domingo, 1 de março de 2009

A face e a máscara


O que julgo haver de mais interessante nesta gravura é ela mostrar a base esquelética da face e, sobre ela, o complexo revestimento muscular e cutâneo (este que se adivinha apenas) das estruturas que definem ao nosso olhar a face humana, faltando evidentemente a rede vascular e linfática e, sobretudo , a anatomia nervosa em particular o nervo facial , que dinamiza todos os músculos da face.
Mas esta visão anatómica não reflecte senão o suporte anatomofisiológico do rosto humano e das suas expressões .
Como dizem Courtine e Haroche num excelente trabalho sobre "A história do rosto" , o rosto está no centro das percepções de si, da sensibilidade a outrem, dos rituais da sociedade civil , das formas do político (...) - o rosto fala".
A fisionomia está culturalmente associada ao eu e exprime o íntimo do indivíduo de forma única, quer nos momentos em que as emoções estão controladas, quer nos momentos de pulsão. O relacionamento interpessoal dentro das sociedades estruturou ao longo dos séculos códigos de comunicação através da expressão facial que actualmente se podem considerar como regras de conduta codificadas.
Os indivíduos em sociedade interagem também através de uma certa "ordem expressiva "mantida, como refere Goffman, cuja ruptura traduz uma associalidade que pode ser sancionada.
Esse controlo indirecto da conduta encontra um escape por um lado no intimismo individualista hoje tão em voga sob a forma de meditação e, por outro lado, na ficção artística , desde a imagem até às artes cénicas.
Vejo assim a Arte como uma forma vital de liberdade, sem o que ficaríamos prisioneiros ou da incivilidade da falta de comunicação, ou da dessocialização dos comportamentos não regulados pela norma social.
A massificação da sociedade actual conduziu também e inevitavelmente ao anonimato do rosto e deste evoluiu-se para a criação de grupos que se comunicam em circuito fechado com recurso aos novos meios como forma de definir identificações .
Tais grupos funcionam como reintegradores sociais que já não contemplam a percepção do rosto como forma de leitura comunicativa mas antes como espaços de ideias ou conceitos , muitas vezes estereotipados.
A própria sociedade de massas fomenta, paradoxalmente, os rostos que o imediatismo proporciona serem os mais importantes num certo momento, para passar a outro no momento seguinte e assim sucessivamente.
Estamos assim em plena desconstrução da individualidade psicológica e, onde deveria existir sinceridade no sentido que Rousseau afirmou para o Homem novo, existe descaracterização e máscara .

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