sexta-feira, 10 de abril de 2009

Miguel Torga


Coimbra, 2 de Janeiro de 1991
Quimioterapia. Quatro horas a ver pingar para dentro das veias o veneno que há-de matar a morte que teima em viver e medrar dentro de mim. O homem tem o triste vazio de, quanto mais a sente fugir, mais se agarrar à vida. De, quando vê chegada a hora da rendição, perder quase sempre o brio e em vez de enfrentar de cara levantada a fatalidade, bater implorativamente a todas as portas, da ciência, da crendice ou da ilusão. Eu vou ainda na primeira.
Coimbra, 2 de Janeiro de 1991
Uma simples palavra. O que eu a tenho esperado durante toda a vida da boca dos muitos a quem acudi e ainda acudo. Mas parto sem a ouvir. Ou não a mereço, ou os que ma deviam nunca a souberam dizer.
Coimbra, 2 de Janeiro de 1991
Sensação íntima de que estou por um fio. É agora...é logo. E, sem dar ouvidos à voz do pressentimento , arrasto-me todas as manhãs ao consultório, regresso à tardinha a gemer com os safanões do autocarro e subo penosamente a rampa da estrada da casa esperançado numa carta que me espere, numa boa notícia redentora, que sei que não vem, mas teimo em sonhar(...)
Miguel Torga, Diário

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