 13 rosas. Se ensañaron con vosotros, por ser los más comprometidos en la lucha por la felicidad del pueblo. Pero no pudieron exterminar vuestro ejemplo, ni apagar el fulgor de vuestra sangre asesinada. Quisieron mataros y os multiplicaron; ahora sois eternos, formáis parte de la historia. Y viviréis eternamente en nuestro recuerdo y en el pensamiento y en el corazón de las generaciones venideras. Como escribió Pablo Neruda en su “Viaje al corazón de Quevedo:”
“Cuando la tiranía oscurece la tierra y castiga las espaldas del pueblo, antes que nada busca la voz más alta y cae su cabeza al fondo del pozo de la Historia. La tiranía corta la cabeza que canta, pero la voz, en el fondo del pozo, vuelve a los manantiales secretos de la tierra y desde la oscuridad sube por la boca del pueblo…”
Y así volvéis permanente a nosotros, porque todos los tiranos juntos con su siniestro poderío, con sus máquinas de matar, no valen lo que un minuto de vuestra vida, no pesan lo que una palabra nuestra y nunca podrán arrancaros de la memoria y del corazón de nuestro pueblo. ¿Cómo sería posible olvidar, como podría hacerlo yo, que conviví con vosotros en mis años de condenado a muerte, que compartimos el pan y el hambre y que a muchos os di, estremecido de dolor y orgullo, el último abrazo cuando ibais a enfrentaros a la madrugada final de vuestra vida?¿Y como olvidar el sufrimiento de vuestras esposas o novias, de vuestras madres que dejaron los mejores años de su vida pegadas como enredaderas humanas a los muros de las prisiones?
Hermanos, yo pude salvarme de aquel naufragio, después de 23 años consecutivos de prisión, pero vuestra muerte quedó para siempre abrazada a mi vida. Y al recobrar la libertad os llevé conmigo y golpeamos juntos las puertas del mundo exigiendo solidaridad para España y para sus hijos encadenados.
Y hoy, aunque parezca increíble, a los 30 años de democracia, tenemos que seguir luchando, con la triste autoridad de vuestra muerte y mi vida, para recuperar la memoria histórica, y para que se reconozca pública e institucionalmente nuestra lucha y vuestro sacrificio frente a la estrategia cómplice del olvido y los falsificadores de la historia.
Después de una Dictadura como la que sufrimos, que segó vuestras vidas y la de tantos y tantas hombres y mujeres, no podemos arrancar esa página de la historia para que se la lleve el viento del olvido. Hay que escribirla con el alfabeto del horror, para que esa tragedia que nos tocó sufrir a nosotros, no sea posible nunca más ni para nadie en España.Conocer la historia de ese tiempo atroz es el más valioso legado que podemos dejar a la juventud de hoy, y la mejor vacuna para proteger la libertad y el futuro de las nuevas generaciones.
Y en esta lucha, podéis sentiros orgullosos de vuestros hijos, de vuestros nietos y nietas, de vuestros familiares, que a golpes de corazón y perseverancia os han arrancado del olvido y están ayudando a construir el gran memorial de la resistencia antifascista.
Hoy, el colectivo “Memoria y Libertad”, al que ellos y ellas pertenecen, nos ha convocado para rendiros este homenaje. Y aquí estamos, junto a un jardín vertical de claveles rojos, erguido como un símbolo sobre las tapias del cementerio. No venimos a llorar vuestra muerte, aunque tengamos que apretar el corazón para evitarlo, sino a afirmar nuestra voluntad de llevar adelante los nobles ideales de vuestra vida.
Hermanos inmortales: sobre estas tapias, ayer salpicadas de sangre y hoy cubiertas de flores rojas, debierais grabar un breve testamento, con los versos que Alberti puso en boca de Juan Panadero:
“Me hirieron, me golpearon,y hasta me dieron la muerte,pero jamás me doblaron!”
Marcos Ana

sábado, 9 de maio de 2009

Terry Fox



Terry Fox , um canadiano de Winnipeg, tinha 18 anos quando lhe foi diagnosticado um sarcoma da perna direita. Foi-lhe então efectuada uma amputação pela coxa. Estávamos em 1977.

Durante o seu internamento no hospital Terry viu e conviveu com muitas situações oncológicas, algumas delas em jovens e crianças. O que lhe despertou o sonho de atravessar todo o Canadá em corrida como forma de despertar a consciência da população para o problema do cancro e também para recolher fundos destinados à investigação.

Chamou-lhe Maratona da Esperança.

Começou a sua extraordinária façanha a 12 de Abril de 1980 e ,correndo 26 milhas por dia , atravessou as províncias atlânticas do Canadá, Quebec e Ontario, num crescente de entusiasmo e emoção de toda a população canadiana e mundial.

No dia 1 de Setembro porém foi obrigado a parar. Tinha percorrido 5373 km. Foram-lhe detectadas metástases pulmonares.

Terry viria a falecer em 28 de Junho de 1982 com 22 anos.Pelo seu exemplo magnífico de coragem e abnegação Terry foi proclamado herói nacional do Canadá e constitui um símbolo inspirador para todos os doentes de cancro e todos os que se dedicam ao seu tratamento.

A Fundação que tem o seu nome recolheu até agora mais de 400 milhões de dólares para a investigação do cancro.

No Canadá e em todo o mundo .
A Corrida de 2009 em Portugal vai realizar-se no dia 16 de Maio pelas 8,30 no Parque das Nações em Lisboa.
Junta-te a nós!