quinta-feira, 23 de abril de 2009

Aljube - Memória da resistência







Ariane


Ariane é um navio.
Tem mastros, velas e bandeiras à proa,
E chegou num dia branco , frio,
A este rio Tejo de Lisboa.

Carregado de Sonho , fundeou
Dentro da claridade destas grades...
Cisne de todos, que se foi, voltou
Só para os olhos de quem tem saudades...

Foram duas fragatas ver quem era
Um tal milagre assim: era um navio
Que se balança ali à minha espera
Entre as gaivotas que se dão no rio.

Mas eu é que não pude ainda por meus passos
Sair desta prisão em corpo inteiro,
E levantar âncora, e cair nos braços
De Ariane, o veleiro.


1 de Janeiro de 1940
Prisão do Aljube
Miguel Torga



Claridade

Clareou.
Vieram pombas e sol,
e, de mistura com Sonho,
pousou tudo num telhado...
( Eu, destas grades a ver,
desconfiado.)
Depois,
uma rapariga loira,
(era loira)
num mirante,
estendeu roupa num cordel:
roupa branca, remendada,
que se via
que era de gente lavada,
e só por isso aquecia...


1 de Fevereiro de 1940
Prisão do Aljube
Miguel Torga







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